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quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Q de quebra


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Paul Klee - Conquistador (1930)


Escrevo cada vez menos. As ideias saem com maior dificuldade. Na realidade, já não sei mais por que escrevo, nem para quê. E nem como contar. Já não tenho mais palavras para as coisas que me acontecem. Talvez porque eu tente entender demais. Mais provável é que seja porque eu sinta demais. Aí não tem como traduzir, coisa que também não tenho feito mais. 
Mas o único jeito é escrevendo, para exorcizar. Eu só não sei como explicar, por onde começar. Acho que é mais fácil começar pelo fim, quando fui pregar os cartazes do fim de semana na geladeira. Um peça chatérrima brechtiana, mas que tinha um programa lindo; com uma vista bonita da cidade. A outra tinha o recado do universo para eu entender o que a gente era e eu não sabia.
Não sei o que está pensando agora. Pode ser que vá rir quando ler isso ou se comover ou que nem vá ler. O negócio é que eu achava que sabia quem você era, mais ou menos como se sentia. Eu ignorei que eu só sei o que você me contou, ignorei que eu sou só mais um X, e portanto estou fora da sua lista. Ignorei que você não abriu suas portas para mim e que recusou as que eu abri para você. E eu fiz tudo isso porque achei que entendesse como você sentia. Mas descobri que não.
Sempre me dei bem com gente aquariana, galera errante em tudo. Some meses, mas quando te procura é só te olhar e pronto, você compreende que nunca acabou, porque nunca acaba mesmo. O afeto sempre existirá, não é uma questão de proximidade, mas sim de trazer a pessoa no pensamento, de querer sentir e amar e pronto. Os aquarianos sabem que o mundo acontece, e que a gente tem que obedecer a ele muitas vezes. Então eles seguem os giros do mundo, mas carregam a gente junto, sem a gente saber. 
E eu na tranquilidade, achando que com um Sol igual ao meu seria até mais fácil. Experimentei pequenas e gentis surpresas. Delicadezas mesmo. Os presentes que ganhei, sempre inesperados, era como se eu mesma tivesse escolhido. O tempo gasto comigo, me ouvindo, me confortando, não tem deus que pague. Mas aí você me enfiou o dedo na ferida. E riu. E eu não te conheci. Melhor: aí eu descobri que não te conhecia. Que eu não entendi nada. Que sou só alguém com um outro X. Que talvez você não se importe. Não percebi o equilíbrio instável. 
E deixa eu te contar. À minha volta, agora, tem um monte de varetas coloridas espalhadas pelo chão.

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