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terça-feira, 29 de outubro de 2019

Meninos



1.


Tinha essa mania, de não voltar para casa depois da aula. Era menino, nove anos só. Mas a cidade era pequena, sem muito movimento. Nem a linha do trem (que era o ponto mais perigoso) representava uma ameaça para ele. Só um trauma. 
Dois anos antes ele vira o vizinho, coleguinha seu de escola, ser pego em cheio pela locomotiva. Iam os dois para casa, correndo. Antes da linha tinha um morro, ele diminuiu o passo e o amigo o ultrapassou. Foi a conta: quando terminou a subida viu o colega sendo atingido e carregado. Mais uns instantes e poderia ter sido ele, ou ele também. Tudo rápido demais: o trem, o choque, o caminho até em casa. 
Primeiro não conseguia respirar direito, e, quando conseguiu, correu o mais rápido que pôde. A mãe não entendeu nada quando viu seu caçula à porta da cozinha, lívido, suado e esbaforido, sem conseguir falar. Com muito esforço fez com que ele sentasse e bebesse um pouco de água. Mas antes de ele recobrar a fala e contar o que aconteceu, ela ouviu os urros da vizinha e o alvoroço no portão. 
Ficou o trauma. Quando tinha que cruzar a linha, às vezes lhe vinha um arrepio, ele suava frio, parava, olhava bem para os dois lados, mas mesmo assim demorava a conseguir atravessar. Mas medo? Medo não. Ele já tinha nove anos, estava crescido demais para ter medo. 
Então, naquela tarde cheia de vento de início de outono, ele fez como era de costume: não voltou para casa depois da aula e foi jogar bola no campinho. Só saiu de lá quando já estava escurecendo. No caminho, encontrou em cada esquina um soldado montando guarda. Quando entrou em casa encontrou a mãe desesperada.

"Graças a Deus! Menino, onde é que você estava?" 
"Jogando bola, mãe."
"Quer me matar de preocupação? Tá tudo perigo na rua. Teve uma revolução."
"Desculpa."
"Agora já foi. Já pro banho!"


Ele abaixou a cabeça e obedeceu à ordem da mãe. No chuveiro, enquanto assistia à água escorrer por suas pernas e pés até o ralo, relembrou o acontecimento do dia. Estranhou sim aquele monte de soldado na rua, mas não compreendeu o medo da mãe. Não sabia o que era revolução, mas não parecia algo que ele devesse temer. Havia guardas em todas as ruas. E guardas eram uma coisa boa. A própria mãe sempre lhe dizia que se algum dia ele se perdesse, que era para procurar um guarda, dizer seu nome e o dela, e não sair de perto até ela aparecer. Falar com estranhos não podia, com o guarda podia.
Aquele medo todo devia ser porque a mãe era mulher, e mulheres têm medo de tudo, mesmo as mães. Medo de chuva, de sol, de vento, de doença, de fogo, de perder os filhos, de estranhos, até de revolução. Ele não. Ele já tinha nove anos e era menino. Não tinha medo de nada.


2.


Virar soldado foi uma sensação indescritível. Talvez todos aqueles sentimentos juntos pudessem ser condensados em apenas um: satisfação. Uma satisfação enorme em vestir a farda e servir o país. 
Ele realmente acreditava que não havia sistema melhor do que o militar. Não era um modelo rigoroso, como muita gente dizia, apenas exigia atenção às regras e disciplina, porque não havia segundas chances. As regras eram claras e, uma vez esclarecidas, quem não cumprisse seria punido. Bastava memorizá-las e segui-las. Simples assim. A hierarquia militar também não permitia que houvesse favorecimentos ou privilégios. O respeito e a obediência tinham relação com a patente, e não com parentescos ou status. Além do que, no quartel a pessoa aprendia a ser organizada, a administrar bem sua rotina diária e, o mais importante, a sobreviver em situações-limite. Definitivamente, um aprendizado para levar para o resto da vida. 
Se tivesse sido possível, ele teria seguido carreira, mas não deu, pediu baixa ainda cabo. Não que não fosse dedicado, muito pelo contrário. O coturno ele engraxava e polia em casa com banho de parafina. Quando os colegas do regimento perguntavam como fazia para deixar daquele jeito, ele apenas respondia que era só polir bastante. 


"E pra que isso tudo?", o filho perguntou um dia.
"Caxiagem."
Os filhos sempre lhe pediam para contar suas histórias do tempo do quartel. Para os meninos o pai tinha vivido grandes aventuras. E ele se entusiasmava ao relembrar uma época boa da vida. Às vezes narrava a rotina de caserna, entoando cada toque da corneta e explicando seus significados. Os quatro se divertiam com a boa memória e a encenação do pai. Já quando queria impressionar, ele contava em detalhes sobre os dias de treinamento, com bombardeios-surpresa ao acampamento no meio da noite, longas caminhadas carregando peso até os joelhos dobrarem sozinhos, e treinos de tiro. 
Mas mesmo naqueles dias de vivências extremas, havia momentos de paz e calmaria, em geral à noite, logo depois do jantar, quando os soldados tinham um momento de descanso e conseguiam conversar e relaxar um pouco. Como ele gostava muito de ciência e astronomia, aquela era a hora em que ele se afastava do grupo e sentava em algum barranco para ficar olhando para o céu. Fora da cidade, a visão era muito mais impactante.
Dos tempos de militar, foi o que sobrou: a disciplina e a organização, as histórias, e o costume de observar o céu, que ele fazia questão de transmitir aos filhos. Nos meses mais quentes, ele os levava até o quintal, estendia uma esteira de vime bem grande onde todos podiam deitar e ensinava aos meninos tudo sobre planetas, estrelas, cometas e meteoros. 
Numa dessas muitas noites, o mais novo perguntou:
"Mas, pai. Você nunca teve medo?"
"Medo de quê?"
"De ficar no escuro sozinho?"
"Nunca fui de ter medo. Desde pequeno isso. Mas também, eu estava armado, e se precisasse de ajuda os colegas estavam logo ali."
"Então você não tem medo de nada, pai?"
"Hm… também não é assim."
"Então você tem medo de quê?"
"Quer saber o que sempre me deu medo?"
"Quero!", repetiram em coro.


A essa altura já estavam todos prestando atenção à conversa.


"Quando eu era sentinela em lugar afastado."
"O que é sentinela?"
"A sentinela é o soldado que fica na guarita, montando guarda. Tem vezes que você tem que ficar de serviço de madrugada, em área isolada. A sentinela não pode dormir, tem que estar a postos o tempo todo. E só pode deixar aproximar quem sabe a senha. Pode ser conhecido, gente do quartel, o coronel, não interessa. Você pergunta a senha, se a pessoa não responder e continuar se aproximando, a ordem é dar o aviso e apontar a arma. Se não houver recuo, tem que atirar. Então, quando eu ficava de guarda à noite nesses pontos afastados, às vezes dava muito medo. Acho até que não era medo, era uma coisa... nem sei dizer. Você fica ali na guarita, uma escuridão em volta, não passa carro nem gente nem nada. Mas você tem que continuar atento, olhando para todos os lados. Parece que a noite vai crescendo para dentro da guarita, uma sensação muito estranha. Fora os casos que a gente ouve falar."
"Como assim, pai?", perguntou o mais velho.
"Uma vez um colega saiu catatônico do serviço."
"Catatônico?"
"É. Mudo, estatelado. Que nem um boneco."
"E por que ele ficou assim?"
"Ninguém sabe. Encontraram o cara de manhãzinha já daquele jeito, sem falar nem se mexer, de olho arregalado. Vai saber o que aconteceu, o que o sujeito viu..."
"Ai, pai. Acho que eu quero entrar. Tô com frio."
"Eu também."
"Será que a mamãe não quer ajuda pra secar a louça?"


Nenhum deles queria continuar no quintal escuro. Então ele levantou, enrolou a esteira e seguiu com os filhos para dentro. 'Acho que ainda está passando o jogo', pensou.
3.


A revoada de cupins vem com a primeira chuva da primavera. Depois do sol e da ventania seca de agosto, um dia bate um vento diferente, as nuvens se acumulam e a tarde fica abafada e escurecida. As pessoas quando se encontram reclamam do calor atípico para a época do ano, do mesmo jeito que fizeram nos anos anteriores, afinal, depois de alguns meses de tempo mais ameno, elas acabaram esquecendo de como é sentir calor. O suor nas mãos, nos pés e nas dobras da pele incomoda, as pálpebras ficam pesadas depois do almoço, e até respirar fica mais difícil. Os mais sensíveis podem ter muita dor de cabeça ou sofrer com quedas de pressão arterial. Se for dia de semana, o expediente vai parecer interminável. Se for fim de semana, o cochilo depois do almoço será mais longo e banhos de piscina ou mangueira serão muito bem-vindos para amenizar o peso que a umidade veio trazer ao ar. 
Aí no fim da tarde vem a chuva, não tão violenta quanto no verão, mas mais firme que chuvisco de serra. Sobe um cheiro de terra e mato, e o calor continua sufocando tudo, mesmo depois de anoitecer. Os cupins então saem dos ninhos na direção da luz. É possível vê-los rodando em nuvem nos postes ou em torno das lâmpadas das casas, voando insistentes até suas asas se desprenderem e eles caírem no chão. 
Era uma noite dessas, abafada e modorrenta. Sua primeira noite de serviço depois da folga. A mãe tinha feito bife à parmegiana para o jantar, seu prato favorito. Ele repetiu duas vezes e arrematou com uma cerveja bem gelada. Acabou dormindo no sofá vendo o "Jornal Nacional". Foi a irmã que o acordou, quando foi para a sala assistir à novela. Ele levantou alvoroçado, vestiu a farda e agora seguia acelerado na estrada, senão não chegaria a tempo de render o colega. 
Ainda estava se sentindo meio aéreo. Na boca a saliva grossa, empastada pelo sono. Apesar do calor, levantou os vidros. Entrava agora no trecho de terra e, mesmo tendo chovido mais cedo, não queria correr o risco de perder todo o trabalho que teve no fim de semana limpando o carro por dentro. Ligou o rádio e sintonizou numa estação de seleção animada, mais para dançante, e fez o restante do percurso batucando no volante e embromando as letras em inglês. Só sabia um refrão ou outro, que a namorada traduziu para ele.
Quando embicou o carro no portão do quartel, faltavam exatos dez minutos para o turno da madrugada. Se estacionasse bem perto da entrada, se apresentaria a tempo.  
Aquele turno seria longo. A chuva só tinha servido para levantar um bafo quente do chão e dentro da guarita o calor era ainda pior. E, como tinha dormido antes de sair, ia passar a noite alerta. Em tese, era proibido dormir em serviço, mas como ele tinha o sono muito leve não se preocupava em cochilar de madrugada. Se alguém viesse ele perceberia muito antes que a pessoa de a pessoa se aproximar demais. E depois, um quartel no meio do mato, naquela cidadezinha, o maior perigo seria algum bicho venenoso ou assombração. 
As duas primeiras horas de guarda ele passou espantando pernilongos e inventando um jeito de se coçar sem se mexer muito. Mas depois foi o marasmo. Ele então recorreu a uma tática muito útil: contar coisas e inventar formas de contar coisas que em geral ninguém acha que é possível contar. Pedrinhas, touceiras, veios na madeira, rachaduras na parede… Quando essa técnica se esgotava, ele fazia uma seleção de músicas e cantava baixinho. E assim as horas iam passando na guarita. A noite ia ser longa.


4.


"Vito, deu merda."
"Como assim?"
"Não são eles."
"O quê? Como assim?"
"Não era quem a gente achava que era."
"Impossível, o endereço era aquele, a descrição batia: um casal e uma menininha. Eu vi a ficha."
"Pois é. Ou a informação estava errada ou conseguiram fugir."
"Tem certeza?"
"Acabei de sair do telefone com o Souza. A moça é filha de um feirante. O cara operário na montadora."
"Puta que pariu! E agora?"
"Vou ligar pro coronel."
"Tá maluco? O velho vai comer nosso fígado."
"Então a gente faz como? Devolve pra família assim, tudo sovado que nem pão?"
"Cala a boca, homem de Deus! Me deixa pensar!"
"Acho melhor a gente li..."
"Mandei calar essa boca! Vai buscar um café, vai."
"A essa hora?"
"E você acha que alguém vai dormir aqui hoje?"


Vito esfregou o rosto e respirou fundo. Pensou e falou sozinho todos os palavrões que lembrou. Começou a suar ainda mais. Não é possível. Não é possível. Aqueles incompetentes! Um bando de afoitos, puxa-sacos, tudo atrás de tapinha nas costas, transferência, promoção. Investigar direito que é bom… Filhos de umas putas gordas. Cretinos. E agora, meu Deus? E agora? Como é que eu vou sumir com esses três? E ainda por cima tem uma porra de uma criança. 
Odiava quando tinha criança metida na história. Não tinham culpa que os pais não valiam um tostão furado. Mas o que é que se havia de fazer? Se com as crianças eles abriam o bico, que jeito? Mas que ele tinha dó isso tinha. Os olhos arregalados, sem entender direito. Os maiorzinhos cagavam ou mijavam nas calças, desembestavam a chorar. Sempre que apareciam com criança, ele passava mal depois. Começava com uma dor de cabeça, que depois virava uma enxaqueca desgraçadíssima. Em casa, não conseguia jantar. Só entrava no banho e deitava no quarto escuro. Às vezes chegava a vomitar de madrugada. Quando isso acontecia era bom, porque aí pelo menos ele conseguia dormir um pouco. 


"Tá aí teu café. Vamos ligar pro coronel?"
"Nem pensar. Tive uma ideia. Tu veio com a Belina?"
"Vim."
"Tem gasolina para dirigir um tanto bom?"
"Enchi o tanque na vinda."
"Ótimo. Então chama o Viegas aqui. E arruma uma lona bem grande, deve ter no depósito do fundo."
"Hein?"
"Anda, homem. Faz o que eu tô falando."
"Tá bom, tá bom."





5.


Mesmo achando que não ia dormir, dormiu.
Acordou com barulho de carro na estrada. Olhou o relógio, já passava das duas. Era incomum, mas não impossível. Havia umas poucas fazendas e sítios para os lados do rio e, muito de vez em quando, passava um carro na direção da cidade. Normalmente alguma emergência. Mas o barulho vinha do lado da cidade. Estranho. Gente indo na direção do rio, àquela hora, era muito difícil. Ele mesmo nunca tinha visto. 
O carro continuava se aproximando. Ele podia perceber não só pelo barulho, mas também pela luz dos faróis, que iluminavam cada vez mais a estrada. Quando o carro entrou em seu campo de visão, conseguiu identificar uma perua de cor escura que tinha saído da estrada e seguia bem devagar no descampado a sua frente, até parar e desligar o motor.
Um casal de namorados na porta do quartel? Difícil. E não parecia que o automóvel estivesse enguiçado ou com problemas. Finalmente algo para deixá-lo em alerta. Segurou firme na arma e se manteve a postos, com total atenção a tudo. 


6. 


O dr. Silveira, diretor do Hospital Geral, retirou o pequeno jato de luz dos olhos do jovem, que se mantinha mudo e imóvel. A enfermeira levou o doente, o médico retirou o jaleco e sentou-se novamente. A sua frente dois homens fardados, de ar sério e compenetrado, um mais jovem e bastante alto, com uns óculos de lentes e armação bem grossas; o outro de meia idade, rechonchudo.


"Este homem pode ter presenciado algo. Um acidente talvez."
"Foi uma madrugada de serviço tranquila. Nos informamos."
"Os senhores têm certeza? Nada de anormal nas redondezas?"
"Certeza absoluta."
"Pois bem. Vamos mantê-lo em observação e fazer mais alguns exames. O médico que fez o atendimento já solicitou atendimento psiquiátrico. Tem histórico de doença mental na família?"
"Não sabemos. Mas os pais já estão a caminho." 
"Ótimo."
"É grave?"
"Difícil dizer. Ele pode estar melhor daqui a algumas semanas ou ficar internado para o resto da vida."
Os dois senhores se entreolharam. O rechonchudo pigarreou, tossiu um pouco e disse:


"Doutor, gostaria de pedir ao senhor que fosse discreto, mas precisamos ser informados de qualquer mudança no estado do paciente. O senhor veja, um caso assim, numa cidade pequena, sabe como é. Boataria, fofoca, invenções, enfim... sandices de caipiras não vão tardar."
"Lógico! Entendo perfeitamente. Os senhores serão os primeiros a saber de qualquer alteração."
"Antes mesmo de ir ao prontuário."
"Claro. Fiquem tranquilos."


O magro de óculos levantou os olhos, sorriu e estalou as mãos espalmadas nas coxas. 


"Ótimo! Muito bom saber que podemos contar com o senhor."


O médico sorriu sem jeito, ajeitou os óculos. Apertaram-se as mãos e se despediram. Assim que saíram, o médico fechou a porta atrás de si repassou todas as informações contidas no prontuário do jovem. Enquanto lia, um vinco fundo ia se formando entre as sobrancelhas. 
Quando colocou os papéis de volta sobre a mesa, parecia mais contrariado do que decidido. Recostou na cadeira, afrouxou um pouco o colarinho com as mãos. Levantou logo em seguida e foi até a janela que dava para o muro dos fundos do hospital. Acendeu um cigarro, tragado depressa, a fumaça soprada janela afora. 
É, não tem outro jeito, pensou.
Voltou à sua mesa. Pegou uma folha de papel timbrado, colocou na máquina e começou a datilografar. Quando terminou, pegou o telefone e mandou chamar a secretária. 


"Pois não, doutor." 
"D. Dirce, passe esta circular ao médico encarregado do 807, o do soldado que deu entrada de manhãzinha, vindo do 6o. BI.  Estou pedindo sua transferência imediata para a ala 7."
"Nossa, dr. Silveira. É caso de ala 7?"
"Infelizmente."
"Coitado, tão novinho."
"É D. Dirce, como eu digo sempre, para a doença, as mentais principalmente, não tem idade."
"E os pais do moço? Parece que estão vindo ainda. Será que não conseguem nem se despedir do filho antes da remoção?"
"É uma pena, D. Dirce. Dê ordem na recepção para que assim que chegarem, para serem mandados para cá."
"Pode deixar."


A secretária saiu de cabeça baixa. "Tão novinho, coitado." Repetia para si.


7.


Era seu aniversário. De manhã, todos agiram como se fosse uma dia como outro qualquer, o que lhe deu quase 100% de certeza que a mulher estava arquitetando alguma surpresa para a hora do jantar. Sendo assim, ele fingiu leve decepção com o esquecimento da esposa, mas sem forçá-la a dar-lhe os parabéns.
Na certa não deveria ser nada demais, um bolo, uns salgadinhos e docinhos, seus pais, os sogros e alguns vizinhos e amigos próximos como convidados, e, como era sexta-feira, ele ia poder beber um pouco mais do que o habitual. Mas agora que o dia estava terminando e ele se preparava para ir embora para casa, começava a ficar meio ansioso. 
Espero que a Bete tenha lembrado de fazer cajuzinho. Brigadeiro eu sei que vai ter por causa dos meninos, mas eu gosto é dos cajuzinhos. Será que eu compro umas cervejas no caminho? A Bete sempre compra pouco, acaba faltando. Espero que eles sejam mais criativos este ano, acho que ainda tem cueca e meia no pacote ainda… 
Acabou indo direto para casa. Quando passou do portão, estranhou. As luzes estavam todas apagadas. Ah, com certeza estão todos na cozinha esperando eu ir procurar. 
Mas não. Ao entrar, parecia que todos haviam realmente saído. Foi quando ouviu um pisar duro de botinas nas escadas. Foi quando as luzes se acenderam e ele viu os quatro filhos descendo, todos de farda, marchando enfileirados e cantando. 


Marcha soldado
Cabeça de papel
Se não marchar direito
Vai preso pro quartel


O quartel pegou fogo
a polícia deu sinal
acode, acode, acode,
a bandeira nacional


Terminada a canção, pararam os quatro na beira da escada, agitando bandeirinhas. Isso sim era uma surpresa.
Ele largou a valise no chão e, emocionado, abraçou os filhos. A mulher então apareceu no topo da escada, desejando feliz aniversário e incitando os meninos:


"Vamos, digam para o papai: o que vocês vão ser quando crescer?"
"Soldado."
"Polícia."
"Bombeiro."
"Hmmm..."


O menorzinho olhava para a mãe e para ele. Seus olhos começavam a marejar. Os outros riam baixinho. Ele começou a chupar o dedo.


"Não chora, meu filho!"
"Desculpa, pai. É que eu esqueci o que era pra eu ser."
"Não tem problema. O papai te lembra. Repete comigo."


"GE"
"NE"

"RAL."

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