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terça-feira, 29 de outubro de 2019

Meninos



1.


Tinha essa mania, de não voltar para casa depois da aula. Era menino, nove anos só. Mas a cidade era pequena, sem muito movimento. Nem a linha do trem (que era o ponto mais perigoso) representava uma ameaça para ele. Só um trauma. 
Dois anos antes ele vira o vizinho, coleguinha seu de escola, ser pego em cheio pela locomotiva. Iam os dois para casa, correndo. Antes da linha tinha um morro, ele diminuiu o passo e o amigo o ultrapassou. Foi a conta: quando terminou a subida viu o colega sendo atingido e carregado. Mais uns instantes e poderia ter sido ele, ou ele também. Tudo rápido demais: o trem, o choque, o caminho até em casa. 
Primeiro não conseguia respirar direito, e, quando conseguiu, correu o mais rápido que pôde. A mãe não entendeu nada quando viu seu caçula à porta da cozinha, lívido, suado e esbaforido, sem conseguir falar. Com muito esforço fez com que ele sentasse e bebesse um pouco de água. Mas antes de ele recobrar a fala e contar o que aconteceu, ela ouviu os urros da vizinha e o alvoroço no portão. 

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Q de quebra


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Paul Klee - Conquistador (1930)


Escrevo cada vez menos. As ideias saem com maior dificuldade. Na realidade, já não sei mais por que escrevo, nem para quê. E nem como contar. Já não tenho mais palavras para as coisas que me acontecem. Talvez porque eu tente entender demais. Mais provável é que seja porque eu sinta demais. Aí não tem como traduzir, coisa que também não tenho feito mais. 
Mas o único jeito é escrevendo, para exorcizar. Eu só não sei como explicar, por onde começar. Acho que é mais fácil começar pelo fim, quando fui pregar os cartazes do fim de semana na geladeira. Um peça chatérrima brechtiana, mas que tinha um programa lindo; com uma vista bonita da cidade. A outra tinha o recado do universo para eu entender o que a gente era e eu não sabia.
Não sei o que está pensando agora. Pode ser que vá rir quando ler isso ou se comover ou que nem vá ler. O negócio é que eu achava que sabia quem você era, mais ou menos como se sentia. Eu ignorei que eu só sei o que você me contou, ignorei que eu sou só mais um X, e portanto estou fora da sua lista. Ignorei que você não abriu suas portas para mim e que recusou as que eu abri para você. E eu fiz tudo isso porque achei que entendesse como você sentia. Mas descobri que não.
Sempre me dei bem com gente aquariana, galera errante em tudo. Some meses, mas quando te procura é só te olhar e pronto, você compreende que nunca acabou, porque nunca acaba mesmo. O afeto sempre existirá, não é uma questão de proximidade, mas sim de trazer a pessoa no pensamento, de querer sentir e amar e pronto. Os aquarianos sabem que o mundo acontece, e que a gente tem que obedecer a ele muitas vezes. Então eles seguem os giros do mundo, mas carregam a gente junto, sem a gente saber. 
E eu na tranquilidade, achando que com um Sol igual ao meu seria até mais fácil. Experimentei pequenas e gentis surpresas. Delicadezas mesmo. Os presentes que ganhei, sempre inesperados, era como se eu mesma tivesse escolhido. O tempo gasto comigo, me ouvindo, me confortando, não tem deus que pague. Mas aí você me enfiou o dedo na ferida. E riu. E eu não te conheci. Melhor: aí eu descobri que não te conhecia. Que eu não entendi nada. Que sou só alguém com um outro X. Que talvez você não se importe. Não percebi o equilíbrio instável. 
E deixa eu te contar. À minha volta, agora, tem um monte de varetas coloridas espalhadas pelo chão.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Lixinhos poéticos no. 1: Sextou



Meu amor,
O que você faria?
Me perguntaram um dia.
Um papo descontraído,
Mesa de bar,
Gente divertida
Depois de umas biritas.

Imagina
Você vai ao banheiro…
(número 1 ou número 2?)
[gargalhadas]
Número dois.
(Ok.)
E descobre que não tem papel.
O que você faria?

[Ih!]
[Caralho!]
[Difícil essa hein?]
(De calça arriada e rabo empinado iria pulando até a despensa.)
[Mais gargalhadas]
[Boa!]
[E se não tiver na despensa?]
(Limpo na tua cara.)
[Silêncio]
[Gargalhadas]

Quando aconteceu mesmo foi diferente.

sábado, 27 de abril de 2019

A Ana C.

Podem me prender
Podem me bater
Que eu
Me recuso.

Não
Não vou
Jogar o jogo.

Me recuso,
Ao medo
À tristeza.

Ainda que me tirem
Até o último
Fio de cabelo
Ou me arranquem
As unhas

Que me chamem de todos os nomes
À vontade,
Mas me recuso,
Ao consolo,
À paz.

Pois se há vida
Há paixão
Há vontade

E revolta.
Sangue
Em constante ebulição
Que não seca.
Grito pronto
Que não sai.
Água salgada
Que não verte nem turva a vista.

Brasa escondida
Onde eu fervo
Palavras que lanham
Olhares que queimam
Gestos de abrir ferida.

Quero vocês todos assim
Feridas abertas em praça pública.
Acuso
Não me excuso
E aponto armas
Forjadas dentro de mim.

Olhai e vede
Como o senhor é bom.
Tem as mãos sujas de sangue
de gente,
de bicho,
de mundo,
de inocentes e culpados.

Olha a sua mão, mamãe!
Pai, o que é isso no seu bolso?
Vocês estão doentes?
Se machucaram?
Não quero que vocês morram.

Calma, filhinha!
Esse sangue não é nosso.
Quer ver?
Mamãe vai ali
Lavar as mãos.

terça-feira, 9 de abril de 2019

∞0

0

O que é que falta?
Para a gente,
Dizer que não quer mais assim?


O que mais falta?
Para a gente,
Ver que não é por aí?


Quem é que falta,
Para a gente dizer que chega?
Para ver que não vale a pena?
Para pedir para mudar?


Quantos mais faltam?
Para a gente pensar outro jeito,
Outra forma de existir.


Uma existência plena,
Que não seja só minha,
Que não seja só sua,
Que não dependa,

Do extermínio do outro.

O outro,
Sombra,
Aquele que,
Sem saber,
Eu não conheço.


Talvez o que falte,
Seja uma outra guerra.
A guerra dos outros.