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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Aquário: um conto




I.

Teve naquela noite um sonho muito vívido, desses que passam para o corpo e ao acordar já não se sabe mais se se vive ou se sonha. Acordou antes que terminasse. Era muito cedo e ainda estava escuro. Virou-se para o lado da janela e ficou ali, debaixo das cobertas, aproveitando o limbo de não mais dormir e ainda assim não estar completamente desperta.
Não tinha pensamentos nem reflexões, apenas sentia o que acontecia em seu corpo. Logo começaria a clarear. Ultimamente passou a viver esse tempo. Acordava sempre muito cedo e da cama observava como a luz do sol ia ganhando força e mudando de tom ao longo da manhã. Antes era como se aquele momento não existisse. Havia o tempo antes do sono, custoso ou não, e depois o dia já firme, acontecido de sopetão. 
Devia ter relação com o lugar e a rotina que agora levava. A casa tinha janelas enormes, quase painéis de vidro. E mesmo nos quartos as cortinas eram leves, de modo que a casa estava quase sempre encharcada de luz. Até à noite não havia escuridão completa. Fora que ela decidiu não ligar TV nem rádio e não usar internet. Mantinha o celular carregado apenas para o caso de uma emergência e dispensou os empregados;
um casal de nordestinos que aproveitou a licença remunerada para visitar os parentes em sua cidade de origem, coisa que o ofício de caseiro quase nunca permite.
Escolheu o isolamento — um isolamento muito elegante, é verdade, numa casa confortável, com piscina, jardim e pomar, mas ainda assim um isolamento. Escolheu o isolamento para vivenciar a reclusão, para conseguir olhar para si própria, experimentar um contato consigo mesma. A única exceção era quando ia até a cidade para as compras de supermercado, que, com o passar do tempo, ela começava a espaçar. Comprava o máximo possível de mantimentos a cada vez para não ter que retornar com freqüência. No começo não ligava, era até um alívio; ver gente, movimento. Mas agora... tornara-se um suplício.
O incômodo começava já à entrada da cidade. Buzinas, carros de som, o trânsito que não fluía. E tudo concentrado naquela avenida comprida e apertada. Dentro do supermercado, desses de interior; a balbúrdia. Gente se acotovelando nas bancas da seção de hortifruti, apalpando sem pudor frutas e legumes, reclamando dos preços; os carrinhos atravancando a passagem pelos corredores enquanto a voz metálica do promotor profetizava as maravilhas promocionais do instante. Para ela aquilo tudo era alienante e artificial. Saía de lá irritadiça e, apesar de estar entre uma montoeira de gente, era como se não tivesse estado com ninguém. 
E começava a temer, porque não poderia ficar ali o resto da vida. No fim do ano a tia voltaria da Europa e aquela seria novamente uma casa de fim-de-semana. A varanda voltaria a reunir conversas de velhos, jogos de cartas e uma coleção de sobremesas de refratário. À noite, o gramado e a piscina seriam invadidos por música alta e barata, as mesas ficariam repletas de latinhas de cerveja, garrafas de vodca e pingos secos de sangue de carne e pozinho de farofa. A churrasqueira rodeada de rapazes com camisas pólo, sapatênis e copo na mão, rindo e gingando de leve enquanto olham as peitudinhas conversando na borda da piscina. E no domingo à tarde, depois que a família retornasse para a cidade, a casa seria tomada pelo silêncio e o movimento desanimado dos empregados, encarregados de limpar a bagunça e a sujeira que os patrões deixassem para trás.  
Mas ela era o que a casa era agora. Junto com a casa, ela também se tornara esse silêncio, esse sonho, esse vagar sem lugar no tempo. Os barulhos de insetos, do vento agitando a folhagem no jardim, da água da chuva. Gostava particularmente de quando chovia muito forte. Se fosse de dia, fazia uma panela de brigadeiro, ia para a varanda com a tigela, sentava na rede e ficava assistindo à chuva. Pela intensidade da cortina de água que cascateava do telhado e do repique das gotas na água da piscina, ela percebia a evolução da tempestade. Se chovesse de noite, ela ia imediatamente para a cama, porque o barulho da chuva era o melhor acalanto. E eram as duas, ela e a casa, comandadas pela luz, que, fosse do sol ou da lua, ordenava o que deveria ser feito.  
E agora era hora de levantar. Amanhecia finalmente.

II.

O cheiro do café passando era uma necessidade num dia como aquele. Não fazia frio, mas também não fazia calor. E o sonho a levara a um certo torpor, de quem bebeu demais ou teve enxaqueca na noite anterior. E para ela o cheiro do café despertava mais do que tomar. Colocou a cafeteira no fogo e pegou pão e manteiga para pôr na frigideira. 
Mas o que a fez despertar plenamente foi o telefone, que tocou antes que ela terminasse de fazer o café. Nem se lembrava mais de que o aparelho existia, muito menos que funcionava, afinal, nessas casas os telefones mais fazem do que recebem ligações. Tomou um susto.

"Alô."
"Sua louca! O que é que tu tá fazendo enfurnada aí?"
"Hein?"
"Tu não tá meio velha pra querer virar hippie não?"
"Quem tá falando?"
"Poxa, não tá reconhecendo minha voz?"
"Não."
"Sério?"
"Quem é que tá falando?"
"Girassol costumava ter uma memória melhorzinha."
"Não! Não brinca! O que é que você está fazendo no Rio? Você está no Rio?  Quando é que você chegou? Quem te falou que eu vim pra cá?"
"Calma, calminha. Uma pergunta de cada vez. Voltei semana passada."
"Tá tudo bem?"
"Sim. Eu é que te pergunto. O que é que deu em você? Se converteu ao zen budismo?"
"Não é nada disso."
"Então vem passar o feriado comigo."
"Feriado?"
"Nossa, tu tá levando esse negócio a sério mesmo."
"Quem te falou que eu estava aqui?"
"Sua mãe."
"Ah..."
"Sério. Vem pra cá. Estou com saudade."
"Não posso." 
"E se eu for para aí? Taí, vou passar o feriado com você."
"É sério isso?"
"Lógico!"
"Você ainda sabe chegar aqui?"
"Claro, girassol."
"Quando é que você vem?"
"Amanhã de manhã."
"Ok. Estou te esperando."

Desligou. No fogão, a moca roncava. O café estava pronto. Pegou uma das canequinhas francesas de cerâmica da cozinha (tudo naquela casa tinha custado caro, mas tinha um ar despretensioso. A nova moda dos ricos de verdade) e derramou nela o líquido grosso. Gostava assim, forte. Esqueceu de fazer a torrada. Pegou o café e foi sentar na varanda.
Era cedo ainda, e por isso batia um ventinho fresco. Encolheu-se na cadeira e ficou olhando o movimento da água da piscina; as mãos absorvendo o calor da caneca. Cada gole a fazia lembrar um pouco seu tempo com ele. 

Eram crianças e moravam um do lado do outro. Os dois saíam juntos quase toda tarde para passear de bicicleta na pracinha. Apostavam quem chegaria primeiro no carrinho de pipoca. Depois brincavam em todos os brinquedos e ainda invadiam a caixa de areia dos menorzinhos. Na volta, tomavam banho e lanchavam. O pai não gostava. 'Lourdes, isso não está direito. Homem e mulher junto no banho.' 'São duas crianças, Armando. Não têm maldade. E depois não estão sozinhos. Eu estou lá dando banho.' Punha então as mãos nos ombros do marido. Baixava a voz, mais carinhosa. 'Nossa filha é muito sozinha, Armando. Se pudéssemos ter dado irmãos para ela… Olha, levante as mãos pro céu que esses dois são tão amigos.'
Ela nem lembrava direito daqueles banhos. Entrava na banheira sob imposição da mãe, choramingando e pensando na hora de sair e poder tomar seu lanche. Sempre chegava da rua suada e com fome. Para ela o mais importante era matar a fome. Para a mãe, estar limpa. Ele, acho que não ligava tanto para a comida. Ficava sentadinho na banheira com uma cumbuca de louça, jogando água na cabeça. Depois fazia um pouco de "aleluia", que nada mais era do que jogar água para cima com as mãos. 'Imitar chuvinha', ele dizia.
E, ao contrário do que o pai temia, os banhos tiveram o efeito oposto. Tornaram-se como irmãos. E mesmo depois de crescidos trocavam de roupa um na frente do outro sem constrangimento nem segundas intenções. E nem tinha porquê. Ela tinha cabelos louros e olhos verdes. E ele só queria saber de mulatas. Os pais dele acharam o fim da picada quando o filho tomou gosto por quadras de escola e bailes funk. A mãe rezava muito, pedindo a Deus que o filho tomasse juízo. Ela tinha tanto medo, a cidade tão violenta e o filho em baile de favela. 'Mas sabe? Nessa idade quanto mais a gente vai contra, mais eles querem fazer. Então eu não digo nada, só falo pra ele que não me apareça em casa com "aquelas meninas". Tudo tem limite.' 
E ele obedecia.
Até que apareceu Luzinha. 

Luzia do Espírito Santo, filha de Xangô. Pai servente de obra, mãe doméstica desde os treze. Os dois unidos para que os filhos tivessem uma vida melhor. Luzinha gostava muito de estudar e teve sorte. A patroa da mãe pagou colégio particular e assim a menina pôde começar a realizar seu sonho: ser advogada. Criminalista. 
Ele viu Luzinha pela primeira vez na quadra. Alta, cabelos trançados, de vestido colorido e sandálias douradas; sambava e ria com as amigas. Aproveitava a noite de festa da escola — o anúncio do samba-enredo escolhido — para comemorar o estágio. Mesmo sendo aluna brilhante, custou mais que todas as colegas a conseguir uma vaga. Já estava ficando desanimada quando telefonaram de um escritório. Começaria na segunda. Então, naquela noite de sexta, Luzinha sambava radiante. Era noite de vitória. 
Ele só conseguiu se aproximar dela perto do fim da festa. Uma moça linda daquelas devia ter namorado, e ele não queria encrenca. Mas a noite passou inteira e nada de aparecer namorado. Tomou coragem, foi até ela e ofereceu caipirinhas para as moças todas da mesa. No começo Luzinha desconfiou. 'Esses playboyzinhos da Zona Sul… acham que a gente é tudo puta. Tudo disponível para comer.' Mas depois de conversarem um pouco viu que ele era diferente. E que era bom conversar com ele. E ele se surpreendeu. Como era bom conversar com ela.
Depois de algum tempo, não dava mais para obedecer à mãe. A Luzinha ele tinha que levar para casa. Bonita, inteligente, estudiosa; os pais iam deixar de besteira quando a conhecessem.   

Na semana do casamento ele foi uma última vez à casa dos pais. Ela foi junto, ia ser madrinha.

'Pai, tem certeza? Eu estou tão feliz.'
'Sua mãe disse que não vai a enterro de filho vivo. E se ela não vai, eu não vou.'
'Seu Ricardo, conversa com a Dona Clara. Ela vai enten...'
'Deixa, girassol. Não adianta. Vem, vamos. Não temos mais nada o que fazer aqui.'
O pai ficou sentado de cabeça baixa enquanto ele a puxava pelo braço para fora da casa. Logo ele, tão sereno. Nunca o vira num tal estado.
Naquele fim de tarde talvez tenha doído mais nela do que nele. Ver o amigo feliz e tendo que implorar pela presença dos pais na cerimônia de casamento. No carro, ele dirigia quieto e concentrado. Ela só conseguia pensar em quanto tudo aquilo era absurdo.

'Olha, com o tempo essa frescura acaba.'
'Se não acabar também, girassol, não quero nem saber.'

No sábado pela manhã fez um sol lindo de fim de ano. Ela entrou na igreja com um dos irmãos de Luzinha. E a mãe dela entrou com ele na igreja, e o pai dela com a mãe de Luzinha. E Luzinha subiu ao altar, simples e linda, num vestido de pano sóbrio muito branco, de braço dado com o pai. As tranças presas, envoltas por fitas brancas apenas. Sem véu e sem buquê. Luzinha achava flor cortada coisa de enterro. Depois teve churrasco e música na quadra. Ela bebeu horrores naquela noite. E se despediu dos dois com a fala mole. 'Vocês... vão ser... muuito... muuito… felizes.'
E foram. Por um ano e cinco meses. Depois disso vieram as flores cortadas, numa dessas merdas típicas de cidade grande. 
Não fazia muito tempo que Luíza tinha nascido. Os dois encantados com a filha, tinham saído num domingo para um piquenique no Aterro. Na volta, o casal vinha atravessando a passarela com o carrinho. Um rapaz armado percebeu a desatenção e fragilidade dos dois. 'Perdeu, perdeu, perdeu. Passa tudo.' Foi puro impulso. Luzinha reconheceu o rapaz. Moraram na mesma viela, chegaram a cursar o primeiro ano juntos, antes de ela trocar de colégio. Espantada, ela disse: 'Rômulo!'. O jovem se assustou, fez alguns disparos e fugiu correndo.
Durante um mês inteiro tudo o que ele fez foi dormir e chorar. Ela só assistia e o abraçava, segurando o próprio choro e implorando que ele comesse ao menos um sanduíche. Depois disso ele aceitou uma proposta de trabalho no interior do país e se mudou. Entregou a pequena Luíza à mãe, que fez questão de ficar com o bebê. Não suportava a idéia da neta crescendo em favela. 
No começo, ele ainda respondia seus e-mails. Mas no dia que ela pediu seu endereço (queria visitá-lo) ele parou de responder. Sabia pelos pais dele que estava bem. Sem avisar, aparecia uma vez por ano para ver a filha e depois voltava. Ela nunca mais o vira. Pela voz no telefone, parecia alegre, animado. Também, quanto anos tinha isso? Cinco, seis? Luíza estava tão bonitinha. Era boa aluna, igual à mãe. Mas estava crescendo com aqueles avós de valores embolorados. Era bem capaz que nem conhecesse os pais da própria mãe. 
Tomou o último gole de café e torceu a boca. Estava cheio de borra e frio. Teve vontade de cair na piscina, mas estava imunda. Que remédio: se quisesse usar, ia ter que limpar. Levantou, respirou fundo, prendeu os cabelos e foi até o quartinho atrás da sauna buscar cloro, o aspirador e a peneira.

III.

Era fim de tarde e o sol começava a bater na água. Ainda assim, sabia que ia sentir frio. Mas vontades eram para ser mortas, e ela estava com vontade de entrar na piscina. Largou a roupa toda no chão ao lado da espreguiçadeira e saltou com força; as pernas abraçadas e coladas no corpo, explodindo sem dó a água. Gostava de sentir esse primeiro transporte para dentro de um outro lugar. Cessavam os sons, seus movimentos respondiam a outras leis. Pensava que talvez fosse essa a sensação de uma viagem intergaláctica. Mas o mundo da água é implacável. Um consultório de analista: a imersão tem hora certa para acabar.
Não ligava que fizesse mal. Abriu os olhos e nadou para trás, gostava de ver seus cabelos dançando como águas-vivas, brilhando com a água e o sol. Girou o corpo, sempre assistindo ao movimento dos cabelos. Lembrou uma música, esboçou uma dança debaixo d'água. 'Nosso tempo acabou. Continuamos na próxima sessão.'
Voltou à superfície. O vento no corpo molhado dava frio. Nadou até a borda onde o sol batia e sentou ali para secar e esquentar. Encostou a cabeça no chão e observou os poros do braço salientes e os pêlos eriçados. O chão estava morno, quase quente. Viu então umas formigonas que seguiam em fileira na direção do jardim, levando pedaços de folhas cortadas. Lembrou-se de um livro que teve que ler na escola. Falava alguma coisa sobre as formigas serem um dos males do país. O outro mal não lembrava qual era, mas tinha um capítulo em que faziam molho de macarrão com sangue de gente. Não, o macarrão com molho de gente devia ser de algum filme (Fellini ou Svankmajer?) que assistiu bêbada na casa de algum amigo cult cinéfilo. Só podia ser. 
Ou não. Talvez tivesse sido no livro mesmo.

Resolveu que tinha que saber onde era a casa daquelas formigonas. Para não assustá-las, esperou que a última passasse por ela e as seguiu, de quatro, devagarinho para não ser percebida. A curiosidade aumentou quando notou que o formigueiro não ficava no jardim, como ela pensara, mas sim no mato para lá da estrada. Depois de atravessarem o jardim, pararam bem antes da cerca que separava a casa da estrada. Ela se escondeu atrás de uma touceira de erva-cidreira e acabou enfiando os joelhos em cocô de gato. 'Droga...' Mas dali conseguia observá-las sem ser vista.
As formigas depositaram a carga de folhas no chão e cada uma sentou numa pedrinha. Percebeu então que elas suavam e enxugavam a testa com as mãos.

'Olha, acho melhor a gente fazer uma pausa agora antes da travessia. Esse valão é perigosíssimo.'
'Esperamos até amanhã de manhã?'
'Você está louco, Anísio? Se o seu Polidoro não estiver com essa carga de manhãzinha não tem como tocar a obra. Ele esfola a gente vivo. Imagina, a peãozada toda sem ter o que fazer? E ganhando por dia ainda por cima! É rua na certa.'
'É… mas eu tô ficando com sono.'
'Tu é um mesmo um molenga, Anísio.'
'Ai, Geraldo. Passamos o dia cortando e carregando essa folharada.'
As outras formigas concordaram com Anísio.
'Olha, pessoal. Vamos fazer assim. Descansem, bebam água… quem quiser pode tirar um cochilo. Cochilo! Ouviu, Anísio? Assim que o sol terminar de descer, cada um pega sua carga, respira fundo e caminha o mais rápido que conseguir. Quando passarmos o valão podemos diminuir o passo, que aí não tem mais perigo.'

Assim que anoiteceu, as formigas retomaram o caminho. Pegaram as folhas com a boca e seguiram na direção da estrada. Agachada, ela foi atrás.

'Vocês não estão sentindo um cheiro estranho?'
'Anísio, deixa de onda.'
'Sério, Geraldo. Cheiro de titica.'
'Fica quieto e concentra, homem. Ou você ainda derruba sua carga. Simbora, pessoal! Muita atenção agora!'

Atravessaram a estrada, adentraram o mato e andaram muito, muito mais do que ela imaginou que formigas fossem capazes de andar. Seus joelhos estavam esfolados e ela sentia muita dor nas costas, mas agora era tarde para desistir. Quando chegaram a um toco de árvore velha e seca, as formigas começaram a desaparecer. Ela então se aproximou e viu que elas estavam entrando por ali. Enfiou a cabeça no tronco para espiar, só que se desequilibrou e caiu lá dentro.

Quando abriu os olhos, viu que tinha dois pés próximos do seu rosto. Tinha o corpo dolorido. Ouviu uma voz. Olhou para cima, mas não conseguiu identificar quem era, estava escuro. Ele se abaixou.

'Dormir no chão faz parte da sua nova filosofia de vida?'
'Você não chegava amanhã?'
'Chegava. Mas cheguei hoje.'
'Como entrou?'
'Pelo portão, oras. Estava só encostado.'
'Tem muito tempo?'
'Girassol, não faça tantas perguntas. Vamos, levanta daí.'

Ao ficar de pé, de frente para ele, lembrou-se de que estava sem roupa. O constrangimento fez com que se sentisse exposta e frágil. A falta de claridade ainda lhe proporcionou um certo alívio enquanto ia até o outro lado da piscina se vestir. Ele parecia não estranhar e nem se incomodar com a situação, e por isso ela forçou naturalidade. Fingiu frio para cobrir os seios com os braços cruzados, não correu e abotoou o blusão sem pressa.

'Está com frio?'
'Um pouco.'
'Melhor a gente entrar, não?'
'Sim. Sim.'
'Só uma coisa.'

Abraçou-a com força, e tão inesperado, que ela não pôde abraçá-lo também. Então manteve-se apenas dentro daquele invólucro apertado de braços, tronco e pêlo. Sentia a respiração funda dele investindo contra seu peito e aliviando num sopro abafado que lhe batia perto da nuca. 
Nunca gostou muito de abraços, principalmente os longos e apertados. Ficava sem jeito, amarrada numa breve prisão de afeto. Mas agora o desconforto a entristecia, porque ele precisava. Precisava sanar a ausência, a saudade; um silêncio de seis anos. E ela queria poder ter prazer naquele abraço, mas não conseguia. Só pensava em se desvencilhar. E não podia. Só lhe restava esperar que acabasse.
E acabou. Ele se afastou e a olhou (talvez enxergasse bem melhor que ela no escuro), alisou seus cabelos de leve, jogou-os para trás e ajeitou a franja por trás da orelha.

'Não sabia que tinha sentido tanto a sua falta.'
'E agora sabe?'
'Sei.'
'Então vamos entrar.' 


IV.


'Está com fome?'
'Muita.'
'Quer comer o quê?'
'Olha, eu comeria uma pizza.'
'Ih, aqui não entrega. Você sabe fazer?'
'Não.'
'Nem eu. Serve uma lasanha? Podemos montar uma rapidinho.'
'Pode ser.'

Ocuparam-se em encontrar os ingredientes necessários, fazer molho, montar a massa na travessa. Com a lasanha no forno, sentaram à mesa para esperar.

'A gente bem que podia abrir um vinho.'
'Não tem nada disso aqui. Só tem uns licores, uns troços enjoativos no bar.'
'Sério isso?'
'Ué? Qual o problema?'
'A gente vai beber o quê então?'
'Mate?! Água?!'
'Que pobreza, hein? Está gelado o mate pelo menos?'
Ela sorriu.
'Tá sim. Vou pegar.'

Pegou copos, a garrafa, e serviu. Agora, com luz farta, ela conseguia vê-lo bem. Não tinha envelhecido, mas tinha um jeito cansado, de quem andou muito, mas muito mesmo, e finalmente parava para descansar. 

'Mas você voltou de vez? Ou veio só pro feriado?'
'Vim pra ficar.'
'Como é que foi isso?'
'Você sabe como eu fiquei quando a Luzinha morreu. Fiquei sentindo que era assim, tipo um castigo. E era eu olhar para a Luíza, tão pequenininha tadinha, e começar a chorar. Achei que se ela ficasse com meus pais pelo menos ia ser melhor do que crescer sozinha comigo, todo zoado, deprimido.' 
'Aí eu fiquei lá naquele fim de mundo, você sabe.'
'Não, não sei. Quando quis saber você me ignorou.'

Ele olhou para dentro do copo. Tomou mais um gole.
'Está bom de açúcar?'
'Está sim.'
'E afinal de contas, onde era o tal fim de mundo?'
'Não era um lugar só. Na verdade, conforme a firma precisava eu me mudava. Sempre interiorzão.'
'E agora você tá trabalhando onde?'
'Pedi pra ficar na matriz. Tanto tempo assim, em deslocamento, não tinha muito como eles me negarem. Colocaram alguém com menos tempo de casa no meu lugar.'
'Mas você está bem?'
'A gente se acostuma, né?'
'Voltou por causa da Luíza?'
'Também. Um dia eu levantei e meu deu um troço esquisito. Parecia que eu não tinha vivido aquele tempo todo. Nem sei explicar. Tudo pareceu de mentira, fora do lugar. Aí vi que era hora de voltar.'
'Você está ficando onde?'
'Lá na mamãe.'
'Sério?'
'Ela mudou, girassol. Precisa ver, cuida tão bem da Luíza. Depois do que aconteceu, ela se arrependeu.'
'E os pais da Luzinha?'
'Ah, acabei de voltar. Não sei desses detalhes.'
'A Luíza não pode ser isolada. É a família dela e de onde ela veio também. A Luzinha...'
'Eu estou procurando apartamento já. Quando me mudar, Luíza vem morar comigo.'
Ele encheu o copo, incomodado.
'Já viu alguma coisa boa?'
'Vi um na rua atrás da minha mãe. É bom porque aí a Luíza não precisa trocar de colégio e, qualquer coisa, meus pais estão perto. Vamos ver. Segunda eu levo a papelada.'
'Que bom!'
'Olha, tá cheirando. Será que já está bom?'
'Vou ver.' 

Voltou com a travessa e depois pegou prato e talheres. Comeram em silêncio. Ele rápido, bebendo bastante junto com a comida. Depois largaram a louça suja na pia. A lavagem ficaria para depois.
'Você deve estar querendo tomar banho, descansar. Vou pegar toalha e lençol. Qual dos quartos você vai querer?'
'Precisa ser agora? Você tá com sono?'
'Tenho dormido cedo, mas hoje tá tudo diferente. Não devo ir dormir agora não.'
'Conversa um pouco mais comigo. Você não falou nada de você.'
'Você não perguntou.'
'Veio pra cá por quê?'
'Você vai rir.'
'Nunca ri de você.'
'Enchi. Tava cansada, de saco cheio de tudo. Da cidade, das pessoas, de mim. Aí, como a tia Hilda está morando fora e ninguém vem pra cá, eu pedi pra ficar um tempo aqui. Queria um pouco essa coisa de comer a fruta direto do pé, ouvir grilo, dormir com barulho da chuva.'
'E está gostando?' 
'Muito. Não queria ter que voltar.'
'Ué, não volta.'
'Não quero pensar nisso agora.'
'Sabe que nem caiu a ficha ainda?'
'Como assim?'
'Que você voltou, que tá aqui, comigo.'
'Eu sentia falta de conversar com você.'
'Eu também.'
'Mas sabe do que eu sentia mais falta?'
'Não!'
'De dançar com você.'
'Ih, é! A Luzinha que não gostava muito da gente dançando.'

Ele baixou os olhos. 

'Desculpa.'
'Tudo bem.'
'Quer dançar?'
'Não seria má idéia. Pega o computador.'
'Desliguei a internet.'
'Não acredito. Sua tia ainda tem aí aquela vitrola e os discos?'
'Acho que sim. Se está funcionando são outros quinhentos. Olha ali na estante.'
'Vem cá. Me ajuda a escolher.'
Dos muitos discos, escolheram um de capa velha, com o canto puído e o envelope plástico embaçado e amarrotado. Colocaram na vitrola, que mostrou que ainda funcionava. A música começou, preenchendo o ar vazio da sala. Abraçaram a cintura um do outro; ela encostou a cabeça em seu peito, como faziam desde crianças. Fechou os olhos e escutou a voz dele acompanhando baixinho a música. Não necessariamente dançavam. No passado, perderam incontáveis horas assim, parados, um encostado no outro, ouvindo música atrás de música. Coisa de doido mesmo. Mas aquilo costumava ser sua casa, onde entrava não sabia como e de onde saía relutante. Chorou muitos fins de namoro e brigas com os pais dançando com ele. Conversavam bastante e quando estava mais calma, ele apertava sua mão e sugeria: 'Vamos dançar, girassol.' E dançavam.
Mas dessa vez tudo estava diferente. Estranho. Inexplicável. Aquele era um corpo quente, mas não mais acolhedor e familiar. 
Ousou a profanação e abriu os olhos. Pelo vão da camisa aberta, com a ponta dos dedos, começou a acariciar seu peito. Sentiu nele um leve sobressalto. Levantou a cabeça e viu que ele a encarava um tanto surpreso. Entreolharam-se. Por um segundo, um minuto, uma hora? Não saberia dizer. O tempo tinha se aberto e ela estava do lado de fora, estudando os olhos que a olhavam. Não se lembrou de ter olhado seus olhos assim antes, tão dentro, tão sem fim. Percebeu que arfava e tremia um pouco. Mas susteve o olhar firme em seus olhos.
Devagar mas sem parar, ele foi inclinando a cabeça em sua direção; seus olhos escuros cada vez mais perto dos seus, até que a distância tornou-se insuportável. Desviou então o olhar para baixo e encontrou a boca, tão próxima da sua que também não dava mais para olhar.
Ousadia agora era fechar os olhos. E fechou. Sentiu então a boca dele encostar na sua e invadi-la com a língua, suave e inquieta. Segurou sua cabeça entre as mãos, afundou os dedos nos anéis do cabelo castanho, e devolveu língua com língua, que usou para explorar sua boca, sem pressa, como quem tateia no escuro. As mãos, desceu pelas costas até alcançar a pele por baixo da camisa e, deslizando para a barriga, apressou em lassear o cinto e abrir a calça, que ele chutou para trás assim que caiu, para depois investir o corpo contra o seu, até deitá-lo no chão. 
Tinha agora o mundo subvertido. A sala era o lustre no teto branco encardido, abaixo via apenas sua cabeleira densa, que se afastava pouco a pouco, a boca passando por cada pedaço de pele: orelha, pescoço, ombros… cada botão a ser aberto um ponto para se delongar: seios, estômago (no umbigo enfiou de leve a língua), o ventre. 
'A pele é o maior órgão do corpo'. 
Invólucro de e da carne.
Tirada a blusa, ele se livrou do restante. A partir dali não havia mais nada. Nem roupa, nem vergonha, nem motivo para vergonha. Eram apenas corpos fazendo o que é possível fazer com seus corpos; um tanto por instinto, outro tanto por intuição. 
Entreolharam-se furtivos, uma última vez, antes que ele metesse a cabeça por entre suas pernas, e depois a boca, a língua, o dedo, o pau. Não necessariamente uma única vez e nessa ordem. E sim na desordem que parecia ter tomado conta. A louça suja na pia, a vitrola roncando sem som, e dois corpos embolados e alimentados por sensações, a um só tempo intercomunicados e fechados em si, num pensar que não é exatamente pensar. 
E se fosse possível que alguém tivesse visto aqueles dois corpos, agora estirados, ofegantes, de olhos fixos no teto, diria com certeza que eram belos. Mas não de uma beleza de cinema, de quadro ou escultura de museu. Tampouco de cena de novela ou de romance. Eram de uma beleza de terra, intrínseca, como é belo um bebê ensebado e ensangüentado que acabou de nascer, uma fruta madura espatifada ao lado do pé ou um felino quando abate e estraçalha sua presa. 

V.

Quando acordou na manhã seguinte, estava em sua cama. Por um minuto desconfiou que tivesse sonhado aquilo tudo. Mas não. O cabelo ainda estava duro de piscina e embaraçado, e a virilha e as coxas pegajosas. O sol quarava o quarto com força. Já devia passar das onze. Levantou e foi para o banheiro. Não estava com muita vontade de entrar no chuveiro, mas faria bem para despertar. Ligou a ducha no máximo de pressão e temperatura e entrou debaixo do jato escaldante. Depois vestiu um roupão, sentou na banqueta em frente ao espelho e foi secando e desembaraçando o cabelo com cuidado. 
No corredor, nenhum barulho ou movimentação. Esse silêncio é o que estava fora do lugar. Ao descer, deu com uma mesa de café muito bem posta, ainda intocada. Mais nada. 
Foi encontrá-lo sentado na varanda, o olhar perdido na direção da piscina, uma caneca de café nas mãos. Na mesinha ao lado, um cinzeiro transbordando guimbas. 
Sentou-se ao seu lado, encolhida, as mãos presas entre as pernas. Ele continuou impassível. Ela não se atreveu, olhou também para a piscina.

'Não sabia que tinha começado a fumar.'
'Comecei, parei e voltei.'
'Não te vi fumando ontem.'
'Isso não vem ao caso. Estava só esperando você acordar pra me despedir.'
'Despedir?'
'E você ainda pergunta?'
'Achei que tivesse gostado.'
'Não seja sarcástica.'
'Então não seja criança.'
'Se é pra ser infantil, então faz de conta. Pronto: não aconteceu nada, foi tudo coisa da sua imaginação.'
'Não é assim.'
'O que é que deu em você, hein? Olha, pode ficar despreocupado. Não estou apaixonada nem quero casar, ok?'
'Agora está debochando.'
'Qual é o estresse, então?'
'A gente sempre foi como irmão.'
'Mas ontem não fomos.'
'Esse é que é o problema.'
'Volta a ser e pronto. Quer saber? Muito bom que não seja mais. Você virou foi um grande filho da puta e agora está querendo encher meu saco.'
'Hein? Ficou maluca?'
'Não. Nunca estive tão lúcida. Inclusive é mais fácil assim. Estou oficialmente te dando o pé na bunda.'
'Girassol...'
'Girassol o caralho. Não me chama de girassol. Girassol morreu.'
'Eu não queria...'
'Esse é o seu problema. Você nunca quis nada, nunca teve a intenção.'
'Não é tão simples.'
'Azar o seu.'
'Não estou te reconhecendo.'
'Ótimo. Melhor assim. Vamos fazer o seguinte? Já acordei, já estamos nos despedindo. Você já pode ir embora tranqüilo. Quando acabar sua crise de consciência, me liga. Ou não.'
Ele levantou, meio desnorteado. Quis abraçá-la. Ela recuou. Ele se afastou em direção ao carro. Agora quem não tirava os olhos da piscina era ela.
Quando já não se ouvia mais o barulho do carro, ela respirou fundo, entrou e sentou à mesa. Pôs um pouco de café na xícara, tomou um gole, fez uma careta.
'E ainda me faz café fraco.'
Levou a xícara e a térmica até a pia e entornou tudo no ralo. Pegou a moca, lavou e pôs um café novo no fogo. O dia estava bonito lá fora. E hoje a piscina já estava limpa. 
Eram de novo só ela, a casa e a luz do sol.

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