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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Aquário: um conto




I.

Teve naquela noite um sonho muito vívido, desses que passam para o corpo e ao acordar já não se sabe mais se se vive ou se sonha. Acordou antes que terminasse. Era muito cedo e ainda estava escuro. Virou-se para o lado da janela e ficou ali, debaixo das cobertas, aproveitando o limbo de não mais dormir e ainda assim não estar completamente desperta.
Não tinha pensamentos nem reflexões, apenas sentia o que acontecia em seu corpo. Logo começaria a clarear. Ultimamente passou a viver esse tempo. Acordava sempre muito cedo e da cama observava como a luz do sol ia ganhando força e mudando de tom ao longo da manhã. Antes era como se aquele momento não existisse. Havia o tempo antes do sono, custoso ou não, e depois o dia já firme, acontecido de sopetão. 
Devia ter relação com o lugar e a rotina que agora levava. A casa tinha janelas enormes, quase painéis de vidro. E mesmo nos quartos as cortinas eram leves, de modo que a casa estava quase sempre encharcada de luz. Até à noite não havia escuridão completa. Fora que ela decidiu não ligar TV nem rádio e não usar internet. Mantinha o celular carregado apenas para o caso de uma emergência e dispensou os empregados;