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sexta-feira, 20 de abril de 2018

M de Meditação

Reflexões repetitivas (a)près la méditation

Atenção à respiração, à postura, relaxamento, desprendimento, concentração, a porra toda da meditação (que é excelente, por sinal), e fui parar no meu primeiro berço (do qual eu tomei consciência e formei minha lembrança por foto, a posteriori), com o corpinho metido numa fralda apenas (nasci no carnaval, fazia um calor absurdo segundo minha mãe, então eu ficava só de fralda, com o ventilador na porta do quarto, para o vento não chegar direto em mim), os pés e o rosto roçando num lençol leve, branquinho, muito limpo e fresco.
Ser neném é ver o mundo de barriga para cima, são tetos, céus, dosséis, rostos enormes, tudo virado sobre nós. Versé. O melhor nado: de costas. Ser neném é boiar, até um certo momento. Até sentar. Vamos mudando de postura, e
o mundo muda para nós. Vamos nos insubordinando e vão tentando nos subordinar em resposta. Crescer, viver, envelhecer é uma eterna insubordinação seguida de tentativas de dominação. Faz sentido agora que eu tenha me remetido a essa primeira sensação do mundo durante a meditação: vê-lo por cima, numa atitude de subordinação insubordinada.
Diz-se que meditar é observar, é tomar consciência da própria consciência. É estar apenas, sem passado nem futuro. É o tempo do instante, o intempestivo de Deleuze. Talvez. Lembrei dos indígenas e dos animais. Os indígenas mais especificamente na relação da criança com o tempo e o mundo. Pelo que eu li, ser criança é um estado pleno, e não um projeto de adulto. Criança não é promessa, é um estado. Não se pergunta a uma criança o que ela será. Ela já é. As instâncias de tempo indígenas são diferentes. Futuro tem seu lugar no futuro. Lembro inclusive que em algum antropólogo li sobre as diferenças de conjugação e formação das frases nas línguas indígenas (ou melhor, na língua indígena em questão naquele artigo). Tudo isso devido à relação daquele povo com o tempo, completamente diferente da nossa.
Depois os animais. Os gatos parecem viver em meditação. Dormem 18 horas por dia e quando estão acordados contemplam na maior parte do tempo. A inconsciência.Talvez esta não seja a palavra certa. Animais matam e vêem morrer, logo sabem que são mortais. O que parece é que eles são privados da angústia com relação à morte. Não sabem de onde vieram e não estão nem aí para onde vão, muito menos o porquê de estarmos aqui. Porém, pensando melhor, talvez esse seja justamente o lance: talvez eles já nasçam com todas essas respostas. Por isso essa tranqüilidade. Já sabem de tudo e estão lavados de serenidade.

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