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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A linha tênue do gozo



A noite perfeita. Duas vasilhas e uma almofada. Em meio a citações poéticas, a agulha pela noite adentro atrás da poltrona. Estendeu-se da testa para a face, a transparência de uma máscara de cera amolecida. A ponta da língua nos lábios, a boca a se abrir com esforço. Do regaço para o chão, as mãos crispadas, agarrando a camisa. Tremeu inteiro. Nariz, boca, cabeça, peito. Subi nos seus joelhos. Aos poucos o tremor foi diminuindo. O peito banhado de suor. Com a outra mão afagou minha cabeça. Seu líquido encontrou o meu. Cessou o tremor. Por que tive o sentimento de que ele não estava mais ali? "Então, meu gato?" "Não é nada." A máscara úmida apagou-se tranqüila. Silêncio e pobreza. Recostou a almofada na cadeira e fechou os olhos. Fechei os meus. *

* O grosso dessa imagem foi construído a partir de trechos extraídos da cena em que Rahul, gato de Rosa Ambrósio, narra o momento em que Gregório se suicida, forjando um infarte, no romance As Horas Nuas, de Lygia Fagundes Telles. Uns poucos trechos são da mesma obra, e estão presentes nas páginas 42 e 123. A cena do suicídio está nas páginas 101-102. Edição da Rocco, de 1999.

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