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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

#TBT (ou ainda sobre resistir)

Para os meus amigos




Um político há alguns meses, em meados do ano passado, em resposta ao título de uma minissérie, Os Dias Eram Assim, pediu que os internautas postassem fotos dos tempos da ditadura. Como bons seguidores do ídolo, eles assim o fizeram, e o resultado foi uma coletânea de fotos de artistas na praia, rindo em festas e etc. O argumento que ele pretendia defender? De que "os dias eram assim" na realidade: a ditadura havia sido um tempo bom. Se até os intelectuais e artistas que foram presos e censurados estavam ali sorrindo à larga, como podemos afirmar que foi ruim?  As imagens não desmentem as palavras?


Pois bem. Hoje acabei de montar dois painéis. Resolvi brincar de Warburg. O primeiro painel era pequeno. Os outros dois são grandes, bem grandes. Um deles eu fiz variado: flores, lugares, animais, pessoas desconhecidas. O outro eu fiz de pessoas muito queridas comigo. Lógico que faltaram pessoas, depois terei que completar o quadro. Mas após observar um pouco, percebi um grande contrassenso. A grossa maioria das fotos era dos últimos dois ou três anos. Especialmente dos dois últimos. Foram anos extremamente difíceis, de grana, de acontecimentos, de barras pesadas políticas, nacionais, sentimentais e pessoais. Acho que nunca chorei tanto quanto nesses anos. Quis morrer várias vezes. Só que aí eu terminei esse painel e a impressão era de que eu nunca fui mais feliz. O que também é verdade.



Em primeiro lugar, existe a seleção. Como pessoas integrantes de uma sociedade, temos essa tendência a resguardar a felicidade, os momentos bons. Até porque, além de ser socialmente não convencional e pouco aceitável, os momentos ruins e tristes ficam gravados no corpo e no espírito de forma muito mais contundente. Quando buscamos guardar a memória do sofrimento, o fazemos em geral para um outro; alguém que precisa ter conhecimento do ocorrido. Quem precisa de "souvenirs" do próprio suplício? É inesquecível. Ou então, alguém está tentando negar a maldade infligida. Então a memória toma forma de prova. É preciso, ainda que doloridamente, guardar todos os resquícios do crime. Porque haverão de tentar negar. Como é o caso do famigerado político em questão.
Mas existe ainda um último ponto. As fotos reunidas pelos seguidores, assim como as que eu escolhi do meu passado recente, são retratos de momentos em que buscamos com maior afinco resistir. Foi trocando cócegas e sorvete com as crianças, acompanhando uma música no rádio enquanto fazia o almoço ou dirigia, que eu aguentei mais um e outro dia. Foram nas risadas regadas a chope, vinho e cerveja; trocadas em noites de bom papo (sério e profano), que encontramos uma forma de sobreviver. Foi dando os olhos uns aos outros, encarnando personas (eu era Deleuze, vocês eram quem?), interpretando Drummond a altos brados no Baixo Gávea, que nós mostramos nossa força. Força que, agora e nos anos que virão, precisaremos desenvolver ainda mais junto a uma couraça sobre-humana, para então resistirmos à altura dos guerreiros que somos. E sempre seremos.
E é isso que o nefasto político e os seus seguidores não suportam. Diante de sua força de aço; fria e estéril quanto um bisturi, sangramos sim. Mas sangramos e choramos sangue e lágrimas quentes, e devolvemos uma gargalhada estrondosa (esforçada, é verdade, mas cheia de vida). Vida que eles poderiam ter, mas da qual preferem se abster.



Amigos, ao que quer que venha pela frente, nossa melhor resposta será a nossa vida.

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