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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Faz dois janeiros


Janeiro. Uma tarde quente. Muito quente. Há dois anos. Poderia inclusive precisar o dia, porque algumas horas depois tiraram uma foto minha. Estou de costas para a paisagem de um dos lugares mais queridos no mundo para mim: o centro do Rio de Janeiro. Estou de cabelos soltos, vestindo minha bata branca favorita, no Parque das Ruínas. Uma imagem do instante em que se olha uma imagem.
Um conto é uma imagem. Um recorte de um mundo. Daquele início de tarde de cozinhar corpos e coisas, retive uma imagem. Gostaria de ter tido a oportunidade de fotografar. Não dizem que escritores são metabolizantes capazes de sintetizar o mundo? Gostaria de ter cristalizado aquela imagem num conto. Mas até hoje não consegui. Tentei, mas não sou pintor*. São mais até. Duas no mínimo.
Naqueles dias eu me tornava gente. Não sei se algum dia tinha deixado de ser, ou se nunca tinha sido. Mas naquele tempo eu começava ou voltava a sê-lo.
Último sinal da Augusto Severo antes da Teixeira de Freitas e do Passeio Público, em frente ao IHGB. Olhei à esquerda.
Havia um poste e uma lixeira laranja da Comlurb. De pé ao lado dela, uma moça gorda, bem gorda, segurava um gatinho muito pequeno num dos braços. 45 dias, no máximo. Com as mãos ela remexia uma sacola de papel grosso; tirava roupas dali de dentro. Punha-as de frente para o corpo, averiguava com cuidado e entusiasmo o que encontrara. Ela então se virou e gritou: pai, vem cá ver. Dos fundos do recuo, um senhor deitado, de aspecto jovial, só de bermuda, esboça um movimento. O sinal abre, nossa moto arranca. E eu nunca mais vi nem vou ver nem aquela moça nem o gatinho nem seu pai. Mas eles ficaram em mim; muito gente, muito vivos. A voz delicada daquela moça gordinha, com o mesmo afã das mulheres de liquidação de shopping. Só que diferente. Aquelas seriam roupas a preencher um guarda-roupa inexistente e vazio. Além daquele gatinho, de quem mais ela ganhava e a quem mais ela dava amor? Sua casa, sua cama; as ruas. Com quem é que tinha que deitar? Será que preservara a delicadeza apesar da vida na rua, ou ainda não a perdera? Era ainda um filhote? Não sei. Só sei que não eu não soube entrar nela, transformá-la em história, fazer vivo aquele minuto.
Aquilo era só o princípio. Dois anos depois elas se multiplicaram. Nas marquises e recuos dos muitos prédios públicos do centro da cidade; prédios que não sabemos quanto tempo levará até ruírem sobre esses corpos. E dos corpos dentro deles, matam-se uns aos outros, por inanição. Os que não morrem estão indo para rua também.

O que se pode fazer além de rezar? Não sei.

* Trecho de Pintor, de Tom Veloso e José Ibarra

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