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terça-feira, 18 de setembro de 2018

Genealogia da genealogia

Final de semana encontrei um amigo. Aquele clássico: você senta e engata aquele papo inicial, momento em que os seres mais íntimos não se distinguem de estranhos: comenta-se a chuva ou o sol, o excesso de frio ou calor… como vai a vida. Nesse instante diferenciam-se os íntimos dos meros conhecidos. O conhecido responde: Tudo bem! E você? O amigo rói o rito e transcende as formalidades. Vai te dizer como está. De fato.
Não está bem? O amigo de fato vai se importar com isso. Quer saber qual o problema. Família. Família… Essa palavra, em tempos políticos conturbados, e de eleição. Não é necessário ser vidente. Qual dos seus parentes vai votar no candidato fascista?, perguntei. A família praticamente toda, ele respondeu sem graça. Quase dei-lhe os pêsames. Combinamos de conversar em hora mais apropriada com mais tempo. Eu tinha experiência com aquilo. Passei quase um ano sem falar com meu pai por causa de política. E me arrependia.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

M de Meditação

Reflexões repetitivas (a)près la méditation

Atenção à respiração, à postura, relaxamento, desprendimento, concentração, a porra toda da meditação (que é excelente, por sinal), e fui parar no meu primeiro berço (do qual eu tomei consciência e formei minha lembrança por foto, a posteriori), com o corpinho metido numa fralda apenas (nasci no carnaval, fazia um calor absurdo segundo minha mãe, então eu ficava só de fralda, com o ventilador na porta do quarto, para o vento não chegar direto em mim), os pés e o rosto roçando num lençol leve, branquinho, muito limpo e fresco.
Ser neném é ver o mundo de barriga para cima, são tetos, céus, dosséis, rostos enormes, tudo virado sobre nós. Versé. O melhor nado: de costas. Ser neném é boiar, até um certo momento. Até sentar. Vamos mudando de postura, e

E de Estrela


Para Artaud

Vida pesada essa. Sempre muito esforço e quase nenhum retorno. Mamãe vai dizer que sou ingrata, e ela provavelmente está certa. Só que às vezes dá um desânimo, em especial no começo do dia, quando por algum motivo você acorda e dá com o sol por nascer. O fundo do céu talhado de rosa, o resto é um azul leve, logo não será mais daquela cor. Essas horas em que o mundo escancara suas transições, que no entanto são constantes, só a gente que não percebe. Você não colocou o despertador nem está saindo de uma festa. Não passou a noite com alguém especial, nem escrevendo ou meditando. Você simplesmente acorda, vai ao banheiro e vê o mundo acontecendo da janela lateral, destituído de poesia e sentido no seu mundo.
O sol ali, sem pedir licença nem perdão nem plateia, surge. Ele não indica mais um dia de lida que começa nem chama os boêmios para o café na padaria. Nessas horas a gente só assiste, insignificante. Tudo parece tão besta e fora de propósito. Trabalhar, ganhar dinheiro, construir carreira, limpar a casa, brigar por um mundo melhor, por direitos, pela divergência de preço no caixa do supermercado. O sol nascendo é real, a única coisa real, inevitável. O resto é um desgastado teatro de costumes do século XIX. Protocolos de um jantar entre líderes de Estado. Tem novela e jornal de segunda a sábado. Futebol às quartas e domingos. Para vagabundo todo dia é fim de semana. Gente direita, que leva a vida como tem que ser, sabe a hora da diversão e a hora da obrigação. Bons cidadãos, gente de bem. A comunidade que todos queremos: educação, segurança, saúde, infraestrutura e saneamento básico. Que belo plano de governo! Uma beleza!
Ao trabalhado na condução, aquele sol indica mais um dia de labuta. As faxineiras vão lavar pias cheias de louça, passar café, limpar cocô de cachorro no quintal. O operário carregar sacas de cimento, operar máquinas, erguer mais um edifício. Lançamento, imperdível, 2 quartos (3o. reversível), vaga de garagem, área de lazer com deck molhado, espaço gourmet, brinquedoteca e espaço fitness. Entrada e mais um zilhão de prestações. Pagamento facilitado. Visite o decorado.
O boêmio sorri para o sol, o dia nasce feliz para ele. Aplaude e vai para casa (se conseguir) curar a bebedeira. A socialite olha-se no espelho, decide onde necessita de nova plástica, e então fecha as cortinas e toma seus tranquilizantes. O resto nem vê. Levanta quando já é dia e segue sua trajetória rumo ao sucesso, com ajuda de café e rivotril.
E o sol lá nascendo, em períodos fixos, até que o cosmos decida o contrário, sem piedade nem consideração por nenhum de nós.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Profanações




Treva, treva. O universo inteiro. A terra vazia e nua; e a face e o espírito das águas e a luz. João alumia os que vivem nas trevas e na sombra. Lucas foge nas ondas. A treva um remédio. A treva de inteligência. Idéias claras, a única luz a estupidez de luta. Enfim, quanto é vão o mundo e a disputa. Ilusão. Só encontrei dor e confusão bruta.

A linha tênue do gozo



A noite perfeita. Duas vasilhas e uma almofada. Em meio a citações poéticas, a agulha pela noite adentro atrás da poltrona. Estendeu-se da testa para a face, a transparência de uma máscara de cera amolecida. A ponta da língua nos lábios, a boca a se abrir com esforço. Do regaço para o chão, as mãos crispadas, agarrando a camisa. Tremeu inteiro. Nariz, boca, cabeça, peito. Subi nos seus joelhos. Aos poucos o tremor foi diminuindo. O peito banhado de suor. Com a outra mão afagou minha cabeça. Seu líquido encontrou o meu. Cessou o tremor. Por que tive o sentimento de que ele não estava mais ali? "Então, meu gato?" "Não é nada." A máscara úmida apagou-se tranqüila. Silêncio e pobreza. Recostou a almofada na cadeira e fechou os olhos. Fechei os meus. *

* O grosso dessa imagem foi construído a partir de trechos extraídos da cena em que Rahul, gato de Rosa Ambrósio, narra o momento em que Gregório se suicida, forjando um infarte, no romance As Horas Nuas, de Lygia Fagundes Telles. Uns poucos trechos são da mesma obra, e estão presentes nas páginas 42 e 123. A cena do suicídio está nas páginas 101-102. Edição da Rocco, de 1999.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Faz dois janeiros


Janeiro. Uma tarde quente. Muito quente. Há dois anos. Poderia inclusive precisar o dia, porque algumas horas depois tiraram uma foto minha. Estou de costas para a paisagem de um dos lugares mais queridos no mundo para mim: o centro do Rio de Janeiro. Estou de cabelos soltos, vestindo minha bata branca favorita, no Parque das Ruínas. Uma imagem do instante em que se olha uma imagem.
Um conto é uma imagem. Um recorte de um mundo. Daquele início de tarde de cozinhar corpos e coisas, retive uma imagem. Gostaria de ter tido a oportunidade de fotografar. Não dizem que escritores são metabolizantes capazes de sintetizar o mundo? Gostaria de ter cristalizado aquela imagem num conto. Mas até hoje não consegui. Tentei, mas não sou pintor*. São mais até. Duas no mínimo.
Naqueles dias eu me tornava gente. Não sei se algum dia tinha deixado de ser, ou se nunca tinha sido. Mas naquele tempo eu começava ou voltava a sê-lo.
Último sinal da Augusto Severo antes da Teixeira de Freitas e do Passeio Público, em frente ao IHGB. Olhei à esquerda.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

#TBT (ou ainda sobre resistir)

Para os meus amigos




Um político há alguns meses, em meados do ano passado, em resposta ao título de uma minissérie, Os Dias Eram Assim, pediu que os internautas postassem fotos dos tempos da ditadura. Como bons seguidores do ídolo, eles assim o fizeram, e o resultado foi uma coletânea de fotos de artistas na praia, rindo em festas e etc. O argumento que ele pretendia defender? De que "os dias eram assim" na realidade: a ditadura havia sido um tempo bom. Se até os intelectuais e artistas que foram presos e censurados estavam ali sorrindo à larga, como podemos afirmar que foi ruim?  As imagens não desmentem as palavras?