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sábado, 25 de novembro de 2017

E de Estrela





Para Artaud

Vida pesada essa. Sempre muito esforço e quase nenhum retorno. Mamãe vai dizer que sou ingrata, e ela provavelmente está certa. Só que às vezes dá um desânimo, em especial no começo do dia, quando por algum motivo você acorda e dá com o sol por nascer. O fundo do céu talhado de rosa, o resto é um azul leve, logo não será mais daquela cor. Essas horas em que o mundo escancara suas transições, que no entanto são constantes, só a gente que não percebe. Você não colocou o despertador nem está saindo de uma festa. Não passou a noite com alguém especial, nem escrevendo ou meditando. Você simplesmente acorda, vai ao banheiro e vê o mundo acontecendo da janela lateral, destituído de poesia e sentido no seu mundo.
O sol ali, sem pedir licença nem perdão nem plateia, surge. Ele não indica mais um dia de lida que começa nem chama os boêmios para o café na padaria. Nessas horas a gente só assiste, insignificante. Tudo parece tão besta e fora de propósito. Trabalhar, ganhar dinheiro, construir carreira, limpar a casa, brigar por um mundo melhor, por direitos, pela divergência de preço no caixa do supermercado. O sol nascendo é real, a única coisa real, inevitável. O resto é um desgastado teatro de costumes do século XIX. Protocolos de um jantar entre líderes de Estado. Tem novela e jornal de segunda a sábado. Futebol às quartas e domingos. Para vagabundo todo dia é fim de semana. Gente direita, que leva a vida como tem que ser, sabe a hora da diversão e a hora da obrigação. Bons cidadãos, gente de bem. A comunidade que todos queremos: educação, segurança, saúde, infraestrutura e saneamento básico. Que belo plano de governo! Uma beleza!
Ao trabalhado na condução, aquele sol indica mais um dia de labuta. As faxineiras vão lavar pias cheias de louça, passar café, limpar cocô de cachorro no quintal. O operário carregar sacas de cimento, operar máquinas, erguer mais um edifício. Lançamento, imperdível, 2 quartos (3o. reversível), vaga de garagem, área de lazer com deck molhado, espaço gourmet, brinquedoteca e espaço fitness. Entrada e mais um zilhão de prestações. Pagamento facilitado. Visite o decorado.
O boêmio sorri para o sol, o dia nasce feliz para ele. Aplaude e vai para casa (se conseguir) curar a bebedeira. A socialite olha-se no espelho, decide onde necessita de nova plástica, e então fecha as cortinas e toma seus tranquilizantes. O resto nem vê. Levanta quando já é dia e segue sua trajetória rumo ao sucesso, com ajuda de café e Rivotril.
E o sol lá nascendo, em períodos fixos, até que o cosmos decida o contrário, sem piedade nem consideração por nenhum de nós.

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