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domingo, 1 de outubro de 2017

Lixinhos Literários no. 6 (Fofoca no prédio)


'Chegou tarde', vó Rosa diria.
A web tem um bafafá diferente para cada semana, hoje já é domingo e venho falar de algo que foi bafafá na semana anterior. Nessa que está acabando, o monotema é "criança + gente pelada em museu". Então, vou falar de assunto velho, enterrado semana passada, como provavelmente essa segunda-feira enterrará o "criança + gente pelada em museu". Mas vou contar porque é divertido, e eu quero contar e pronto.
Ontem fui fazer umas torradas, caiu um pouco de orégano na frigideira e eu não percebi. Dali a alguns minutos, começou a subir um cheirinho que me lembrou de um episódio engraçado dos meus tempos tijucanos.

Morei quase dez anos no quarto andar do edifício Mongeral XV, na Barão de Mesquita. Nove andares, quatro por andar, o que equivalia a dois vizinhos de lado, um de cima e um de baixo. No apartamento dos fundos morava um casal de velhinhos, seu César e dona Maria José. No da frente, à minha esquerda, a proprietária do apartamento onde eu morava, dona Conceição. E à minha direita tinha um apartamento que alugou e desalugou quatro ou cinco vezes naqueles nove anos. Eu me lembro da dona Madalena, depois do pai da Jarina do segundo andar, depois uma quarentona calada, meio gorda, e por fim uma morena de cabelo liso e comprido, muito quieta, jovem ainda, mas já avó.
Pois bem, era de noitinha e eu tinha acabado de terminar uma aula e levava o aluno até a porta. Encontramos o corredor nublado de fumaça, vindo do apartamento da direita. Me despedi do aluno e acionei meu modo "política da boa vizinhança". Toquei a campainha e aguardei que alguém atendesse. Dali a um pouco atendeu a vizinha, entreabrindo a porta e com cara de assustada. Perguntei se estava tudo bem, afinal tinha muita fumaça vindo do apartamento dela. Meio ríspida, ela respondeu que sim, pediu desculpas e fechou a porta. Me desculpei também e fui para casa.
Passados alguns dias, nos encontramos no elevador. Ela, meio sem graça, veio se explicar, contou que naquele dia estava com uma amiga fazendo uma defumação e acabaram exagerando na quantidade. Conversamos no que restou de tempo daquela viagem expressa até nosso andar. A partir dali notei que, de tempos em tempos, realmente vinha um cheirinho de "Palácio das Velas" do apartamento dela. O que era o suficiente para excitar a tacanhice da fofoca em mim.
Na primeira oportunidade comentei tudo com a dona Conceição: a fumaça de defumação no corredor e o cheirinho de orégano que vinha do apartamento da mulher.  Conclusão nossa: tínhamos uma vizinha macumbeira.
E o que as mulheres fofocam com as amigas, elas acham que também será de interesse do marido. Pois bem. Uma noite, dessas em que se está na frente da televisão, mais por costume do que por interesse, falei:

— Você não sabe, acho que a vizinha aí do lado é macumbeira. Até contei para a dona Conceição. Ela também acha a mulher meio estranha.

Há vários tipos de marido: tem aqueles que ignoram as esposas, concordam com um muxoxo só para desconversar sem irritá-las. Tem os que pedem silêncio, jurando que depois ouvem a história com calma. E tem o Marquinhos.
Na maior seriedade, ele respondeu:

— Quando eu estiver com a dona Conceição, eu vou contar para ela que às terças você vai à missa.

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