Páginas

quinta-feira, 15 de junho de 2017

D de Divagação



Túmulo de Inês de Castro - Mosteiro de Alcobaça
E cá estou eu, precisando escrever um trabalho para ser entregue daqui a uns 15 dias, mas eu persisto em me manter aqui na fluência do texto semiautobiográfico.
Os cubículos da biblioteca da FALE têm janela para um jardinzinho, quase como o do Mosteiro de Santo Antônio da Carioca ou como o do Santuário de Pádua. O de Pádua é maior e mais bucólico, o do Mosteiro do Rio mais arborizado. O daqui tem umas folhinhas baixas, de um dos lados grama esmeralda alta. O centro um retângulo de pedras mais ou menos grandes, alaranjadas. Em cada lado um banco de alvenaria. Tão bonitinho, tão convidativo o pátio. Mas todo mundo só passa por ali, ninguém ocupa. Aí esses quatro banquinhos com jardim no entorno e centro de pedra ficam parecendo uma instalação, uma grande obra de arte, tal qual uma obra de arte dos dias de hoje: todo mundo olha, mas ninguém desfruta.
Isso me lembra os passeios pelas mil e uma igrejas da Alsácia e os castelos da Bavária.

Uma igreja é um grande museu. Mas hoje. Algumas viraram museus mesmo. Mas outras são pseudo museus. Um depósito de obras de arte, porém, por mais antigas, decrépitas ou antiquadas, lá elas estão vivas, porque num lugar ocupado por gente viva fazendo coisas vivas, coisas da vida. Da vida religiosa, que seja. Mas coisas de quem está vivo.

O museu no molde em que conhecemos tornou-se para mim um lugar onde eu não quero estar. Porque uma visita ali é praticamente como quando alguém morria ou quando era a vez do meu pai de levar minha avó ao cemitério.
Foi em junho do ano em que eu nasci que minha avó perdeu seu primogênito: o tio Roberto. Tio Roberto, o porra louca, bêbado. Daqueles sedutores natos: quanto mais defeitos, mais todo mundo se apaixona. Morreu num acidente horrível de moto: um caminhão bateu nele à noite na Dutra. Uma porrada que nem o capacete que ele não estava usando salvaria.
Minha avó ia toda semana no cemitério visitar o tio Roberto. E dez anos depois meu avô também. E quando ela ficou mais velha, cada semana um filho levava. E às vezes eu ia com meu pai. Aqueles túmulos lindos, de gente rica, com estátuas, pórticos, jardinzinhos… as coisas mais lindas. Era um passeio enfadonho se eu fosse só para acompanhá-los até o túmulo da família, que era bem sem gracinha. Então eu me divertia contemplando as obras de arte e os retratinhos, com nome e data de nascimento e morte. No São João Batista, em Botafogo, foi a última vez: enterramos o irmão de uma amiga e fizemos o caminho de volta procurando os defuntos ilustres:  Portinari, Giorgi, Taunay, Di Cavalcanti, Bernardelli, Oiticica, Leão Veloso, Cozzo, Santa Rosa, Albuquerque, Pancetti...o jet set do além.
Cemitério, mausoléu, museu.
Não tenho mais vontade de entrar em cemitérios. A última capital interessante de verdade em que eu estive, fora Roma, foi Barcelona. Aliás, Barcelona me pareceu em certa medida uma Roma muito colorida. Só que não. É outro espírito. É a Catalunia. E tem Gaudì.
Gaudì arquiteto, extravagante, ousadamente cafonérrimo. Suas casas eram pensadas para serem obras de arte. Vi uma onde inclusive as maçanetas desenhadas para encaixar melhor nas mãos, o tamanho das janelas para controlar a entrada de luz, tudo pensado e belo; e habitado.
O resto tem sido esse marasmo, onde eu não quero mais entrar. Só queria museus ocupáveis e não visitáveis.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Poste aqui sua mensagem. Linguagem obscena ou agressiva não será tolerada.