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domingo, 12 de março de 2017

Ensaio Pasolini - Futebol e Poesia

O futebol "é" uma linguagem com seus poetas e prosadores


Pier Paolo Pasolini
Tradução: Nicole A. Marcello

Pasolini joga futebol. Foto de Federico Garolla. Fonte: Centro Studi Pier Paolo Pasolini di Casarsa della Delizia

No debate em curso acerca dos problemas linguísticos que dividem artificialmente literatos de jornalistas e jornalistas de jogadores de futebol, fui entrevistado por um jornalista muito simpático para "O Europeu". Mas as minhas respostas na revista mostraram-se um tanto inconsistentes e fracas (devido às exigências jornalísticas!). Como o assunto me interessa, gostaria de retomá-lo agora com mais calma e com plena consciência daquilo que digo.
O que é uma língua? "Um sistema de signos", responde um semiólogo, no modo mais exato atualmente.
Mas esse "sistema de signos" não é necessariamente apenas uma língua escrita e falada (esta aqui que estamos utilizando agora: eu, ao escrever; e você leitor, ao ler).
Os "sistemas de signos" podem ser muitos. Tomemos um caso: eu e você, leitor, estamos num aposento onde também estão presentes Ghirelli e Brera, e você quer me dizer algo sobre Ghirelli que Brera não pode ouvir. Sendo assim, você não pode falar comigo por meio do sistema de signos verbais: você é obrigado a adotar um outro sistema de signos. O da mímica, por exemplo. Você então começa a revirar os olhos, fazer caretas, agitar as mãos, sinalizar com os pés e etc, etc. Você é o "codificador" de um discurso "mímico" que eu decifro. Isso significa que temos em comum um código "italiano" de um sistema mímico de signos.
Um outro sistema de signos não verbal é o da pintura; ou o do cinema; ou o da moda (objeto de estudo de um mestre nesse campo, Roland Barthes); etc, etc. O jogo de futebol é um sistema de signos, ou seja, uma língua, mesmo que não verbal. Por que faço essa afirmação (que desejo prosseguir sistematicamente daqui em diante)? Porque a querela que coloca a linguagem dos literatos e a dos jornalistas uma contra a outra é falsa. E o problema é outro.
Vejamos: cada língua (sistema de signos escritos e falados) possui um código geral. Tomemos o italiano: eu e você, leitor, ao usarmos este sistema de signos, nos entendemos, porque o italiano é nosso patrimônio comum, "uma moeda de troca". Contudo, cada língua é articulada em várias sublínguas as quais possuem cada qual o seu subcódigo. E assim os médicos italianos compreendem-se uns aos outros — quando usam seu jargão especializado — porque todos eles conhecem o subcódigo da língua médica. Os teológos italianos compreendem-se uns aos outros porque possuem o subcódigo do jargão teológico, e assim por diante. A língua literária também é uma língua de jargões que possui um subcódigo (na poesia, por exemplo, ao invés de dizer "expectativa", pode-se dizer "esperança", mas nenhum de nós se impressiona com esse aspecto burlesco, pois é sabido que o subcódigo da língua literária italiana requer e admite que na poesia sejam usados latinismos, arcaísmos, oxítonas, etc.
O jornalismo é apenas um ramo menor da língua literária. Para compreendê-lo, nos valemos de um sub-subcódigo. Em outras palavras, os jornalistas nada mais são do que escritores que, para vulgarizar e simplificar conceitos e representações, valem-se de um código literário, digamos assim — para ficar no campo esportivo —, de série B. Até a linguagem de Brera é de série B em comparação com a de Carlo Emilio Gadda e de Gianfranco Contini.
E o caso di Brera talvez seja o mais dignamente qualificado do jornalismo esportivo italiano.
Não existe portanto um conflito "real" entre a escrita literária e a escrita jornalística. É esta última que, secundária como sempre foi, agora exaltada devido a sua utilização na cultura de massa (que não é popular!!!), acalenta pretensões um pouco exageradas, de nouveau riche. Mas voltemos ao futebol.
O futebol é um sistema de signos, isto é, uma linguagem. Ele tem todas as características fundamentais da linguagem por excelência, aquela que colocamos imediatamente como parâmetro de comparação, ou seja, a linguagem escrita e falada.
Na realidade, as "palavras" da linguagem do futebol formam-se exatamente como as palavras da linguagem escrita e falada. Ora, como estas se formam? Elas se formam através da chamada "dupla articulação", ou através das infinitas combinações de "fonemas", os quais são, no italiano, as 21 letras do alfabeto.
Os "fonemas" são, portanto, a "unidade mínima" da língua escrita e falada. Vamos nos divertir definindo a unidade mínima da língua do futebol? Ei-la: "um homem que usa os pés para chutar uma bola", é essa a unidade mínima; esse "podema" (se é para continuarmos nos divertindo). As infinitas possibilidades de combinação de "podemas" formam as "palavras futebolísticas", e o conjunto das "palavras futebolísticas" forma um discurso regulado por verdadeiras normas sintáticas.
Os "podemas" são vinte e dois (mais ou menos então como os fonemas). As "palavras futebolísticas" são potencialmente infinitas porque as possibilidades de combinação dos "podemas" são infinitas (na prática, as possibilidades de passes de bola entre jogadores). A sintaxe exprime-se na "partida", que é um verdadeiro discurso dramático.
Os codificadores desta linguagem são os jogadores, e nós, da arquibancada, somos os decifradores: em comum, portanto, temos um código.
Aquele que não conhece o código do futebol não compreende o "significado" de suas palavras (os passes) nem o sentido do seu discurso (um conjunto de passes).
Nem Roland Barthes nem Greimas, mas o diletante, se quisesse, poderia escrever um ensaio bem mais convincente do que este esboço sobre a "língua do futebol". No mais, acredito que poderíamos também escrever um belo ensaio intitulado Propp aplicado ao futebol, porque naturalmente, como em toda língua, o futebol tem seu momento puramente "instrumental" — regulado com rigidez e abstração pelo código — e seu momento "expressivo".
Na verdade, descrevi acima como toda língua articula-se em várias sublínguas, cada uma de posse de um subcódigo.
Pois bem, também na língua do futebol podem ser feitas distinções de gênero. Até o futebol possui subcódigos no momento em que, antes puramente instrumental, ele se torna expressivo.
Poderia ainda existir um futebol como linguagem fundamentalmente prosaica e um futebol como linguagem fundamentalmente poética.
Para me explicar darei — antecipando as conclusões — alguns exemplos: Bulgarelli joga um futebol de prosa; ele é um prosador realista. Riva joga um futebol de poesia: ele é um poeta "realista". Corso joga um futebol de poesia, mas não é um "poeta realista": é um poeta meio maudit, extravagante. Rivera joga um futebol de prosa, mas sua prosa é uma prosa poética; "literária".
Mazzola também é literário, e poderia escrever para o "Corriere della Sera", mas é mais poeta que Rivera. Tanto que ele interrompe a prosa, e inventa aqui e ali alguns versos fulgurantes.
Notem bem que entre prosa e poesia não fazemos distinção de valor, e sim uma distinção puramente técnica.
Contudo, convenhamos: a literatura italiana, espécie recente, é a literatura de elzevires. Eles são elegantes e até certo ponto estetizantes. Sua base é quase sempre conservadora e um tanto provinciana… em suma, democrata cristã. Em meio a todas as linguagens que são faladas em um país, até as mais informais e rudes, há um terreno em comum, que é a "cultura" daquele país; sua atualidade histórica.
Assim, mais por razões de cultura e de história, o futebol de alguns povos é fundamentalmente de prosa: realista ou estetizante (este último é o caso da Itália), enquanto o futebol de outros povos é fundamentalmente de poesia.
Há momentos no futebol que são exclusivamente poéticos: tratam-se dos momentos de "gol". Todo gol é sempre uma invenção, é sempre uma subversão do código. Todo gol é inexorabilidade, fulgor, estupor, irreversibilidade. Como é próprio da palavra poética. O artilheiro de um campeonato é sempre o melhor poeta do ano. Nesse momento é Savoldi. O futebol que marca mais gols é o futebol mais poético.
Também o drible é por si só poético (mesmo que nem "sempre" como ação do gol). Na realidade, o sonho de todo jogador (compartilhado com todo espectador) é partir do meio de campo, driblar todos e marcar. Se, dentro dos limites estabelecidos, pode-se imaginar algo sublime em futebol, é exatamente isso. Mas não é assim que acontece. É um sonho (que vi realizado somente em Magos da Bola, de Franco Franchi, que, mesmo em estado bruto, conseguiu ser perfeitamente onírico).
Quem são os melhores "dribladores" do mundo e os melhores marcadores de gols? Os brasileiros. Portanto seu futebol é um futebol de poesia. E de fato ele é baseado totalmente no drible e no gol.
A retranca e a triangulação (que Brera chama de geometria) é um futebol de prosa: ele é baseado na sintaxe, ou no jogo coletivo e organizado. Ou seja: na execução calculada do código. Seu único momento poético é o contra-ataque, com o gol que o acompanha (o qual, como vimos, só pode ser poético). Em suma, o momento poético do futebol parece ser (como sempre) o momento individual (drible e gol; passe inspirado).
O futebol de prosa é o do sistema, por assim dizer (o futebol europeu). Seu esquema é o seguinte:


De cima para baixo: retranca, triangulações e conclusões

O gol, nesse esquema, reside na conclusão, possivelmente de um "poeta realista" como Riva, mas deve vir de uma organização de jogo coletivo, baseado numa série de passes "geométricos", que acompanham as regras do código (nisto Rivera é perfeito, mas já não agrada a Brera, porque se trata de uma perfeição um tanto estetizante, e não realista como a dos meios-de-campo ingleses e alemães).
O futebol de poesia é aquele do futebol latino-americano. Seu esquema é o seguinte:

De cima para baixo: descidas concêntricas e conclusões

Esquema esse que para ser realizado deve exigir uma capacidade monstruosa de drible (coisa que é desprezada na Europa em nome da "prosa coletiva"), e o gol pode vir de qualquer um e em qualquer posição. Se drible e gol são os momentos individualistas-poéticos do futebol, eis aí o porquê do futebol brasileiro ser um futebol de poesia. Sem fazer distinção de valor, mas com senso puramente técnico. No México foi a prosa estetizante italiana que foi derrotada pela poesia brasileira.







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