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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Carta aberta de um católico ao deputado Jair Messias Bolsonaro e aos brasileiros

Queridos leitores,

Estava desaparecida, não? Pois bem, na saída da Missa ontem à tarde parei na loja de artigos religiosos que tem lá e encontrei o senhor Antônio, que me parecia um pouco preocupado. Começamos a conversar, ele me contou como está consternado com tudo que estamos vivendo nos últimos dias no Brasil. Mais um pouco de papo e conto a ele que tenho um blog, ele me pergunta o que é e como funciona. Eu respondo. Ele fica pensativo e me pergunta então se eu poderia publicar algo que ele escreveu. Lógico: a gente aqui não perde a oportunidade de publicar. Hoje de manhã peguei com ele o manuscrito, transcrevi e eis aí o resultado.

Deputado discursando na Paraíba


"Caro deputado,


Provavelmente o senhor nem chegará a ler esta carta que com muita paciência e cuidado decidi escrever (chego até a me sentir um pouco infantil ao ter a expectativa de me dirigir a uma pessoa de cargo público, parlamentar) porém, esta foi a única forma que encontrei de me expressar.
Tenho acompanhado, como todo cidadão portador de cédula eleitoral deveria fazer, seus atos e manifestações enquanto parlamentar.
E até hoje não tinha dado muita atenção ao seu comportamento; às vezes o melhor antídoto é o silêncio. Assim, tenho assistido impassível e calmo às suas manifestações incitando o povo à violência contra as minorias (a população homossexual e transgênero), defendendo o armamento indiscriminado do cidadãos comuns e exaltando a conduta pecaminosa de generais no poder durante o regime militar (1964-1985). Considerei que nada deveria fazer, afinal acredito que muitas das suas posturas e colocações são propositadamente exageradas a fim de gerar comoção e, consequentemente, uma maior divulgação de seu nome — como é mesmo o ditado? Falem mal mas falem de mim.
Contudo, por acreditar que a situação mudou, decidi me manifestar. A primeira transformação diz respeito ao seu discurso esta semana na Paraíba. Apesar de o senhor sempre ter deixado claro que defende como comportamento ideal uma conduta baseada numa moral de fundo religioso, sua fala nesta quarta-feira (08/02) em Campina Grande (PB) me deixou um tanto perplexo. Reproduzo aqui, a partir do que li no site "Paraíba online":


"Deus acima de tudo. Não tem essa historinha de estado laico não. O estado é cristão e a minoria que for contra, que se mude. As minorias têm que se curvar para as maiorias"


Como brasileiro, católico praticante, conhecedor dos dogmas e leis da Santa Madre Igreja e do Evangelho, vejo seu discurso com grande preocupação. Hoje, nas teocracias de maioria muçulmana — que é o regime de governo que o senhor propõe ao dizer que não existe o estado laico e sim um estado cristão — católicos e cristãos são perseguidos e assassinados. Não é necessário nem dar exemplos ocorridos em teocracias como Paquistão, Irã ou Arábia Saudita. Segundo o site cristão guiame.com.br (http://guiame.com.br/gospel/mundo-cristao/refugiados-cristaos-sao-ameacados-de-morte-por-muculmanos-na-alemanha.html), as minorias (cristãos e yazidis) sofrem perseguições e ameaças até em campos de refugiados na Alemanha. Além do mais, quem conhece um pouco da história do cristianismo sabe bem que em seus primórdios fomos duramente perseguidos pelos romanos, sendo obrigados a professar nossa fé e culto às escondidas, em catacumbas. E pela sua lógica, deputado, seu eu estiver na Suécia, Dinamarca ou Noruega tenho que me curvar aos ateus, pois lá eles estão em maioria.  
Outro ponto que também me preocupa é: quando o senhor diz que o estado é cristão, a que cristianismo o senhor se refere? O senhor sabia que para a Igreja Católica nenhuma das igrejas neopentecostais são consideradas religiões, mas sim seitas? Para a Igreja é cristão quem é católico ou pertence a alguma das igrejas cismáticas (ou seja, protestantes, como a Luterana, Anglicana, Episcopal, Batista, Metodista, etc). Assim sendo, se o seu estado cristão pretende adotar a óptica do catolicismo, Assembleia de Deus, Nova Vida, Universal, Internacional da Graça de Deus…, todas elas terão de se curvar à Igreja Católica, pois nenhuma delas é cristã para o catolicismo. Ao passo que, se o senhor adotar como a referência de estado cristão a prática dessas igrejas, terei eu que suportar calado e assistir a invasões de templos católicos, depredação e vandalização de objetos sacros e imagens, como fez há alguns anos um representante da IURD ao chutar em rede nacional uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida? E se um dia as crenças estiverem pulverizadas no Brasil, a ponto de não haver uma maioria?
E ainda, resta o ponto nevrálgico da fé: a imitação. A demonstração maior de profissão de fé é imitar e tentar seguir ao máximo os ensinamentos de Deus. Ao observar suas pautas, eu lhe pergunto: suas ideias e propostas para o país são cristãs? Elas estão em conformidade com os ensinamentos do Cristo? Suas atitudes no parlamento seguem o cristianismo? Quem lê o Evangelho com atenção e franqueza percebe que até dentro das maiores exortações à caridade — uma das forma de amor: eros, philia e ágape, esta última traduzida para o latim como caritas — que Jesus nos faz, existe uma dureza intrínseca, pois sua mensagem é radical.
Em seu livro, Jesus de Nazaré, Joseph Ratzinger, o papa Bento XVI, discorre sobre o termo Evangelho e seu significado. Transcrevo aqui porque acredito que seja importante, para que o senhor e os brasileiros compreendam o peso da mensagem do Cristo:


"S. Mateus resume assim o ministério de Jesus na Galiléia: "Depois começou a percorrer toda a Galiléia ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino de Deus e curando entre o povo todas as doenças e enfermidades" (Mt 4,23, cf. 9,35). Ambos os evangelistas caracterizam a pregação de Jesus como "Evangelho" — o que é isso afinal? Recentemente, tem-se traduzido por "boa-nova"; isso soa bem, no entanto permanece muito longe da ordem de grandeza que a palavra Evangelho carrega. Esta palavra pertence à linguagem do imperador romano, que se entende como senhor do mundo e como seu redentor, como seu salvador. As mensagens que vinham do imperador chamavam-se Evangelho, independentemente do fato de o seu conteúdo ser alegre e agradável. O que vem do imperador — esta era a idéia — é uma mensagem redentora, não uma simples notícia, mas uma mudança do mundo para o bem.
Se os evangelistas tomam esta palavra de tal modo que ela se tornou o conceito genérico para os seus escritos, querem assim dizer: o que o imperador, que se fazia passar por Deus, sem razão pretendia, isso acontece aqui: mensagem cheia de poder, que não é simples discurso, mas realidade. No vocabulário atual da teoria da linguagem se poderia dizer: o Evangelho não é um discurso puramente informativo, mas "performativo"; não simples comunicação, mas ação, força eficaz que entra no mundo para curar e para transformar." (BENTO XVI, 2007, pp. 57-58)


A interpretação acima não é de um leigo qualquer, mas provém de um dos maiores teólogos vivos, Joseph Ratzinger. E ela é clara, senhor deputado, o Evangelho não são palavras ao vento, lero-lero, blá-blá-blá, como um dos muitos discursos de um político. Ela é atitude, ação. Nos termos dos evangélicos: é obra. E a sua obra? Sua obra é cristã?


Ninguém gosta de homossexual, a gente suporta” (2011)


"Fuzil neles, é o que eles merecem! Ninguém falou em matar, mas como você recebe alguém que meter o pé na porta da sua casa a noite? Você recebe com um cabo de vassoura ou uma frigideira? Tem que receber com um 38. Aí você atira na mão dele, na orelha ou no pé, matar não." (2015)
"Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater." (2002)


"O erro da ditadura foi torturar e não matar" (2016) (Só para lembrar: Jesus Cristo foi preso político. Exatamente. P-O-L-Í-T-I-C-O. E foi morto, na cruz)


Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo”. (2011)


Em sua fala em Campina Grande o senhor diz que Deus está acima de tudo, evocando o primeiro e maior mandamento segundo Jesus (Mt 22;37). Mas todas as frases acima são colocações suas, deputado. Para cada uma delas, há situações e acontecimentos nos Evangelhos que poderiam bem acontecer nos dias de hoje e os posicionamentos de Jesus são os seguintes:


Ao ser indagado sobre o mandamento maior, Jesus acrescente a este o segundo mais importante. "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." (Mt. 22:39)


E antes que o senhor me venha com a famigerada lei do Levítico ou Deuteronômio que condena a homossexualidade, eu lhe devolvo a seguinte passagem:


"Os escribas e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher que fora apanhada em adultério.
Puseram-na no meio da multidão e disseram a Jesus: Mestre, agora mesmo esta mulher foi apanhada em adultério.
Moisés mandou-nos na lei que apedrejássemos tais mulheres. Que dizes tu a isso?
Perguntavam-lhe isso, a fim de pô-lo à prova e poderem acusá-lo. Jesus, porém, se inclinou para a frente e escrevia com o dedo na terra.
Como eles insistissem, ergueu-se e disse-lhes: Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra." (Jo 8:3-7)


E ainda sobre o amor, deputado, isso é o que Jesus exorta que façamos:


"Tendes ouvido o que foi dito: Olho por olho, dente por dente.
Eu, porém, vos digo: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra.
Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa.
Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil.
Dá a quem te pede e não te desvies daquele que te quer pedir emprestado.
Tendes ouvido o que foi dito: Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo.
Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos {maltratam e} perseguem.
Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos.
Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos?
Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos?
Portanto, sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito." (Mt. 5:38-48)


Sobre sua colocação a respeito de seus filhos, vou me abster de citar. Todos conhecem a parábola do filho pródigo.
Como pessoa religiosa, revolta-me muito ver que hoje, para uma maioria, ser cristão se resume a ser contra o casamento homossexual, o aborto e o uso de drogas. Ao menos de acordo com as escrituras (ou o senhor duvida delas?), Jesus pregou um amor radical e extremo, difícil de ser alcançado, mas não impossível, senão não teria encarnado, pregado, sofrido, morrido e ressuscitado por nós. Porque junto do amor de Deus, há sua confiança na humanidade.
E por que então eu respondo a tudo isso? Porque diante dos acontecimentos últimos do país, o cidadão de classe média e média-baixa encontra-se cheio de medo, incerteza e desespero. E quando estamos cegados por esses sentimentos agimos por impulso, na defensiva. Entregamos-nos então ao domínio daqueles que chegam oferecendo proteção e a salvação miraculosa da pátria. Queremos tudo para ontem, não importa como, mas queremos ter nossos problemas resolvidos. E é aí que emergem os líderes totalitários, prometendo (e muitas vezes cumprindo, como fez Hitler com a economia alemã em fins dos anos 1930) e se aproveitando do desespero do cidadão comum.
Mas não acho que o senhor esteja tentando se aproveitar dos cidadãos não. Não acredito que uma pessoa seja capaz de emitir ideias tão lascivas e agressivas sem acreditar em cada uma delas. Em seu íntimo, o senhor acha que suas medidas violentas e opressoras serão a salvação do país. Nesse ponto o senhor se aproxima de Nietzsche, que desprezava a força advinda da fraqueza, que é o que fez o cristianismo. Para ele, a força tinha que vir da força. Ou não, há margem para interpretação. Nietzsche é bem capcioso, mas igualzinho ao senhor, sem papas na língua. Ia fundo nos aforismos e quem quisesse que entendesse. Pois bem, acho mesmo que o senhor acredita naquilo que proclama. Por que tanto ódio e revolta? Não sei. Mas depois de muito refletir sei o que vou e posso fazer.
Já escrevi esta carta, que espero que seja lida por qualquer um, admiradores seus ou não. No mais, o que eu, um homem do povo, um desconhecido, poderia fazer? Quais são minhas chances de espalhar alternativas à política de massacre e opressão que o senhor propõe?
Em primeiríssimo lugar, farei o que poucos estão fazendo. Não vou mais me afastar daqueles que pensam diferente de mim, mesmo que apoiem suas posições homofóbicas e racistas. Suas atitude geram esse racha social, onde começamos a nos ver não como uma comunidade, mas sim como um aglomerado de castas às quais algumas é lícito e enaltecedor pertencer e se relacionar. Não ouvimos mais aqueles que consideramos diferentes de nós. Quando foi que deixamos de nos ver como brasileiros e irmãos? Será que algum dia foi assim? Não, não vou mais entrar nessa armadilha em que o senhor nos enreda e convidar as pessoas a desfazer amizade comigo em redes sociais ou na vida real. Não podemos mais negar que somos uma sociedade e temos o dever de conviver uns com os outros, respeitando a todos. Isso mesmo: respeitando. Seja quem for. Somos todos cidadãos desta pátria e ninguém, por quaisquer motivos, merece nada mais nada menos do que o nosso respeito, mesmo que o senhor teime em negar.
No mais, tudo que me resta, como católico, é rezar. E vou fazê-lo Àquela que nunca desamparou seus filhos: a Virgem Maria. Ela, ainda menina, foi firme e enfrentou todos os perigos e preconceitos de seu tempo ao aceitar ser mãe adolescente solteira. Uma moça como ela hoje em dia seria apenas acusada pelos conservadores de ser uma "novinha safada dissimulada" e seu noivo, São José, seria motivo de piada e chamado de "corno manso" ou de " velho broxa". No entanto, é importante lembrar que naquela época sua situação poderia significar morte por apedrejamento ou banimento. Mas Nossa Senhora foi em frente e teve coragem, assim como São José. Da concepção à morte de seu (único) filho ela esteve ao seu lado, mesmo depois de ter sido rechaçada na frente de todos ao ir buscá-lo enquanto ele pregava para uma multidão (Mt 2: 46-50). Embora as aparições de Maria Imaculada não sejam dogma da Igreja — ou seja, sua crença não é compulsória — é fato que os relatos de seu aparecimento coincidem com momentos de catarse mundial, como são famosos os casos de Fátima e Medjugorje. Deputado, um dos maiores poderes daqueles que acreditam em Deus e têm alguma fé é o da oração, então gostaria que o senhor soubesse que há aqui um cristão orando com fervor, todos os dias, e pedindo a intercessão da Virgem Maria para que nosso país, e o mundo, seja um lugar de mais tolerância, igualdade de direitos e oportunidades, liberdade e, consequentemente, de paz. Em suma, vou orar por um mundo de mais amor, deputado, e, especialmente, vou orar para que Deus ponha mais amor e compaixão no seu coração e no daqueles que carregam o ódio e a intolerância como bandeira.


Paz e bem,


Seu Antônio"
SATG

Referências: (as referências eu busquei online e adicionei por conta própria, para auxiliar o leitor)




BENTO XVI, Papa. Jesus de Nazaré : primeira parte : do batismo no Jordão à transfiguração. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007.

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