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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Lixinhos Literários no. 5 (ou F de foda. E de filha-da-puta)

E a quantidade de bolas virtuais de papel atiradas ao cesto torna a aumentar.

Resolvi seguir o conselho do professor deleuziano: quando não há contato não há contágio. Isolar-se impossibilita a troca, a proliferação. Assim sendo, esse fim-de-semana resolvi me expor ao contágio. Trocar afectos. Relacionar-me com o diferente, exercitar a tolerância.
Só que o afecto acaba me fazendo mal. Assumi sim uma postura serena e o mais silente possível. Não sou boa interlocutora, então é melhor medir bem as palavras. Evitá-las até.
Tive êxito na sexta e no sábado, mesmo tendo que ouvir que Miami está um horror por causa da quantidade de gays, negros e cubanos (SIC). Está feia e triste.
Mas aí no domingo resolveram mexer o meu amor. E eu não agüentei.
O ódio aos outros eu respondo com meu amor a estes outros. Mas apunhalar o amor dentro de mim é demais, enfraqueço. E a fraqueza nos torna mesquinhos, prontos para qualquer recurso. Não mexam com o meu amar, que verão uma versão de mim que até eu tenho vergonha de reconhecer.
Evitei contato, tinha uns amigos lindos que não via faz tempo na mesma roda. Fiz a positiva, interagindo mais com eles.
Só que lá pelas tantas o espírito zombeteiro de Deleuze resolveu agir. Enquanto a desprezível pessoa conversava com uma das lindas, sabe-se lá sobre o quê, exclamei algo que, servia à sua conversa também. A linda respondeu: "Exatamente". E eu nada entendi.
Porém, elucidada a coincidência, brinquei: "Putz, eu sou fodona, hein? Com apenas uma frase sou capaz de interagir em duas conversas."
A desprezível respondeu sarcástica: "Nossa, humildade passou longe."
Pois é, gente filha-da-puta se esmera em ser cada vez mais filha-da-puta. Respondi muito acima de sua capacidade, citando Nietzsche, que ela com certeza não leu. Só que a merda já estava feita. Esse negócio de contágio não dá certo comigo. Vou me meter com gente arrogante e acabo infectada.
Fiquei pensando sobre o que é a humildade. Será que sou humilde? A que humildade ela se referia? Bela maneira de entrar a semana: infectada. Mas agora já era.
"Saiba quem você é", disse algum pensador. Ou seria, "conhece-te a ti mesmo"? Acho que era isso. Sou péssima com citações e provérbios. Pois então, eu tento. Conhecer minhas próprias capacidades e limitações, como diria a vó Rosa, já é meio caminho andado. Ainda mais na selvageria da vida.
E aprendi com a vida (e com o Eduardo Antonello) que falsa modéstia e recato em demasia nos tornam propensos à servidão. O melhor é estar ciente de que sempre há possibilidade de aprendizado, crescimento… mais uma palavra e isso vai virar um post motivacional de RH. Enfim, saber da sua "fodidade" é importante também.
Mas afinal existiria uma humildade salutar, que poderíamos exercitar e viver sem apelar para essa modéstia de fachada; essa que a filha-da-puta chamou de humildade?

É provável. Vejamos:

De acordo com o site Origem da Palavra, humilde deriva da palavra latina humus = terra. Ou seja, humilde é o que se mantém no chão, que não se ergue. Humilde é aquele que não perde o contato com a terra.
Para minha surpresa, "humano" tem a mesma raiz: humus, terra.
Ser humilde talvez seja mais simples do que imaginamos. Talvez seja humilde quem aprecia um pôr-do-sol, um banho de mar, uma lambida de cachorro, uma fruta fresca chupada com vontade, uma caminhada até a padaria. Talvez seja humilde tanto quem anda descalço quanto quem bebe champanhe. O lance é curtir a terra entre os dedos e as bolhinhas no nariz, independente da impressão que se passa. Talvez o humilde seja justamente o não modesto. Ele é honesto com o barro do qual é feito.
Assim, quanta humildade e satisfação em afirmar:

Sim, eu sou foda. E ela é uma grande filha-da-puta.

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