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sábado, 16 de julho de 2016

C de criação

Aos meus pais. E a Preciado.


Eu tenho um defeito. Talvez não seja defeito, mas se for, não adianta. Eu acabo trazendo tudo para a vida. Não vou conseguir ler teoria, literatura, filosofia, astrologia e o escambau e não trazer para a minha vida. Ver onde isso começa e acaba dentro da vida. Se não couber dentro da vida, jogo para o lado e sigo adiante. Senão não vale a pena. De nada vale o que não nos ajude a viver, que seja só falatório, conjectura, imaginação. Imaginação, sonho e blá-blá-blá têm que estar dentro da vida. Senão construímos uma vida fora da vida.

Pois bem, eu trago Deleuze para a vida, trago Beauvoir para a vida, Santiago para a vida, Santo Agostinho para a vida, Jesus para a vida, todo mundo tem que estar na vida. Para mim não existe falar fora da vida, teoria fora da prática, livro fora da vida.
E essa semana que passou, li Preciado. Paul ou Beatriz. Não tem importância. É preciado. E é louco; é pós tudo. É o Manifesto Contrassexual. Muito do que está ali, justamente por ser contra, acaba afirmando o contrário da mesma forma que fazemos hoje. As pessoas manteriam relações por contrato. Já mantemos relações por contrato. Casamento, união estável, registros de todas as formas.
Entretanto, havia algo ali de muito bonito. Não na forma postulada como ideal para práticas e envolvimentos sexuais: acredito até que se todos passassem a ver e praticar o sexo da forma como o Manifesto prega, dentro em breve as pessoas estariam fazendo muito pouco sexo. Talvez o paralelo seja o mesmo entre comer ração alimentar em situações extremas, como em combate ou em viagens espaciais, e comer uma pizza bem suculenta com os dedos e limpar a boca nas costas da mão. É básico, é bobo, é sem educação. Mas há ali algo de fruição no lambuzar-se convencionalmente. É humanamente animal.
Mas então, o que é muito bonito do Manifesto Contrassexual é uma reivindicação de amor às pessoas, independente de gênero ou sexo. Pensei nisso tantas vezes. Achava tão estranha essa fixação que pais, familiares e conhecidos em geral têm em saber o sexo dos fetos. "É para poder comprar roupinha, decorar o quartinho." E não haveria uma forma de se fazer isso sem saber o sexo? Não haveria um mundo em que seríamos olhados mais por quem nós somos, independente de nossas atribuições reprodutivas e nossas preferências sexuais? Um mundo sem esse circo de gêneros? Ou onde esse circo fosse algo secundário?
Aí estou eu tomando um café com a cunhada grávida e o marido. Tinha ido comprar pijama para mim e na fila do caixa vi umas meias de neném. Lembrei dela. Eu sou assim: quando vejo algo e lembro da pessoa, eu compro. Comprei uma meia de leãozinho e outra cinza. Quando ela e o marido abriram o pacote, ele disse: "Olha, amor! Ela já está dizendo o que vai ser." Pelo visto, as meias não eram unissex. Cinza e leão são meias de menino. Ela me explicou que na cabeça dele menina só usa rosa.

E depois do almoço, lá no cafezinho, começamos a falar de tempo com filhos. Contei das situações que vivenciei sendo professora particular, de como muitas vezes, enquanto professor, a gente percebia as carências das crianças. Foi aí que a cunhada tocou num ponto nodal, essas coisas que a gente nunca fala quando fala de filho, de criança. A gente fala das molaridades de criar filhos: ensinar a ser honesto, a falar por favor/obrigado/bom dia/boa noite, vestir unissex ou afirmar uma identidade de gênero, estar em casa ou não, posturas da creche ou da escola, alimentação. A cunhada foi (vi Deleuze pulando de alegria onde quer que esteja agora) lá, naquele segmento onde se insere a molecularidade da relação genitor e prole, onde acaba a árvore e começa o rizoma; aquela sanha molecular de que nenhum genitor/educador fala. "Acho importante que meu filho tenha um tempo só com o pai e com a mãe." O marido riu. "Se for menina! O que é que um pai faz com uma menina?!?"

A cunhada se queixou de nunca ter passado um tempo sozinha com o pai. Havia a distância, por não morarem na mesma casa, e, quando se encontravam, era sempre aos finais de semana com os outros filhos, aquela confusão. Ela disse que a primeira vez que foi conversar sozinha com o pai, trocar uma idéia, foi um dia em que ele foi almoçar com ela na faculdade, quando ela tinha dezenove anos. Mesma coisa a mãe. Mesmo nunca tendo trabalhado, estando em casa o dia todo e sendo aquela mãe exemplar (comida na mesa, casa limpa e arrumada, caderno verificado, uniforme passado, etc.), nunca houve troca de afetividade entre mãe e filha.
Lembrei então de todos os momentos felizes que passei com a minha mãe e com meu pai. Das tardes no jornaleiro, escolhendo revistinha, ou então quando ela me contou sobre a lenda de Atlântida. Das muitas noites em que ela me explicou muita coisa que a gente via junta na televisão. Foi com ela que eu vi Dona Beija, Que Bom te ver Viva, Comando da Madrugada, pornochanchadas e novelas variadas. Foi ao lado dela que eu vi o mundo e o submundo lá de fora pela tela da tv. Foi por sua boca que eu ouvi tudo sobre ela e a nossa família (inclusive as duas tentativas de estupro que sofreu), as histórias mirabolantes para a gente dormir. Foi sozinha com meu pai que ele me contou como gostaria de morrer (recebendo uma massagem na testa), que ele contou que meu avô guardava a sete chaves um volume d'O Estado Novo quando ele era criança, que eu aprendi que eu podia almejar tudo mesmo não sendo menino. Eu aprendi a andar de bicicleta, a empinar pipa, a entender o espaço sideral, a saber quem era Carl Sagan, Vinicius e Taiguara naqueles momentos sozinha com meu pai. Depois de adulta, eu e ele nos divertirmos tanto escolhendo o anel de bodas de prata para a mamãe. A gente entrava nas joalherias do shopping e as vendedoras olhavam com cara de interrogação, interrogação que depois se desfazia: "Ah, é sua filha! Bem que achei que ela fosse meio jovem para fazer bodas de prata." Eu pensava: 'Fulana. Fui eu que causei essas bodas.'
Foi ali, naquele instante com a cunhada, que eu agradeci imensamente aos meus pais por terem sido meio avessos. Corajosos. Inusitados. Ousando criar as filhas, e não só educá-las. Foi naquele minuto que eu entrevi as mil facetas do verbo criar. Quando alguém diz que criou um filho, esse criar pode ser várias coisas. Criou, porque não existia. É verdade, biologicamente ou não, você decidiu que aquele ser ia fazer parte da sua vida. Você criou uma vida: tanto na possibilidade da existência biológica quanto na definição de uma identidade. A partir do momento em que a colocou no seu mundo, ela ganhou uma primeira existência definida: filha de fulano e cicrano. Depois você cria, como fazem os criadores com o rebanho: alimenta, põe para tomar sol, dá banho, corta o cabelo, veste, leva para a escola, ensina o que é feio e o que não é. No Chile (não sei se é assim nos outros países hispanófonos) dá-se o nome de criança à criação. Uma criança é uma rês. Niño é o vocábulo correto para criança no Chile.
E existe esse criar lindo, de que muita gente se esquece. Esse criar que se espraia como rama, que prolifera possibilidades, que sei lá, não há nem como falar. Esse criar que vai nos afectar para a vida toda, que vai nos ligar a nossos genitores de uma outra forma, é aí que eles nos dão a possibilidade de sermos pessoas e a existirem para nós filhos como pessoas. Se eles nos criam enquanto gente, não precisaremos aprender a nos reinventar mil vezes, pois teremos lá no fundo a certeza de que somos constante invenção, somos sonho, somos imaginação. Teremos então feito a troca maior: teremos nos transformado uns aos outros. Eles por nós e nós por eles. Esses pais que descobrem o que há de mais bonito em nós e fazem aquilo crescer, que alimentam nosso existir mais do que nosso corpo, ou melhor, além do nosso corpo, esses sim nos criam. Que buscam algo além do que apenas reproduzir esse meio sujo, viciado, triste e limitador em que vivemos.
Esses sim podemos dizer que criaram, em todos os sentidos.

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