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sexta-feira, 10 de junho de 2016

A declaração final da vítima de Stanford em português

Eu acredito no tradutor não só como facilitador e difusor de conteúdo. O tradutor age ajudando a proliferar. Para mim, a minha maior força está em traduzir algo que aparentemente não há interesse em se traduzir. Quando há dois dias, li a declaração final da vítima de Stanford, dirigida mormente ao seu agressor, eu pensei: as pessoas tinham que estar lendo isso. Isso é um manifesto de empoderamento, de conscientização, e uma prova de força. Não sei se foi traduzida pelos meios de comunicação nacionais. Até porque o estupro coletivo ocorrido há algumas semanas no Rio de Janeiro e a crise política no país tomam conta das páginas dos noticiários. Se esta declaração já foi traduzida e publicada em meios de comunicação, ótimo. Se não, fica aqui minha versão da declaração dada por aquela que, na minha opinião, não deveria ser intitulada vítima, mas sim sobrevivente.



"Meritíssimo,

Se não houver problema, durante a maior parte desta declaração eu gostaria de me dirigir diretamente ao réu. Você não me conhece, mas você esteve dentro de mim, e é por isso que estamos aqui hoje. No dia 17 de janeiro de 2015, era uma noite de sábado tranquila em casa. Meu pai preparou o jantar e sentamos à mesa com minha irmã mais nova, que estava nos visitando naquele fim de semana. Eu trabalhava em tempo integral e estava chegando a minha hora de ir dormir. Eu planejava ficar em casa sozinha, assistindo um pouco de TV e lendo, enquanto ela ia para uma festa com amigos. Então, como era minha única noite com ela e eu não tinha nada melhor para fazer, então eu pensei, por que não, tem uma festa boba a 10 minutos da minha casa, eu vou, danço como uma tola, e deixo minha irmã caçula sem graça. No caminho, eu brinquei que os calouros teriam aparelhos nos dentes. Minha irmã me zoou por estar usando um cardigã bege de bibliotecária para uma festa de fraternidade. Eu me intitulei a "tiazona", porque sabia que eu ia ser a mais velha lá. Eu fiz caretas, baixei a guarda, e bebi muito rápido, sem perceber que minha tolerância ao álcool tinha diminuído significativamente desde a faculdade.

Depois disso eu só me lembro de estar numa maca num corredor. Eu tinha sangue seco e curativos nas costas das mãos e nos cotovelos.
Pensei que talvez tivesse caído e estivesse num escritório administrativo do campus. Eu estava muito calma e me perguntei onde minha irmã estaria. Um policial me explicou que eu havia sido atacada. Ainda assim eu continuei calma, certa de que ele estava falando com a pessoa errada. Eu não conhecia ninguém naquela festa. Quando finalmente autorizaram que eu usasse o banheiro, eu desci as calças que o hospital me deu, fui baixar a calcinha, e não senti nada. Ainda me lembro de sentir minhas mãos tocando minha pele e não pegar nada. Olhei para baixo e não tinha nada. A fina camada de tecido, a única coisa entre minha vagina e qualquer outra coisa estava faltando, e tudo dentro de mim foi silenciado. Ainda não tenho palavras para aquele sentimento. Para me acalmar e me manter de pé, pensei que talvez os policiais as tivessem cortado para usar como prova.

Aí, eu senti agulhas de pinheiro arranhando a minha nuca e comecei a tirá-las do cabelo. Eu achei que talvez elas tivessem caído de uma árvore na minha cabeça. Meu cérebro estava convencendo o meu íntimo a não entrar em colapso. Porque dentro de mim algo dizia, me ajude, me ajude.

Eu andei de sala em sala com um coberto enrolado e agulhas de pinheiro deixando um rastro atrás de mim. Eu deixava um montinho em toda sala onde me sentava. Pediram que eu assinasse papéis que diziam "Vítima de Estupro" e pensei então que algo realmente tinha acontecido. Minhas roupas foram apreendidas e eu fiquei nua enquanto as enfermeiras punham uma régua em várias escoriações no meu corpo e os fotografavam. Nós três nos esforçamos para tirar as agulhas de pinheiro do meu cabelo. Seis mãos para encher um saco de papel. Para me acalmarem, elas diziam: "É só flora e fauna, flora e fauna." Eu tive muitos cotonetes inseridos na vagina e no ânus, tomei injeções, comprimidos, tive uma nikon apontada bem no meio das minhas pernas abertas. Tive bicos de pato inseridos em mim e minha vagina foi lambuzada com uma tinta azul e gelada para verificar escoriações.

Depois de algumas horas, me deixaram tomar banho. Fiquei lá examinando meu corpo debaixo da água e decidi: "Não quero mais meu corpo." Eu tinha pavor dele, eu não sabia o que tinha estado nele, se havia sido contaminado, quem tinha tocado nele. Quis tirar meu corpo como quem tira uma jaqueta e deixá-lo no hospital junto com todo o resto.

Naquela manhã, tudo que me foi dito foi que eu havia sido encontrada atrás de uma caçamba, provavelmente penetrada por um estranho, e que eu devia fazer o teste de HIV, porque nem sempre os resultados aparecem na hora. Mas que por ora, eu devia ir para a casa e retomar minha vida normal. Imagine voltar para o mundo só com estas informações. Me abraçaram forte, e então eu saí do hospital em direção ao estacionamento, vestindo o conjunto de moletom que me providenciaram, até porque só me permitiram levar meu cordão e os sapatos.

Minha irmã me buscou, a cara molhada de lágrimas e retorcida de angústia. Por instinto eu imediatamente quis aliviar sua dor. Sorri para ela, disse que olhasse para mim: "Eu estou aqui, estou bem, tudo está bem, eu estou aqui. Meu cabelo está limpo e lavado, me deram o shampoo mais esquisito, calma, e olhe para mim. Olhe para este moletom ridículo, pareço uma professora de educação física, vamos para casa, vamos comer alguma coisa." Ela não sabia que debaixo do moletom eu tinha arranhões e curativos, minha vagina estava dolorida e tinha ficado com uma cor estranha e escura por causa de todas as intervenções, que eu estava sem calcinha e eu me senti vazia demais pare continuar falando. Falando que também estava com medo, que eu também estava desacorçoada. Naquele dia voltamos de carro para a casa e por horas minha irmã me abraçou.

Meu namorado não sabia do que se passou, mas me ligou e disse: "Eu fiquei preocupado com você ontem à noite, você me assustou, você chegou em casa direitinho?" Eu fiquei horrorizada. Foi aí que eu descobri que tinha ligado para ele naquela noite durante meu apagão, que tinha deixado uma mensagem de voz incompreensível, que também tinha falado com ele ao telefone, mas estava enrolando tanto a língua que ele ficou preocupado, e que diversas vezes me mandou procurar minha irmã. Ele me perguntou, mais uma vez: "O que aconteceu ontem à noite? Você chegou em casa direitinho?" Eu disse que sim, e desliguei para poder chorar.
Eu não estava pronta para dizer para o meu namorado e para os meus pais que na realidade era possível que eu tivesse sido estuprada atrás de uma caçamba, mas que não sabia por quem nem quando nem como. Se eu contasse para eles, eu veria o pavor em seus rostos, e o meu aumentaria umas dez vezes, então eu fiz de conta que nada daquilo era real. Tentei tirar aquilo da cabeça, mas era tão difícil que eu não falava, eu não comia, eu não dormia, eu não interagia com ninguém. Depois do trabalho, eu ia para um lugar recluso para gritar. Eu não falava, eu não comia, eu não dormia, eu não interagia com ninguém, e eu me isolei daqueles que eu mais amava. Por uma semana depois do ocorrido, eu não recebi ligação nem atualizações sobre o que tinha acontecido comigo naquela noite. O único sinal que provava que tudo não tinha sido um pesadelo era o moletom do hospital na minha gaveta.

Um dia, eu estava no trabalho, olhando as notícias no meu telefone e parei num artigo. Nele eu li e soube pela primeira que eu fui encontrada inconsciente, com meu cabelo despenteado, um longo colar enrolado no pescoço, meu sutiã puxado para fora do vestido, e o vestido levantado na parte de cima na altura do ombro e na parte de baixo até a cintura. Soube que eu estivera nua da cintura para baixo, com as pernas abertas, e que tinha sido penetrada por um objeto estranho por alguém que eu não conhecia.

Foi assim que eu soube o que tinha acontecido comigo, sentada na minha mesa enquanto lia notícias no trabalho. Soube o que tinha acontecido comigo na mesma hora em que todo o resto do mundo sabia o que tinha acontecido comigo. Foi aí que as agulhas de pinheiro no meu cabelo fizeram sentido, elas não caíram de uma árvore. Ele tinha tirado minha calcinha, seus dedos tinha estado dentro de mim. Eu nem conheço essa pessoa. E ainda não conheço essa pessoa. Quando li sobre mim assim, eu disse: "Esta não pode ser eu." Esta não podia ser eu. Eu não conseguia processar nada daquilo. Eu não conseguia imaginar minha família tendo que ler aquilo online. Eu continuei lendo. No parágrafo seguinte, li algo que nunca vou perdoar. Eu li que, de acordo com ele, eu gostei. Eu tinha gostado. Mais uma vez, não tenho palavras para o que eu senti.

No rodapé do artigo, depois que soube dos detalhes do ataque que eu mesma tinha sofrido, o artigo listava suas marcas de nado. Ela foi encontrada respirando, inconsciente, com a roupa de baixo a um palmo da barriga nua, curvada em posição fetal. Por sinal, ele é um excelente nadador. Coloquem então minha marca de 1500 metros, se é isso que estamos fazendo. Eu cozinho bem, coloquem aí, eu acho que acaba quando colocam tudo fora do currículo para anular todas as coisas doentias que aconteceram.

Na noite em que as notícias saíram, eu sentei com meus pais e contei a eles que tinha sido atacado, para não olhar o noticiário porque iria chateá-los, só para saber, eu estava bem, eu estava bem ali, e eu estava bem. Mas no meio do caminho minha mãe teve que me segurar porque eu não conseguia mais ficar de pé. Eu não estava bem.

Na noite depois do ocorrido, ele disse que não sabia meu nome, disse que não seria capaz de me identificar num reconhecimento, não mencionou qualquer conversa entre nós, nenhuma palavra, só dança e beijos. Dançar é uma expressão bonitinha. Foi com estalar de dedos e piruetas, ou só corpos se esfregando uns nos outros num salão entupido? Eu imaginei se beijos seriam só rostos que se esbarram um no outro com desleixo. Quando o investigador perguntou se ele tinha planos de me levar ao seu dormitório, ele disse que não. Quando o investigador perguntou como eu tinha ido parar atrás da caçamba, ele disse que não sabia. Ele admitiu ter beijado outras garotas na festa, uma delas minha própria irmã, que o afastou. Ele admitiu que queria terminar a noite acompanhado. Eu fui o antílope ferido do bando, completamente sozinha e vulnerável, fisicamente incapaz de me defender, e ele me escolheu. Às vezes eu penso, se eu não tivesse ido, isso nunca teria me acontecido. Mas aí eu percebi, teria acontecido, só que com outra pessoa. Você estava prestes a ter acesso a quatro anos de garotas bêbadas e festas, e se foi nesse pé que você começou, então é correto que você não continuou.

Eu não consigo dormir sozinha à noite sem ter uma luz acesa, como uma criança de cinco anos, porque tenho pesadelos onde estou sendo tocada e não consigo acordar.

Na noite depois do ocorrido, ele disse que achou que eu tivesse gostado porque esfreguei suas costas. Uma massagem nas costas. Nunca mencionou meu consentimento expresso, nunca mencionou a gente conversando. Uma massagem nas costas.

Mais uma vez, no noticiário, eu soube que meu (traseiro) e minha vagina estavam completamente expostos, meus seios foram bolinados, dedos foram enfiados em mim junto com agulhas de pinheiros e dejetos, minha pele nua e minha cabeça foram esfoladas contra o solo atrás de uma caçamba, enquanto um calouro de pênis ereto cavalgava meu corpo seminu e inerte. Mas eu não me lembro, então como posso provar que não gostei?

Eu não pensei que o caso pudesse ir a julgamento. Havia testemunhas, havia sujeira em meu corpo, ele fugiu mas foi pego. Ele vai sossegar, pedir desculpas formais, e vamos os dois seguir nossas vidas. Ao invés disso, disseram para mim que ele contratou um advogado poderoso, testemunhas astutas, detetives particulares que iriam tentar encontrar detalhes da minha vida pessoal a serem usados contra mim, encontrar buracos na minha história para invalidar a mim e à minha irmã, para mostrar que esse crime sexual tinha sido na realidade um mal-entendido. Ele estava pronto para ir onde fosse preciso para convencer o mundo de que eu simplesmente me confundi.

Foi me dito não só que eu fui atacada, mas que porque eu não conseguia me lembrar, tecnicamente eu não poderia provar que não foi desejado. E isso me distorceu, me prejudicou, quase me quebrou. É o tipo mais infeliz de confusão dizer que você foi atacada e quase estuprada, descaradamente a céu aberto, mas não se pode dizer se já pode ser considerado agressão. Tive que lutar um ano inteiro para deixar claro que tinha algo de errado com essa situação.

Quando me disseram para estar preparada para o caso de não vencermos, eu disse: "não tem como eu me preparar para isso." Ele era culpado no minuto em que acordou. Ninguém pode me dissuadir do mal que ele me causou. O pior de tudo, eu fui prevenida, porque agora ele sabe que eu não lembro, e vai tentar escrever a história. Ele pode dizer o que quiser porque não tem ninguém para contestar. Eu não tinha força, eu não tinha voz, eu estava indefesa. Minha perda de memória seria usada contra mim. Meu testemunho era fraco, incompleto e fui induzida a acreditar que talvez, eu não fosse o bastante para vencer. Isso acabou comigo. Seu advogado lembrava o júri constantemente que a única pessoa em quem se podia acreditar era o Brock, porque ela não se lembrava. Aquela impotência era traumatizante.

Ao invés de usar meu tempo para me recuperar, eu estava usando meu tempo para lembrar daquela noite em todos os pormenores, a fim de me preparar para as perguntas do advogado, que seriam invasivas, agressivas, e destinadas a me manipular, é claro, a fazer com que eu contradissesse a mim e à minha irmã, elaborada para induzir minhas respostas. No lugar de dizer: "Você notou alguma escoriação?" O advogado dele dizia: "Você não notou nenhuma escoriação, não é?" Era um jogo de estratégia, como seu pudesse ser desacreditada. O abuso sexual estava tão claro, mas ao invés disso, cá estava eu em julgamento, respondendo a perguntas como: "Qual a sua idade?" "Qual é o seu peso?" "O que comeu naquele dia?" "Bem, o que comeu no jantar?" "Quem fez o jantar?" "Você bebeu com a comida?" "Não? Nem água?" "Quando bebeu?" "Quanto bebeu?" "De que recipiente bebeu?" "Quem lhe deu a bebida?" "Quanto você normalmente bebe?" "Quem a levou para a festa?" "A que horas?" "Mas onde exatamente?" "O que você estava vestindo?" "Por que foi àquela festa?" "O que fez quando chegou lá?" "Tem certeza que fez isso?" "Mas a que horas você fez isso?" "O que significa este SMS?" "Para quem você estava mandando?" "Quando você urinou?" "Onde você urinou?" "Quem estava do lado de fora do banheiro?" "O telefone estava no silencioso quando sua irmã ligou?" "Você se lembra de tê-lo colocado no silencioso?" "Mesmo? Porque gostaria de ressaltar que na página 53 você disse que colocou para tocar." "Você bebia na faculdade?" "Você disse que era louca por festas?" "Quantas vezes apagou?" "Você ia festas de fraternidade?" "Você namora sério?" "Vocês são sexualmente ativos?" "Quando começaram a namorar?" "Você alguma vez traiu?" "Você tem histórico de traição?" "O que você quis dizer quando falou que queria recompensá-lo?" "Você se lembra a que horas você acordou?" "Estava vestindo seu cardigã?" "Qual era a cor do seu cardigã?" "Você se lembra de algo mais daquela noite?" "Não? Ok, deixaremos que Brock forneça a informação que falta."

Eu fui nocauteada por perguntas pontuais e restritas que dissecavam minha vida pessoal, minha vida amorosa, minha vida passada, minha vida familiar, perguntas inúteis, que acumulavam detalhes triviais para tentar encontrar uma desculpa para este cara que não se dignou a perguntar meu nome, que me teve nua por uma dúzia de minutos depois de me ver. Depois da agressão física, eu fui agredida por perguntas elaboradas para me atacar, para dizer: "Vejam, suas informações não batem, ela está fora de si, ela é praticamente uma alcoólatra, está na cara que ela queria ficar com alguém, ele é um atleta, estavam os dois bêbados, o que quer que ela lembre do hospital é de depois do ocorrido, por que levar em consideração, Brock tem muito a perder então ele está num momento difícil agora."

E aí chegou a hora de ele testemunhar. Foi aí que eu me tornei vítima novamente. Quero lembrá-los que na noite depois do acontecido ele disse que não planejava me levar para o seu dormitório. Ele disse que não sabia por que estávamos atrás de uma caçamba. Ele levantou para ir embora porque não estava se sentindo bem quando repentinamente foi perseguido e atacado. Aí ele soube que eu não me lembrava de nada. Portanto, como esperado, um ano depois um novo diálogo surgiu. Brock tinha uma nova história, estranha, que soava quase como que saída de um romance juvenil mal escrito, com beijos, música e mãos dadas e rolar no chão e, o mais importante desta história, de uma hora para outra havia consentimento. Um ano depois do ocorrido, ele lembrou, ah é, o jeito que ela disse sim para tudo.

Ele disse que perguntou se eu queria dançar. Aparentemente eu disse sim. Ele tinha perguntado se eu queria ir para o seu dormitório, eu disse sim. Aí ele perguntou se podia enfiar o dedo em mim, e eu disse sim. A maioria dos caras não pergunta: "Posso enfiar meu dedo em você?" Normalmente há uma progressão natural dos eventos, que se desdobram consensualmente, não um questionário. Mas aparentemente eu tinha dado a ele permissão total. Ele estava liberado.

Até nessa história, quase não há diálogo. Eu apenas emiti um total de três palavras antes que ele me deixasse seminua no chão. Eu nunca fui penetrada depois de três palavras. Ele não alega que eu tenha emitido uma única frase completa naquela noite, então no jornal quando ele diz: "nos encontramos", eu não estou segura de que poderia ir tão longe de dizer isso. Para referência futuras, se você está confuso sobre se uma menina pode consentir, veja se ela consegue emitir uma frase inteira. Você foi incapaz de fazer isso. Só um único encadeamento coerente de palavras. Se ela não é capaz de fazer isso, então não. Não a toque. Não talvez. Simplesmente não. Onde estava a confusão? Isso é senso comum, é decência humana.

De acordo com ele, o único motivo de nós estarmos no chão foi porque eu caí. Notem: se uma garota cai, ajude-a a se levantar. Se ela está bêbada demais para andar e cai, não suba em cima dela, não trepe nela, não tire sua calcinha e ponha sua mão dentro da vagina dela. Se uma moça cair, ajude-a. Se ela está usando um cardigã sobre o vestido, não tire-o para passar a mão em seus seios. Talvez ela esteja com frio, talvez seja por isso que ela colocou o cardigã. Se seu (traseiro) nu e pernas estão esfregando em pinhas e agulhas de pinheiro enquanto você se coloca sobre ela, saia de cima dela.  

Em seguida na história, duas pessoas se aproximaram de você. Você correu porque disse que se sentiu amedrontado. Eu digo que você teve medo porque seria pego, não porque você sentiu medo de dois terríveis mestrandos suecos. A ideia de que você pensou estar sendo atacado do nada é ridícula. Que isso não teve nada a ver com você estar em cima do meu corpo inerte. Você foi pego no pulo, sem explicação. Quando te interpelaram, por que você não disse: "Parem! Está tudo bem, perguntem a ela, ela está bem ali, ela vai confirmar." Quer dizer que você tinha acabado de pedir meu consentimento, certo? Eu estava acordada, certo? Quando o policial chegou e interrogou o sueco malvado que te pegou, ele estava chorando tanto por causa do que tinha visto que não conseguia falar. E também, se você achava mesmo que eles fossem perigosos, por que você simplesmente abandonou uma moça seminua e correu para se salvar? Não importa como você elabore a situação, não faz sentido.

Se você está esperando que um dos meus órgão vai implodir de raiva e eu vou morrer, estou quase lá. Seu advogado ressaltou repetidamente: "Bem, não sabemos exatamente quando ela ficou inconsciente." E você está certo, talvez eu ainda estivesse revirando os olhos e não estivesse completamente caída, certo. A culpa dele não depende de ele precisar o exato segundo em que fiquei inconsciente, essa nunca foi a discussão. Eu estava enrolando a língua, bêbada demais para consentir muito antes que eu estivesse no chão. Eu não deveria nem ter sido tocada, para começo de conversa. Brock afirmou: "Em momento algum eu percebi que ela não estava consciente. Se em algum momento eu tivesse achado que ela estava inconsciente, eu teria parado imediatamente." E é aí que está o ponto. Se seus planos eram de parar só quando eu estivesse completamente inconsciente, então você ainda não entendeu. Você também não parou quando estava eu inconsciente! Uma terceira pessoa te impediu de continuar. Dois caras andando de bicicleta perceberam que eu não estava me mexendo no escuro e tiveram que parar você. Como é que você não percebeu isso enquanto estava em cima de mim?

Você disse que teria parado e pedido ajuda. Você diz isso, mas quero que você me explique como teria me ajudado, passo a passo, me mostre. Quero saber como teria sido a noite se aqueles suecos malvados não tivessem me encontrado. Eu estou te perguntando. Você teria puxado minha calcinha de volta, por cima das botas? Desamarrado o colar em volta do meu pescoço? Fechado minhas pernas, me coberto? Enfiado meu sutiã de volta por dentro do vestido? Você teria me ajudado a catar as agulhas de pinheiro do meu cabelo? Teria perguntado se as escoriações no meu pescoço e no meu bumbum doíam? Você teria então ido buscar um amigo e dito: "Ei, me ajuda aqui a levar ela para um lugar quente e confortável?" Eu não durmo quando penso em como isso teria terminado se os alunos suecos não tivessem passado por ali. O que teria acontecido comigo? E para isso você nunca terá uma boa resposta, é o que você ainda não consegue explicar mesmo depois de um ano.

Estar sob juramento e informar a todos que, sim, eu quis, sim, eu permiti, e que você é a verdadeira vítima atacada por dois caras por razões desconhecidas é sujo, é nojento, é demente, é egoísta, é idiota. Isso mostra que você estava disposto a fazer o que fosse preciso para me desacreditar, me invalidar, e explicar por que estava certo me machucar. Você tentou obstinadamente se salvar, salvar a sua reputação, às minhas custas. Minha família teve que ver fotos da minha cabeça atada a uma maca, cheia de agulhas de pinheiro, do meu corpo na sarjeta e eu de olhos fechados, vestido levantado, membros pendurados no escuro. E mesmo depois disso, minha família teve que ouvir seu advogado dizer que as fotos foram depois do ocorrido, podemos desconsiderá-las. Ouvi-lo dizer que a enfermeira confirmou os hematomas e escoriações dentro dela, mas isso é o que acontece quando você coloca o dedo em alguém, e ele já admitiu isso. Ouvi-lo colocar a minha própria irmã contra mim. Ouvi-lo tentar pintar o meu retrato como o de uma baladeira sedutora, como se de alguma forma isso fizesse parecer que eu estivesse pedindo por isso. Ouvi-lo dizer que eu parecia bêbada no telefone porque eu sou boba e este é meu jeito pateta de falar. Ouvi-lo ressaltar que naquela mensagem de voz, eu disse que iria recompensar meu namorado e que todos sabemos o que eu queria dizer. Eu garanto a você que meu programa de fidelidade não é transferível, especialmente para um homem anônimo que se aproxime de mim.

A questão é: isso é tudo o que eu e minha família enfrentamos durante o julgamento. Eu tive que ouvir tudo isso quieta e sentada, suportar isso, enquanto ele definia como foi aquela noite. Estar sofrendo é uma coisa. Outra é ter alguém impiedosamente trabalhando para diminuir a gravidade e a validade deste sofrimento. Mas ao fim, seus argumentos incomprovados e lógica distorcida de seu advogado não enganaram ninguém. A verdade venceu, a verdade falou por si.

Você é culpado. Doze júris considerarem você culpado de três crimes conta muito mais do que a presunção da Inocência. Isso são doze votos por crime, 36 sims confirmando sua culpa, isso é 100%, é culpa unânime. E eu achei que isso tudo tivesse finalmente acabado, que finalmente você iria admitir o que fez, pedir desculpas sinceras, e que nós dois seguiríamos nossas vidas e nos tornarmos pessoas melhores. Mas aí eu li sua declaração.

Se você está esperando que um de meus órgãos vá implodir de raiva e eu vou morrer, estou quase lá. Você está muito próximo de conseguir isso. Abuso não é um acidente. Essa não é a história de mais uma bebedeira de faculdade em que pessoas escolhem mal com quem vão passar a noite. Por alguma razão, você ainda não entendeu. Por alguma razão, você ainda soa confuso. Eu vou então aproveitar esta oportunidade para ler partes da declaração do acusado e responder a elas.

Você disse: "Por estarmos bêbados, nem eu nem ela podíamos tomar as melhores decisões." Álcool não é desculpa. É um fator? Sim. Mas não foi o álcool que me despiu, enfiou o dedo em mim, esfregou minha cabeça contra o solo comigo quase totalmente nua. Ter bebido demais foi um erro crasso o qual eu admito, mas não é crime. Todo mundo nesta sala já teve uma noite da qual se arrepende por ter bebido demais. Arrepender-se por ter bebido demais não é a mesma coisa que se arrepender de uma agressão sexual. Estávamos nós dois bêbados, a diferença é que eu não tirei suas calças e cueca, nem toquei seu corpo de forma inapropriada e depois fugi. Essa é a diferença.

Você disse: "Se eu quisesse conhecê-la melhor, teria pedido seu telefone e não perguntado se ela queria ir para o meu quarto."

Eu não estou brava porque você não pegou meu telefone. Mesmo que você me conhecesse, eu não iria querer estar nesta situação. Meu namorado me conhece, mas se ele pedisse para enfiar o dedo em mim atrás de uma caçamba, eu o teria esbofeteado. Mulher nenhuma quer estar numa situação dessas. Ninguém. E não interessa se a pessoa tem o telefone dela ou não.

Você disse: "Eu muito idiota pensei que estivesse tudo bem em fazer o que todo mundo à minha volta estava fazendo, que era beber. Eu estava errado."

De novo, você não estava errado em beber. Todo mundo à sua volta não estava abusando sexualmente de mim. Você estava errado em fazer o que ninguém mais estava fazendo, que era forçar seu (pênis) ereto em suas calças contra meu corpo nu e indefeso, escondido num lugar escuro, onde os frequentadores da festa não podiam mais me ver ou me proteger, e onde minha própria irmã não poderia me encontrar. Tomar shots não foi seu crime. Tirar e descartar minha calcinha como papel de bala e colocar seu dedo no meu corpo, foi aí que você errou. Por que eu ainda estou explicando isso?

Você disse: "Durante o julgamento eu não quis vitimizá-la de forma alguma. Foi só meu advogado e sua forma de conduzir o caso."

Seu advogado não é seu bode expiatório, ele representa você. Seu advogado disse coisas inacreditavelmente enfurecedoras e degradantes? Com certeza. Ele disse que você teve uma ereção porque estava frio. Não tenho palavras.

Você disse que está num processo de estabelecimento de um programa para alunos de ensino médio e universidades no qual você fala sobre sua experiência e "advoga contra a cultura da bebedeira nos campi de faculdades e a promiscuidade que essa cultura acarreta."

Advogando contra a cultura da bebedeira nos campi. É contra isso que estamos lutando? Você acha que foi contra isso que eu lutei esse ano todo que passou? E não pela conscientização contra as agressões sexuais no campus, ou estupro, ou sobre como saber se há consentimento. Cultura da bebedeira em campus. Abaixo Jack Daniels. Abaixo Skyy Vodca. Se quer discutir alcoolismo com adolescentes vá a uma reunião do AA. Você compreende que ter um problema com bebida é diferente de beber e tentar forçar alguém a fazer sexo com você? Ensine aos homens como respeitar as mulheres, não como beber menos.

A cultura da bebedeira e a promiscuidade que essa cultura acarreta. Acarreta, tipo um efeito colateral, tipo batatas fritas junto com o seu pedido. Onde é que a promiscuidade entra aí? Eu não vejo manchetes dizendo: "Brock Turner, culpado por beber demais e a promiscuidade que isso acarreta. Agressão (sexual) no campus. Eis aí seu primeiro slide no powerpoint.

Eu já expliquei o suficiente. Você não vai mais dar de ombros e bancar o confuso. Você não vai mais fingir que o sinal não estava vermelho. Você não vai mais ficar sem saber porque fugiu. Você foi condenado por me violar com dolo, e tudo o que você consegue admitir é que bebeu. Não fale sobre o triste rumo que sua vida tomou porque o álcool o fez agir mal.

Descubra como assumir a responsabilidade por sua própria conduta.

Por último, você disse: "Quero mostrar às pessoas que uma noite de bebedeira pode arruinar uma vida."

Arruinar uma vida, uma única vida, a sua. Você se esqueceu da minha. Deixe-me refazer essa frase para você: "Eu quero mostrar às pessoas que uma noite de bebedeira pode arruinar duas vidas." Você e eu. Você é a causa, eu sou a consequência. Você me arrastou para esse inferno com você, e me joga nele noite após noite. Você destruiu nossas duas torres, eu fui destruída no mesmo momento que você. Seus prejuízos foram concretos: perdeu títulos, diplomas, a matrícula. Meus prejuízos são internos, não podem ser vistos, eu os carrego comigo. Você me tirou meu valor, minha privacidade, minha energia, meu tempo, minha segurança, minha intimidade, minha autoconfiança, minha voz própria, até hoje.

Veja você, uma coisa temos em comum: nós dois somos incapazes de levantar pela manhã. O sofrimento não me é estranho. Você fez de mim a vítima. Nos jornais, meu nome era "mulher bêbada inconsciente", dez sílabas, e nada além disso. Por um tempo, eu acreditei que isso era tudo que eu era. Tive que me obrigar a reaprender meu nome, minha identidade. A reaprender que eu não era tudo que eu era. Que eu não era só uma vítima bêbada numa festa de fraternidade encontrada atrás de uma caçamba, enquanto você era o nadador orgulho americano de uma faculdade de ponta, inocente até que se prove o contrário, com tanto a perder. Eu sou um ser humano que foi irreversivelmente machucado, que esperou um ano para chegar à conclusão de que tinha algum valor.

Minha independência, alegria inata, gentileza e o estilo de vida estável de que eu gozava foram destorcidos por completo. Eu me tornei fechada, irascível, autocrítica, cansada, nervosa, oca. O isolamento às vezes era insuportável. Você também não pode me devolver a vida que eu tinha antes daquela noite. Enquanto você se preocupava com sua reputação estilhaçada, eu congelava colheres toda noite para quando eu acordasse, e me olhos estivessem inchados de tanto chorar, eu pudesse colocá-las em meus olhos para diminuir o inchaço e eu poder enxergar. Eu aparecia no trabalho uma hora atrasada toda manhã, me desculpava por chorar nos corredores, eu posso contar para você todos os melhores lugares daquele prédio para chorar sem ser ouvida, e a dor era tanta que eu tive que me desculpar e dizer ao meu chefe que estava deixando a empresa, eu precisava de tempo porque tocar o dia a dia não era possível. Eu usei todas as minhas economias para ir o mais longe que conseguisse.

Eu não consigo dormir sozinha à noite, como uma criança de cinco anos, porque tenho pesadelos que estou sendo tocada e não consigo acordar. Eu ficava acordada até o sol nascer e só então eu me sentia segura o suficiente para dormir. Por três meses eu fui dormir às seis da manhã.
Eu me orgulhava de minha independência, agora tenho medo de fazer caminhadas à noitinha, de ir a eventos sociais com bebida entre amigos, onde eu deveria me sentir confortável em estar. Eu me tornei um crustáceo, sempre precisando ter alguém ao lado, precisando ter o namorado junto de mim, dormindo comigo, me protegendo. É constrangedor o quão fraca eu me sinto, como eu ando pela vida com timidez, sempre me resguardando, sempre pronta para me defender, pronta para me enraivecer.

Você me arrastou para esse inferno com você, e me leva para ele toda noite. Você não tem ideia de como dei duro para reconstruir partes de mim que estavam enfraquecidas. Levou oito meses para eu falar sobre o que aconteceu. Eu não conseguia mais entrar em contato com amigos, com todos ao meu redor. Eu gritava com meu namorado, com minha própria família quando eles tocavam no assunto. Você nunca vai me deixar esquecer o que aconteceu comigo. No final do depoimento, do julgamento, eu estava cansada demais para falar. Eu saía acabada, quieta. Eu ia para casa, desligava o telefone e não falava com ninguém por dias. Você me comprou uma passagem para um mundo onde eu vivia completamente sozinha. Toda vez que uma nova matéria saía, eu revivia a paranoia que alguém na minha cidade natal iria descobrir e me intitular como a garota que foi estuprada. Eu não queria que ninguém tivesse pena de mim, e ainda estou aprendendo a aceitar a condição de vítima como parte da minha identidade. Você fez da minha cidade natal um lugar desconfortável para estar.

Um dia, você poderá me devolver o dinheiro da ambulância e da terapia. Mas não poderá me devolver minhas noites sem dormir. A forma como eu desabo chorando fora de controle quando vejo um filme onde a mulher é agredida, para pegar leve, essa experiência aumentou minha empatia por outras vítimas. Eu perdi peso devido ao estresse, quando as pessoas comentavam eu dizia que ultimamente eu estava fazendo muita corrida. Por vezes, eu não queria ser tocada. Tive que reaprender que eu não era frágil, eu era capaz, inteira, não só lívida e fraca.

Eu quero dizer isto. Todo o choro, a mágoa a que você me impôs, eu consigo aguentar. Mas quando vejo minha irmã magoada, quando a vejo incapaz de continuar os estudos, quando ela é privada de alegria, quando ela não dorme, ou chora tanto pelo telefone que chega a soluçar, dizendo repetidamente que se arrepende de ter me deixado sozinha naquela noite, desculpa, desculpa, desculpa, quando ela sente mais culpa do que eu, então eu não consigo perdoar. Naquela noite eu tinha ligado para tentar encontrá-la, mas você me encontrou primeiro. O argumento final do seu advogado começou assim: "Minha irmã disse que ela estava bem e que ninguém melhor do que ela para conhecer a irmã." Seus pontos de ataque são tão frágeis, tão baixos, que chega a ser constrangedor. Não chegue perto da minha irmã.

Se você acha que eu fui poupada, que eu saí ilesa, que hoje eu ando alegre em direção ao pôr do sol, enquanto você sofre a sua maior queda, você está errado. Ninguém ganha. Fomos todos devastados, nós dois estamos tentando encontrar uma razão nesse sofrimento todo.

Você nunca deveria ter feito isso comigo. Em segundo lugar, você nunca deveria ter me feito lutar por tanto tempo para lhe dizer que você nunca deveria ter feito isso comigo. Mas aqui estamos. O mal está feito, não há como desfazer. E agora nós dois temos uma escolha. Deixar que isso nos destrua, posso continuar magoada e você em negação, ou podemos encarar isso de frente, aceitar a dor, aceitar a punição e seguir adiante.

Sua vida não acabou, você tem muitos anos de vida para rescrever sua história. O mundo é enorme, é tão maior que Palo Alto e Stanford, e você encontrar um espaço para você nele, onde será útil e feliz. Nesse momento seu nome está manchado, eu então desafio você a construir seu nome, a fazer algo de tão bom para o mundo, que impressionaria a todos. Você tem um cérebro, uma voz e um coração. Use-os com sabedoria. Você tem o amor incondicional da sua família. Só isso já pode tirar você de qualquer situação. A minha família me sustentou ao longo de tudo isso. A sua vai sustentá-lo e você seguirá em frente.

Eu acredito que, um dia, você entenderá tudo isso melhor. Espero que você se torne uma pessoa mais honesta, que pode usar sua história de maneira apropriada para evitar que uma história como essa se repita. Eu apoio completamente sua jornada em busca de cura, de reconstrução da sua vida, porque esse é a única maneira em que você vai ajudar os outros.

Agora, com relação à sentença. Quando eu li o relatório do oficial da probatória, eu não acreditei, consumida pela raiva que eventualmente se silenciou numa tristeza profunda. Minhas declarações foram diminuídas, distorcidas e tiradas de contexto. Eu lutei muito durante este julgamento e não vou aceitar o resultado minimizado por um oficial que tentou avaliar meu estado atual e meus desejos e uma conversa de quinze minutos, na qual a maior parte do tempo foi usado para responder perguntas que eu tinha sobre o sistema judicial. O contexto também é importante. Brock ainda tinha que fazer sua declaração, e eu não havia lido seus comentários. Minha vida ficou em suspenso por mais de um ano, um ano de raiva, de angústia e incerteza, até que um jurado chegasse a um veredicto que validasse as injustiças que sofri. Se Brock tivesse admitido culpa e remorso e oferecido um acordo logo no início, eu teria considerado uma pena mais leve, em respeito à sua honestidade, grata em poder seguir adiante com nossas vidas. Ao invés disso ele resolveu ir a julgamento, adicionou o insulto ao mal que fizera e me obrigou a reviver a dor, conforme os detalhes de minha vida pessoal e da agressão sexual eram brutalmente trazidos a público. Ele fez minha família e eu passarmos um ano de sofrimento inexplicável e desnecessário, e deveria enfrentar as consequências por desafiar seu crime, por colocar minha dor em questão, por nos fazer esperar tanto tempo por justiça.

Eu disse ao oficial que não queria que Brock apodrecesse na cadeia. Não disse que não deveria ser preso. A recomendação do oficial de um ano ou menos no presídio regional é uma pena leve, é zombar da seriedade de suas agressões, e das consequências da dor que eu fui obrigada a suportar. Também disse ao oficial que queria de verdade que Brock entendesse e admitisse o que fez de errado.

Infelizmente, depois de ler a declaração do acusado, eu estou muito desapontada e acho que ele não conseguiu demonstrar arrependimento sincero e assumir a responsabilidade por sua conduta. Eu respeito por completo seu direito a um julgamento, mas mesmo depois de doze júris o terem condenado em unanimidade por três crimes, tudo a que ele admitiu foi ter consumido álcool. Alguém que é incapaz de assumir responsabilidade por seus atos não merece ter a pena diminuída. É extremamente ofensivo que ele tente amenizar o estupro sugerindo promiscuidade. Por definição, o estupro é a ausência de promiscuidade, estupro é a ausência de consentimento, e me perturba profundamente que ele não consegue nem perceber essa diferença.

O oficial argumentou que o acusado é jovem e é réu primário. Na minha opinião, ele tem idade suficiente para saber que o que fez é errado. Quando você tem dezoito anos neste país, pode ir para guerra. Quando tem dezenove, você tem idade suficiente para assumir as consequências por tentar estuprar uma pessoa. Ele é jovem, mas tem idade o suficiente para entender das coisas.

Como essa é sua primeira passagem pela polícia, posso entender a leniência. Por outro lado, como sociedade, não podemos perdoar a todos por suas primeiras agressões sexuais ou estupros com dedos. Não faz sentido. A gravidade do estupro tem que ser expressada com clareza, não deveríamos criar uma cultura que sugere que aprendemos que estuprar é errado por tentativa e erro. As consequências da agressão sexual precisam ser rígidas o suficiente para que as pessoas se sintam compelidas a exercer seu melhor juízo mesmo quando estão bêbadas; severas o suficiente para serem preventivas. O fato de Brock ser um atleta celebridade numa universidade de renome não deveria ser visto como ocasião para leniência, e sim como uma oportunidade de enviar uma mensagem cultural forte de que a agressão sexual é ato criminoso, independente da classe social. Ao oficial pesou o fato de que ele abriu mão de uma bolsa como nadador obtida com muito esforço. Se eu tivesse sido atacada por cara pouco atlético de um curso profissionalizante, qual seria sua sentença? Se um réu primário de um meio desprivilegiado fosse acusado de três crimes e não demonstrasse ser responsável por nenhuma de suas ações exceto a bebida, qual seria sua sentença? A velocidade com que ele nada não deveria minimizar o impacto do que aconteceu comigo.

O oficial afirmou que seu caso, quando comparado a outros crimes de mesma natureza, pode ser considerado menos sério devido ao nível de embriaguez do réu. Foi sério para mim. É só o que eu tenho a dizer.

Ele está registrado como agressor sexual. Isso não expira. Assim como o que aconteceu comigo não expira, não vai embora depois de um número x de anos. Fica comigo, é parte da minha identidade, mudou para sempre a forma como eu me encaro, a forma como vou viver o resto da minha vida.

Você nunca deveria ter feito isso comigo. Em segundo lugar, você nunca deveria ter me feito lutar tanto para lhe dizer que você nunca deveria ter feito isso comigo. Mas aqui estamos.

Um ano se passou e ele teve tempo de sobra. Ele está indo à terapia? O que ele fez nesse ano que passou para mostrar que está melhorando? Se ele diz que quer implementar programas, o que ele tem feito para apresentar neles?

Durante o encarceramento, espero que ele tenha acesso a terapia apropriada e recursos para reconstruir sua vida. Eu peço que ele se eduque acerca da questão da agressão sexual nos campi. Eu espero que ele aceite a punição apropriada e se esforce para se reinserir na sociedade como uma pessoa melhor.

Para concluir: gostaria de agradecer a todos. Ao estagiário que me serviu mingau na manhã em que acordei no hospital, ao policial que aguardou ao meu lado, às enfermeiras que me acalmaram, ao investigador que me escutou e nunca me julgou, aos meus defensores, que se mantiveram ao meu lado sem titubear, ao meu terapeuta que me ensinou a encontrar coragem na minha vulnerabilidade, ao meu chefe por ter sido gentil e compreensível, aos meus pais incríveis por terem me ensinado como transformar dor em força, aos meus amigos que me lembram de como ser feliz, ao meu namorado que é paciente e amoroso, à minha irmã invencível, que é minha outra metade, a Alaleh, meu ídolo, que lutou sem descanso e nunca duvidou de mim. Obrigada a todos os envolvidos no julgamento por seu tempo e atenção. Obrigada às meninas por todo o país que escreveram cartões para que o meu promotor me entregasse, a tantos desconhecidos que se importaram comigo. Acima de qualquer coisa, muito obrigada aos dois rapazes que me salvaram, a quem eu ainda não fui apresentada. Eu durmo com duas bicicletas que desenhei coladas na cabeceira da cama, para me lembrar de que há heróis nessa história. Que estamos zelando uns pelos outros. Ter conhecido todas essas pessoas, ter sentido sua proteção e amor, é algo que nunca vou esquecer.

E finalmente, para as meninas de todos os cantos, estou com vocês. Nas noites em que se sentirem sozinhas, estou com vocês. Quando as pessoas duvidarem ou descartarem vocês, estou com vocês. Eu lutei cada dia por vocês. Então nunca parem de lutar, eu acredito em vocês. Faróis não saem vagando por uma ilha em busca de embarcações para salvar; eles só ficam lá brilhando. Apesar de eu não poder salvar cada barco, espero que ao me pronunciar hoje, vocês absorvam um pouquinho de luz, um pequeno saber de que vocês não podem ser silenciadas, uma pequena satisfação de que a justiça foi feita, uma pequena segurança de que estamos chegando em algum lugar, e um grande, grande saber de que vocês são importantes, inquestionavelmente. Vocês são intocáveis, belas, e devem ser valorizadas, respeitadas, inegavelmente, cada minuto de seus dias. Vocês são poderosas e ninguém pode tirar isso de vocês. Para as meninas de todos os cantos, estou com vocês. Muito obrigada. "

Tradução: Nicole Alvarenga Marcello

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