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sexta-feira, 10 de junho de 2016

A declaração final da vítima de Stanford em português

Eu acredito no tradutor não só como facilitador e difusor de conteúdo. O tradutor age ajudando a proliferar. Para mim, a minha maior força está em traduzir algo que aparentemente não há interesse em se traduzir. Quando há dois dias, li a declaração final da vítima de Stanford, dirigida mormente ao seu agressor, eu pensei: as pessoas tinham que estar lendo isso. Isso é um manifesto de empoderamento, de conscientização, e uma prova de força. Não sei se foi traduzida pelos meios de comunicação nacionais. Até porque o estupro coletivo ocorrido há algumas semanas no Rio de Janeiro e a crise política no país tomam conta das páginas dos noticiários. Se esta declaração já foi traduzida e publicada em meios de comunicação, ótimo. Se não, fica aqui minha versão da declaração dada por aquela que, na minha opinião, não deveria ser intitulada vítima, mas sim sobrevivente.



"Meritíssimo,

Se não houver problema, durante a maior parte desta declaração eu gostaria de me dirigir diretamente ao réu. Você não me conhece, mas você esteve dentro de mim, e é por isso que estamos aqui hoje. No dia 17 de janeiro de 2015, era uma noite de sábado tranquila em casa. Meu pai preparou o jantar e sentamos à mesa com minha irmã mais nova, que estava nos visitando naquele fim de semana. Eu trabalhava em tempo integral e estava chegando a minha hora de ir dormir. Eu planejava ficar em casa sozinha, assistindo um pouco de TV e lendo, enquanto ela ia para uma festa com amigos. Então, como era minha única noite com ela e eu não tinha nada melhor para fazer, então eu pensei, por que não, tem uma festa boba a 10 minutos da minha casa, eu vou, danço como uma tola, e deixo minha irmã caçula sem graça. No caminho, eu brinquei que os calouros teriam aparelhos nos dentes. Minha irmã me zoou por estar usando um cardigã bege de bibliotecária para uma festa de fraternidade. Eu me intitulei a "tiazona", porque sabia que eu ia ser a mais velha lá. Eu fiz caretas, baixei a guarda, e bebi muito rápido, sem perceber que minha tolerância ao álcool tinha diminuído significativamente desde a faculdade.

Depois disso eu só me lembro de estar numa maca num corredor. Eu tinha sangue seco e curativos nas costas das mãos e nos cotovelos.