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terça-feira, 24 de maio de 2016

B de baiano

Baiano (Baía, topônimo + -ano).


Adjetivo: relativo ou pertencente ao estado brasileiro da Bahia.
Substantivo masculino: natural ou habitante da Bahia.




Mas em São Paulo a gente usava com sentido diferente. Quando alguma arrumação era muito colorida, espalhafatosa, sem ordem ou combinação, dizíamos que aquilo estava muito 'baiano'. Em leve tom pejorativo, é óbvio.
Minha avó ficava irritadíssima quando diziam que era baiana. É natural de Goianinha, Rio Grande do Norte. Só não sei se não gostava da generalização ou da equiparação. Talvez não quisesse ser associada ao estereótipo do baiano: lerdo, devagar, preguiçoso. Logo ela, que trabalhou tanto na vida. Chegou a lavar roupa de cama do Regimento. O encarregado do quartel levava o fardo toda semana para ela e uma amiga em camioneta aberta, e descarregavam com carrinho de mão. Piruzinho como chamávamos em Caçapava.
A coitada já foi chamada de tanta coisa aqui para os lados do 'sul'. O que mais a entristecia era ser chamada de 'pau-de-arara'. Magoava mesmo. Mas talvez quem devesse ficar mais enraivecido é o próprio baiano. Os tantos baianos e não-baianos, nordestinos enfim, que trabalham na construção civil, em serviços gerais, entre outros ofícios mais ou menos penosos, para serem desprezados por gente que às vezes não precisou trabalhar um dia sequer na vida. Isso sim ofende mais do que tudo.
Mas, para também não ser tão dura com meus conterrâneos,

não vou vou falar do asco do centro-sul aos nordestinos nem pela óptica da hierarquização dos corpos, nem pelo viés do migrante indesejado; do intruso usurpador de postos de trabalho.

O Outro é sempre problemático. O nordestino gera um incômodo ao sudestino. Considerados como inferiores e atrasados por uma cultura ditadora de normas, o nordestino choca. Choca pela tenacidade amoral. O trabalho como atividade, sem a conotação enobrecedora do esforço, tão comum às sociedades capitalistas. A ausência de culpa, a alegria, a diversão. Não me parece que festejem como recompensa à semana dura de trabalho. Não comem o chocolate no sábado porque fizeram dieta a semana inteira. Ou sim, vai lá saber. Esse problema que existe nas impressões e generalizações. Pois a mim parece que há celebração mesmo quando aparentemente não há motivo. Parece que dão graças pela graça de estar vivo.
E ao mesmo tempo em que possuem um estrito código de honra; uma coisa meio à la Lei de Talião, também escapam sorrateiros à moral burguesa das sociedades modernas. Aquele lance das propriedades privadas e a necessidade de dar nome do pai aos filhos.
Em um determinado capítulo de O Segundo Sexo (pelo que me lembro, o capítulo é "A Mãe"), Simone de Beauvoir discorre sobre como as sociedades camponesas guardavam ainda traços do arcaíssimo Matriarcado, quando pouco importava a origem paternal do filho feito. Estava feito, tinha mãe e era só o que bastava. E isso é um choque, talvez o choque maior dos valores.
Meu pai cortava o cabelo com o Jequié. Uma vez ele me disse como o Jequié realmente se chamava, mas já esqueci. O fato é que o Jequié era um barbeiro de fala mansa, tranquilo. Aquele tipo para quem não tem tempo ruim e no fim tudo se ajeita. Tinha um piano na barbearia. E tocava. Música clássica. Tinha uns livros grossos de coletâneas dos grandes clássicos populares da música erudita europeia. Às vezes quando a gente passava na rua, dava para ouvir o Jequié tocando. Mas, quando ia cortar o cabelo, não raro meu pai voltava com sua moral de família tradicional italiana meio chocada.
Lembro da vez em que chegou mais impressionado. A filha mais velha do Jequié acabara de parir o segundo filho supostamente sem pai. O pai da moça (o Jequié), que aparentemente criava as duas filhas sem mãe (nunca ouvi falar na mulher do Jequié), já contava o segundo neto sob suas asas. O maiorzinho às vezes aparecia na barbearia para ganhar o carinho do avô.
Bem, naquele dia meu pai estava cortando o cabelo e a filha do Jequié estava lá com o neném. Estavam sempre por lá, pois a barbearia era um salão da frente da casa. Ele então comentou alegre ao meu pai: "Veja só como mudou! Até ontem não cuidava nem dela mesma direito, e agora precisa ver como toma conta do menino. Faz tudo no maior capricho. É um cuidado de fazer vista!"
Meu pai se estupefara. A filha não trabalhava, já estava no segundo filho para ele sustentar e o Jequié ali, achando lindo ver como ela trocava fralda, aleitava e embalava o filho com tanto zelo e carinho. Ele definitivamente não conseguia entender.
Mas minha avó também fora mãe solteira. Todo mundo sabia, mas ninguém falava. Meu avô perfilhou a filha só de mãe da minha avó; a minha avó natural de Goianinha, Rio Grande do Norte, que acabou aqui no 'sul' atrás do dito cujo pai que prometera voltar, mas que ela encontrou por aqui com noiva e tudo. Ela se preocupava muito que sua filha não fosse discriminada por ser nordestina. E por ser perfilhada também, mas isso ela nunca admitiu.
Sei lá se essa arrumação deu muito certo. Quem sou eu para julgar o procedimento dos ancestrais? Como dizia o poeta: são crianças como eu, o que eu vou ser quando eu crescer. Porque afinal, ainda somos os mesmos, e vivemos como nossos pais.
Fizeram eles o melhor que puderam. Só me pergunto se não fazem melhor os Jequiés, em seu mundo onde às mães basta que sejam boas. E nada mais.

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