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terça-feira, 10 de maio de 2016

Às Melhores Mães





Pier Paolo Pasolini foi um artista polêmico, em todos os aspectos. Sua atuação como roteirista e diretor cinematográfico é a mais conhecida do grande público, e muita gente não faz nem ideia de que Pasolini escreveu romances, ensaios (compilados numa edição de três grossos volumes) e poesia. E esse artista multifacetado é também uma figura envolta em mistério. Até hoje as circunstâncias de seu brutal assassinato, ocorrido em fins de 1975, não foram devidamente/satisfatoriamente esclarecidas. Das especulações mais radicais, a versão mais absurda e disparatada é também a mais fascinante: nessa "teoria da conspiração", a morte de Pasolini representaria na realidade um suicídio, pois teria sido um assassinato orquestrado pelo próprio cineasta, o qual teria em mente sua morte como a obra que finalizaria a sequência de seus filmes. Os defensores desta hipótese afirmam que ao assistir aos filmes de Pasolini é possível perceber e delinear seu fim trágico.

Mas justamente por ser a versão mais improvável e fantasiosa de sua morte é que ela se torna tão atraente. Sendo assim, decidi assistir à filmografia (de longas) de Pasolini em ordem cronológica, e observar como ela se delineia. E ontem foi a vez de Mamma Roma (1962).
Segundo longa de Pasolini, Mamma Roma (1962) conta a história de uma prostituta de meia-idade (Anna Magnani) que consegue deixar as ruas
e vai buscar seu filho adolescente, Ettore (Ettore Garofolo), que foi criado — provavelmente por familiares — em Guidonia, cidade camponesa da província de Lazio.
A cena inicial tem o mesmo formato de outros filmes de Pasolini. Ao espectador não é dada a oportunidade de uma aclimatação progressiva: ele é simplesmente atirado numa cena, em geral caótica, e é obrigado a elaborar o enredo a partir dali, de supetão. Em Mamma Roma a cena inicial é a do banquete das núpcias de Carmine (Franco Citti) com uma camponesa (Maria Bernardini). Nesse momento, Pasolini se apropria do formato da ópera, e através de um repente entre Carmine, Mamma Roma e a noiva, compreende-se que Carmine fora o cafetão de Mamma Roma e que seu casamento significa a liberdade para a prostituta.
O restante do longa mostra muito bem, a meu ver, a construção de uma relação entre mãe e filho (que durante muito tempo viveram distantes um do outro), as dificuldades que um jovem criado no campo enfrenta para se adaptar aos hábitos da cidade grande (Roma), e o empenho de Mamma Roma em se inserir na classe média romana e ascender social e financeiramente. A ex-prostituta busca de todas as formas uma posição "de respeito": muda-se para um bairro emergente, consegue licença para trabalhar como feirante numa piazza, e frequenta a Missa com o filho aos domingos.


Se observarmos a obra de Pasolini como um todo, veremos que seu fascínio por algumas figuras do submundo é insistente: a relação tensa entre a prostituta "de calçada" e seu cafetão, e a ação de bandos vadios — de dia jogando conversa fora nas portas dos bares, planejando pequenos assaltos e golpes, e à noite em atos de violência e vandalismo — é presença forte em sua obra. Não só em seus primeiros longas, mas também na literatura, como podemos perceber no tema de seu romance Meninos da Vida (1955).
Em seu trabalho anterior, Accattone - Desajuste Social (1961), a trama é centralizada no perturbado cafetão Accattone (Franco Citti), que explora Stella (Franca Pasut), a moça inocente pela qual ele se apaixona. Agora, em Mamma Roma, quem fica sob os holofotes é a prostituta. Curiosamente, é justamente nesse entremeio da produção cinematográfica de Pasolini que ficção, realidade e continuidade se misturam. Franco Citti interpreta o cafetão dos dois longas. O ator que interpreta Ettore (Ettore Garofolo), o filho de Mamma, compartilha nome e sobrenome com seu personagem, como fica evidente na cena em que Carmine procura Mamma em Roma. Ao tentar descobrir seu endereço, um transeunte pergunta: "Qual é o sobrenome?", no que Carmine responde: "Garofolo".
Mas esse retrato de seres humanos à margem de uma sociedade de consumo na Itália do pós-guerra não é de todo pessimista. Pasolini é um apaixonado pela vitalidade e espontaneidade da juventude, e o longa tem aí seu naco de beleza e simplicidade. A relação livre e sem moralismos que os personagens jovens têm com o sexo e a procriação é dos momentos de maior pureza e emoção de Mamma Roma, com destaque para o envolvimento entre Ettore e Bruna (Silvana Corsini).


Com respeito a aspectos técnicos, vale ainda salientar o dinamismo que o tracking shot imprime às cenas de Mamma nas noites romanas. A câmera acompanha seu caminhar firme enquanto ela encontra rapidamente ilustres desconhecidos do submundo: policiais, grupos de homens, outras prostitutas... A eles ela conta, ainda que sem consistência, sobre seu passado, dando uma chance ao espectador de saber um pouco mais sobre a personagem.
Tanto Accattone quanto Mamma Roma elaboram arquétipos, mas nunca estereótipos. Quem espera encontrar a Roma do imaginário turístico, das comédias românticas norte-americanas ou de La Dolce Vita (Federico Fellini - 1960), vai se decepcionar. Pasolini dá um olhar para a Roma suburbana do pós-guerra, com bairros emergentes em construção, muito próximos a redutos miseráveis. Suas locações incluem também campos abertos, com alguns vestígios de ruína. Sua Roma é uma Roma mais rústica, mas nem por isso menos poética.



Além disso, Pasolini desconstrói ao mesmo tempo em que reafirma a figura da mãe. Como havia dito: nunca estereótipos. Mamma Roma é a mãe loba que ama seu filho loucamente. Pense em tudo que uma mãe é capaz de fazer por um filho. Mamma faz tudo isso e mais um pouco. Ainda assim, tirada a humanidade que Pasolini nos dá a ver em Mamma, nossa sociedade rotula essas Mammas como parideiras desnaturadas. A puta safada que abandona seu filho para os outros criarem e só vai buscar depois de crescido. Mas eu duvido muito que o espectador seja capaz de pensar isso da Mamma Ro', como é carinhosamente chamada. E esse personagem feminino tão bem construído me fez compreender uma frase que ouvi uma vez de uma amiga: "As prostitutas são as melhores mães."


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