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sexta-feira, 13 de maio de 2016

A Voz do Brasil


Brasil, sexta-feira, 13 de maio de 2016. 19 horas. Horário de Brasília.

Sabemos que a Guarajuba, árvore que considerávamos extinta há dezoito anos, teve um exemplar encontrado em Niterói.

Comemora-se o dia da Virgem de Fátima.

Vejo que da lama mais abissal saiu aquele que é meu maior tesouro.

Li numa camiseta que "A vida ainda vale a pena".

Uma amiga saiu de seu bloqueio criativo.

Uma frente fria tomou o Rio, e cai uma chuva fina (por vezes não tão fina). A essa altura só os parvos e os articuladores são capazes de comemorar a atual situação. As hienas e os ratos. Mas impera um estranho silêncio.
Foi numa noite de quinta para sexta que aquele homem comeu com seus doze companheiros.
E com um ósculo, o traidor entregou seu mestre àqueles sedentos de vingança e mordaça.

Antes que os mais religiosos protestem, não, não quero comparar Jesus aos nossos políticos. Não havia nos projetos de Jesus um plano de salvação política ou econômica para o povo judaico, mas sim espiritual. Entretanto, se você crê em Jesus e não acredita que ele foi uma invenção, tem que considerar os fatos. E terá que admitir que a paixão de Cristo foi possibilitada por uma conjuntura histórica e política.
Jesus desafiou os poderosos de seu tempo. Fez milagres no sábado, comeu sem antes lavar as mãos, deu de comer, curou e esteve sempre ao lado dos mais pobres, condenou a sonegação de impostos ("Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus." Mateus, 22, versículo 18), o comércio dentro dos templos, e absolveu a puta. Em Roma ele nem fazia cócegas; ocupavam pela força e a coerção. Dificilmente o povo judeu amotinado teria aparato para fazer frente ao colosso que era o exército romano. Mas incomodou a casta de sacerdotes e patriarcas judaicos, que talvez temessem perder de vez o controle do território, ao perder a influência ideológica e de manipulação que tinham sobre o povo.
E assim Jesus foi entregue às autoridades romanas. Para sossegar a confusão em seu território, Pilatos manda logo prender Jesus e coloca-o sob o escrutínio da opinião pública. Sim, daquele cidadão médio, como eu e você, cansado da balbúrdia que virou sua terra, com aqueles romanos escandalosos e promíscuos, que comiam-lhe a renda com altíssimos impostos. Aí talvez só Deus (ou Freud) expliquem o que fez com que aqueles judeus de classe média e baixa pedissem com sangue no olho o sacrifício de Jesus. E não só. Em troca, pediram sem peso na consciência a absolvição de um famigerado criminoso.
Mas assim aconteceu. Imagino que o fim da sexta-feira da Paixão tenha sido um pouco como o dia de hoje. Ou melhor, imagino que o dia de hoje seja um pouquinho como o clima daquela sexta-feira da Paixão. Uma multidão babando ódio, satisfeita em ver aquele "safado da sandalinha", que vinha com papinho de "se quer me seguir abandonem tudo, família, terra, gado". Esse negócio de curar mendigos, encher a barriga daquele bando de vagabundo (Imagina, pão e peixe de sobra para aqueles faz-nada!), ficar sentado na montanha ensinando, pensando no que é melhor para alma. Quanta perda de tempo. O negócio é trabalhar duro para vencer na vida. Agora a Jerusalém ia conseguir andar para frente.
Do outro lado tinham os pobres, aqueles que viam no Cristo seu alento. Talvez sem entender sua mensagem, mas agora já saudosos do carinho, da paz, da grandeza que era ver aquele homem olhando para eles. Agora seriam rebanho novamente. E sem pastor. Mas estes nada podiam além de assistir à mixórdia.
Houve os que conheceram Jesus mais de perto. Sua mãe, sua família (uma questão divergente entre os cristãos), seus companheiros de pregação. E também uma parte da elite lúcida que, compreendendo melhor o que acontecia, talvez sofresse mais. José de Arimatéia, Nicodemos, Maria de Betânia, Maria de Cleófas e o resto da "esquerda caviar" de então.
Por fim, os patriarcas e fariseus a tudo observavam, com olhar contente de satisfação. Acabava a ameaça daquele que se proclamava não só rei, como também — e sobretudo — filho de Deus. Agora poderiam continuar se articulando, talvez fosse até possível que conseguissem algumas regalias com o governador da província, afinal, se comportaram muito bem, denunciando um traidor, um possível surrupiador do Império (Vejam que despautério, "o da sandalinha" se dizia rei).
Mas o que reinou mesmo sobre a Judéia naquela noite, e naquele dia, foi o silêncio. Silêncio dos que perceberam seu erro (Judas, de tão atormentado, se suicidou). Silêncio dos vencedores. Silêncio dos amordaçados, exilados, usurpados. Um grande silêncio que impera misteriosamente quando dá uma merda muito grande.
Só que Jesus saiu dessa. No domingo. E dizem que ainda passou quarenta dias lá por Jerusalém, de boa, dando as últimas coordenadas antes de voltar definitivamente para casa. E nos mostrou que nesse mundo tudo é passageiro, insondável, imprevisível e surpreendente.
Dentro do tempo de uma vida humana (das mais longas), cabe apenas um pedacinho minúsculo de uma era geológica, meia vida de uma tartaruga marinha, 5 % do tempo de vida da mais velha árvore do mundo, nascem e morrem incontáveis borboletas, e, quando o sujeito bater as botas, Plutão não chegou nem na metade de sua volta em torno do Sol. Ou seja, o tempo histórico e não-histórico nos suplanta de maneira inominável.
Mas a gente quer ser feliz, e merecemos, no pouco tempo que gozamos aqui por essa terrinha. Talvez por isso o desespero em mudar, em não mudar, a impaciência, o querer se dar bem. O problema é que com essa ânsia de fazer tudo dar certo no atropelo, na injustiça e na intolerância, a gente fode com os que estão vindo depois da gente. Aquela incapacidade de secar a tampa da privada para o próximo que vai mijar. E ficamos todos condenados a ter que escrever tudo outra vez. Eternamente numa rede: para frente, para trás, para frente, para trás.
Mas isso é ínfimo, é pequeno. É o fim. E é só mais um começo e um recomeço.

Termina aqui a transmissão desta sexta-feira, 13 de maio de 2016.

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