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sábado, 28 de maio de 2016

Lixinhos Literários no. 4

Coisas que um ninja me disse


Suprematismo (1915), Kazimir Malevich


Outro dia um ninja me disse uma porção de coisas. Duvido que ele seja mesmo ninja, mas como não há nada que prove o contrário, confio em sua palavra. É ninja.

Pois bem. Neste dia o ninja me disse que o segredo da serenidade era saber que o mundo à nossa volta não é o nosso mundo. "Eu tenho o meu mundo, que não é esse mundo aqui. Tente fazer o seguinte: quando for dormir, tente não pensar nas coisas que aconteceram no dia, pensar no que tem que ser feito, nada. Tente encontrar seu mundo."
Chorei. Era tudo o que eu precisava. Não pensar nas mazelas do mundo, nas desgraças. Saber que nada daquilo era meu, mesmo que eu sentisse que fosse. Mas então, o que era o meu mundo? Eu é quem? O que é Eu?
Eu é uma porção de pedaços. Os que eu escolho e os que eu não escolho, que vão colando em mim. Eu são as coisas que aprendi. As pessoas com quem convivi. Eu são boas e más lembranças. O que seria Eu sem as histórias que li, que me contaram? Eu é a cara de pessoas que amo e odeio ao olhar no espelho. Eu é moça sozinha, mulher casada, dona-de-casa, estudante, cult, caipira simplória e baile de favela vagando no mundo. É o gato de olho arregalado, que só confia em si. E o cão vadio, que anda sem rumo de cabeça erguida, confiante. Eu são astros, água, terra e fogo. Nessa ordem.
Será que em Eu há algo que seja realmente meu? Talvez Eu seja na realidade um grande nada. Um grande aberto. Mas um nada aberto não é necessariamente vazio. Nada não é oco, nem vácuo. Nada é alguma coisa.
Saberei quem sou no dia em que conseguir acessar esse lugar intocado, imaculado. Este aberto onde nada entra e nada sai; há só o verdadeiro de nós mesmos. Neste dia terei então conhecido a mim mesma.

Branco no branco (1918), Tela de Kazimir Malevich

terça-feira, 24 de maio de 2016

B de baiano

Baiano (Baía, topônimo + -ano).


Adjetivo: relativo ou pertencente ao estado brasileiro da Bahia.
Substantivo masculino: natural ou habitante da Bahia.




Mas em São Paulo a gente usava com sentido diferente. Quando alguma arrumação era muito colorida, espalhafatosa, sem ordem ou combinação, dizíamos que aquilo estava muito 'baiano'. Em leve tom pejorativo, é óbvio.
Minha avó ficava irritadíssima quando diziam que era baiana. É natural de Goianinha, Rio Grande do Norte. Só não sei se não gostava da generalização ou da equiparação. Talvez não quisesse ser associada ao estereótipo do baiano: lerdo, devagar, preguiçoso. Logo ela, que trabalhou tanto na vida. Chegou a lavar roupa de cama do Regimento. O encarregado do quartel levava o fardo toda semana para ela e uma amiga em camioneta aberta, e descarregavam com carrinho de mão. Piruzinho como chamávamos em Caçapava.
A coitada já foi chamada de tanta coisa aqui para os lados do 'sul'. O que mais a entristecia era ser chamada de 'pau-de-arara'. Magoava mesmo. Mas talvez quem devesse ficar mais enraivecido é o próprio baiano. Os tantos baianos e não-baianos, nordestinos enfim, que trabalham na construção civil, em serviços gerais, entre outros ofícios mais ou menos penosos, para serem desprezados por gente que às vezes não precisou trabalhar um dia sequer na vida. Isso sim ofende mais do que tudo.
Mas, para também não ser tão dura com meus conterrâneos,

sexta-feira, 13 de maio de 2016

A Voz do Brasil


Brasil, sexta-feira, 13 de maio de 2016. 19 horas. Horário de Brasília.

Sabemos que a Guarajuba, árvore que considerávamos extinta há dezoito anos, teve um exemplar encontrado em Niterói.

Comemora-se o dia da Virgem de Fátima.

Vejo que da lama mais abissal saiu aquele que é meu maior tesouro.

Li numa camiseta que "A vida ainda vale a pena".

Uma amiga saiu de seu bloqueio criativo.

Uma frente fria tomou o Rio, e cai uma chuva fina (por vezes não tão fina). A essa altura só os parvos e os articuladores são capazes de comemorar a atual situação. As hienas e os ratos. Mas impera um estranho silêncio.
Foi numa noite de quinta para sexta que aquele homem comeu com seus doze companheiros.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Às Melhores Mães





Pier Paolo Pasolini foi um artista polêmico, em todos os aspectos. Sua atuação como roteirista e diretor cinematográfico é a mais conhecida do grande público, e muita gente não faz nem ideia de que Pasolini escreveu romances, ensaios (compilados numa edição de três grossos volumes) e poesia. E esse artista multifacetado é também uma figura envolta em mistério. Até hoje as circunstâncias de seu brutal assassinato, ocorrido em fins de 1975, não foram devidamente/satisfatoriamente esclarecidas. Das especulações mais radicais, a versão mais absurda e disparatada é também a mais fascinante: nessa "teoria da conspiração", a morte de Pasolini representaria na realidade um suicídio, pois teria sido um assassinato orquestrado pelo próprio cineasta, o qual teria em mente sua morte como a obra que finalizaria a sequência de seus filmes. Os defensores desta hipótese afirmam que ao assistir aos filmes de Pasolini é possível perceber e delinear seu fim trágico.

Mas justamente por ser a versão mais improvável e fantasiosa de sua morte é que ela se torna tão atraente. Sendo assim, decidi assistir à filmografia (de longas) de Pasolini em ordem cronológica, e observar como ela se delineia. E ontem foi a vez de Mamma Roma (1962).
Segundo longa de Pasolini, Mamma Roma (1962) conta a história de uma prostituta de meia-idade (Anna Magnani) que consegue deixar as ruas

sábado, 7 de maio de 2016

A de Amizade

Não, não vou falar sobre mães. Eu gosto de estar fora do padrão, de marchar, de pensar ao lado; de fazer diferente. Então, se vocês hoje quiserem ouvir sobre amizade, leiam. 
Este texto não era para estar aqui, porque ele é parte de um projeto maior, que não sei se terei fôlego para terminar, mas gostaria muito. Entretanto, hoje quando comentei com uma amiga muito querida que havia escrito sobre amizade, ela quis ler. Então ele veio para cá, para estar loguinho com ela. 

Amizade (latim vulgar amicitas, -atis).

Pouco importa a potencialidade de falar sobre a alma, o abstrato, o outro mundo e outros mundos. A amizade é assunto para mim infinitas vezes mais sedutor. Não adianta, a gente fala daquilo que nos é caro. Porque de todas as relações (humanas e não-humanas), a amizade é para mim a mais valiosa e delicada.
Não falo aqui de conexões, contatos, conhecimentos, colegas. Nestes laços estão envolvidos interesses de algum tipo. Baseiam-se na troca; mercantilização de contato. Quero falar das amizades; aquelas junções inexplicáveis.
Gosto da amizade porque é aliança, mais santa que o matrimônio. Quase um feitiço. Dos relacionamentos existentes, a amizade é o menos provável, menos possível; sem sentido lógico. A amizade definitivamente não é racional.
Amigos encontram-se por acaso, mas permanecem juntos por livre escolha. Há partilha, é verdade. Trocam-se interesses, ideias, receitas, afeto… por um prazer simples, e ao mesmo tempo tão complicado. E quando nos damos conta, somos capazes de pôr em risco até a vida, por um afeto dos mais tênues. Ligados por uma atração perigosamente delicada.
Retirados os impulsos sexuais e as vantagens e intercâmbios de toda sorte (agentes de embaralhamento dos sentimentos), sobra o sem sentido: a amizade.
Não há sangue, pátria, Deus, dinheiro nem espécie. Não há nada que justifique a amizade, além do gosto que esta tem em ser alimentada. Uma gratidão, uma vontade de extrapolar a alegria da partilha da vida.
Não que sejamos imunes aos efeitos do contato, pelo contrário. Impossível não sermos contaminados pelo amigo. Há memória, experiência, ideias, o aprendizado. Nunca seremos os mesmos de novo. Mas não há proporcionalidade, regulamentação, protocolo. E somos senhores do toque: basta que se afastem as superfícies de contato e tudo se apaga. Ou não. Nunca se sabe.
Por toda essa radical liberdade; sem culpa, sem dever, sem cobrança. Por esse nada em potencial, que pode vir a ser a potência maior, eu declaro: a amizade é sublime, santa e sagrada.