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segunda-feira, 14 de março de 2016

Mataram meu pai




Ontem quando fui dormir lembrei do meu pai. Olhei para cima e vi uma escuridão muito grande: tudo plano e sem graça. E então lembrei do meu teto quando eu era criança. Meus pais trouxeram de São Paulo uns adesivos fluorescentes de estrelas e planetas, desses esverdeados que brilham no escuro. Colaram no teto do nosso quarto. Tinha estrela grande e pequena, planetas, cometas rabudinhos… O que eu mais gostava era o Saturno (ou qualquer que fosse aquele planeta anelado), justamente por causa dos anéis, tão reais. As noites eram mais bonitas, e mais claras até, com esse céu que papai montou. Porque tenho certeza que foi idéia dele.
Meu pai gostava do céu, de observar os astros. Me ensinou a ver meteoros. Nunca me esqueço da noite em que ele me explicou o movimento dos astros. Me lembro de estar na copa, com sua mesa comprida de pés palito em latão e tampo laqueado fajutão, imitando madeira (estava sempre atulhada de papéis). À esquerda
, presa à mesa por uma borboleta, tinha uma luminária de aço muito grande e fria, de fios encardidos por um pó curtido.
Era sob aquela luz branca de necrotério que nos debruçávamos sobre nossas desgraças cotidianas: eu as tarefas da escola, mamãe as provas e estênceis, e os dois (papai e mamãe) uma vez por ano queimavam a vista nos formulários do imposto de renda.
As aulas de Ciências não me eram fáceis. E naquela noite eu tentava aprender sobre os movimentos da Terra, da Lua… Não sei como ele descobriu que eu precisava de ajuda, só me lembro que ele calmamente pegou uma bola de tênis, colocou contra a luz da luminária e pediu que eu olhasse para a parede. E de repente a escuridão era o céu e eu tinha diante de mim a Terra lentamente se movendo contra a luz do Sol, enquanto ele descrevia sereno o que acontecia e eu tinha na penumbra da copa a grandiosidade do cosmo.
Papai foi soldado. E contava com muita animação sobre os treinos que fez, das noites de serviço. Devia ser muito legal viver tanta aventura. Contou que quando era sentinela em certas guaritas, o nada e o silêncio às vezes eram tão imensos que o medo era a companhia ideal. Mas nem sempre. Um colega morreu por causa do medo, outro ficou catatônico. O primeiro não deu a senha e a sentinela atirou. O segundo só Deus sabe o que viu ou com quem esteve.
Mas este mesmo bravo e correto soldado foi aquele que, quinze anos depois de servir, cantava Taiguara para eu dormir e que eu vi feliz da vida voltar das urnas com minha mãe, ambos com votos depositados em Lula. Foi ele quem me contou que foi inconstitucional Sarney ter assumido a presidência: "era vice eleito, não empossado". E também me disse que às vezes culpados são libertados, mas, por mais que saibamos do delito, se não conseguimos comprová-lo temos que respeitar a lei e liberar o acusado.  
Vi meu pai chorar no final de "Ghost", e também quando a vó Rosa morreu.
Mas mataram meu pai. Só sobrou um homem que não reconheço mais. Debochado, mesquinho. Que não me pergunta como estou. Que, sem saber os percalços pelos quais estou passando, me escreve para zombar de minhas convicções.
Talvez ele tenha sempre concordado com a barbárie, e eu não tivesse conhecimento por ser muito criança. Mas agora eu cresci. Para ele pode ser brincadeira, piada, mas já aconteceu uma vez por aqui e nada impede que a carnificina se repita. O mal está sempre à espreita, sempre possível mais uma vez.
Só que agora eu seria mais uma junto aos Vladimires suicidados, aos Vinicius exonerados, aos Taiguaras censurados, às esposas abortadas, aos tantos que sumiram sabe-se lá onde nem como. Eu estaria presa ao lado dos livres, dos que desejam cantar livres sobre os muros.
Mataram meu pai. E aquele que sobreviveu não se importa, ou até deseje, que matem a mim.

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