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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Reflexões Animais

Queridos amigos,

Dias 01 e 02 de outubro aconteceu, na UERJ, o I Seminário sobre Representação Animal na Literatura. Foram dois dias intensos, com muitas palestras interessantes.
Hoje, 07 de outubro, faz 166 anos que Edgar Allan Poe faleceu. Em homenagem a ele, reproduzo aqui minha fala:, proferida durante o seminário: Ternura e Terror, dois momentos da representação animal no conto, onde analiso uma obra sua: O Gato Preto.


Helena e o poder do olhar animal
"Boa tarde a todos. Antes de começar, gostaria de agradecer a oportunidade de estar aqui hoje e poder compartilhar um pouco das minhas reflexões animais.
A fala de hoje, dedico à gata Lila, falecida dia treze último. Lila não fazia parte do meu bando, mas conheci seu olhar sobre mim. E não há nada mais sublime e arrebatador do que o olhar de um animal sobre nós. Quem tem a coragem de encarar o olho animal faz contato não só com o selvagem, com o primordial; com o inicial e o iniciático, mas também com o mágico, o indizível e o incompreensível em si e no outro. Mas não só. O olho animal nos coloca diante das questões ontológicas. Não se trata mais do "eu" e do "outro", e sim do mundo. Quem olha o olho animal, se põe em contato com a essência do mundo.
Mas, ainda assim, tudo depende de quem vê. Colocar-se assim à mercê, se dar a conhecer ao outro, pode ser das experiências mais reconfortantes ou das mais desestruturadoras, como veremos nos dois contos a seguir.


'A quem confiarei minha dor?' . A epígrafe de "Angústia", de Tchékhov, é a pergunta e a busca do cocheiro Iona Potapov. Há uma semana Iona perdeu o filho e procura alguém com quem desabafar. A impossibilidade de compartilhar a experiência da perda é a fonte da enorme angústia que lhe oprime o peito. Ele fala. Chega a contar o fato para seus passageiros. Mas não consegue alguém que o ouça, disposto à empatia.

Nesse primeiro momento podemos perceber no texto de Tchékhov o desenvolvimento de dois planos de identificação entre Iona e seu cavalinho. Enquanto aguardam passageiros e durante a primeira corrida ambos apresentam comportamento e sensação semelhantes. Mostram-se paralisados e atordoados diante das luzes, do barulho e da agitação da noite na cidade grande. O animal retirado da monotonia da lavoura não compreende a confusão. Tampouco Iona, que aparenta ter sido homem do campo. A incompreensão da lógica fria e mecânica da metrópole é o que os aproxima.
Já no momento da segunda corrida, o autor liga Iona a seu companheiro de trabalho em nova perspectiva, mais corpórea. Seu trenó superlota com um grupo de três rapazes: dois altos e um corcunda, o qual viaja em pé, colado ao "lombo" de Iona, justamente por sua constituição física. O corcunda segue viagem curvado, agarrado como o jóquei ao seu puro-sangue em corrida. Aqui Tchékhov não dá abertura para relativização do momento. Iona é humilhado verbal e fisicamente: 'Toca!' 'Corre!' 'E se eu te torcer o pescoço?' 'Não queres correr, sua peste?' 'Iona sente nas costas o corpo do corcunda.' 'Iona ouve mais do que sente as pancadas que lhe dão.'
É o homem explorado pelo homem, que explora o animal. Está aí, cruamente rasgado e exposto em ficção, mais de cem anos antes de Derrida e a publicação de seu "O animal que logo sou", o escândalo da ousadia humana que coisifica, industrializa e capitaliza não só outros seres humanos, mas também outros animais.
Poderíamos analisar essa passagem pelo viés da crítica social — afinal, Iona transportou um militar e em seguida três jovens abastados; insensíveis e inconsequentes. Entretanto, logo após deixar os rapazes em seu destino, ele tenta conversar com um zelador/porteiro e é escurraçado. Ele decide então voltar ao abrigo, vemos que as pessoas de seu nível sócio-econômico demonstram a mesma indiferença que seus passageiros de  nível social mais alto. Percebemos então que ele está diante de autômatos; sujeitos incapazes de experiência.
Segundo Jorge Larrosa Bondía, 'o sujeito da experiência se define não por sua atividade, mas por sua passividade. (...) Trata-se porém de uma passividade feita de paixão, de padecimento, de paciência, de atenção, como uma receptividade primeira, como uma disponibilidade fundamental, como uma abertura essencial.'
Não há condição para que Iona viva ou troque experiências com estas pessoas, pois não há a vontade, nem disponibilidade de olhar o outro. Iona então lembra-se de seu animal, aquele com quem teoricamente não pode se comunicar, pois não fala.
Mas o cavalo tem seu olhar, que ele não nega e não esquiva. Ao ser abordado por Iona, é o brilho de seu olho de cavalo — aquele olhar que carrega em si o olhar de todos os cavalos — que ele lhe devolve generoso.
Iona não está mais sozinho, pois está junto de um ser disposto a ouvi-lo. Ele, um sujeito da experiência; passivo e disposto, vai então descobrindo as possibilidades de comunicação com seu animal. E pouco a pouco compreende que agora terá com quem conversar. Ao sentir a respiração do cavalo, e ter sua mão acariciada, sabe que está finalmente sendo ouvido, como vemos na frase final do conto:
'Iona se comove e lhe conta tudo.'


Em 19 de agosto de 1843, Edgar Allan Poe publica no The Saturday Evening Post seu conto "O Gato Preto". Nele, um homem prestes a ser executado pelo assassinato da esposa, relata como chegou ao ponto de cometer tal crime.
Embora a maioria das análises se concentre nos temas da culpa, da violência doméstica e dos males do alcoolismo, acredito que "O Gato Preto" seja um conto que apresenta aspectos que indicam a existência de devir-animal.
É sabido que Poe tinha uma gata preta, Caterina. Em 1840, portanto três anos antes da publicação de "O Gato Preto", foi publicado um pequeno artigo no periódico Alexander's Weekly Messenger, intitulado "Instinto x Razão - Um Gato Preto". Nesse texto Poe associa o instinto à faculdade animal de desenvolver sistemas de alta complexidade (como os recifes de corais e as colmeias de abelhas), que a ciência, por sua vez, teria dificuldade de resolver ou reproduzir. Em seguida, ele descreve a astúcia com que sua gata destranca uma fechadura complicada para ter acesso ao seu local preferido na cozinha. Poe aqui relativiza os conceitos de comportamento, instinto e raciocínio dos animais e critica a soberba do ser humano ao se considerar superior às outras espécies. Poe percebe em seu gato qualidades que os humanos em geral consideram próprias deles.
Já em "O Gato Preto" acredito que o autor explora as possibilidades da experiência limite que o devir-animal propicia. Todos os conceitos, príncipios e condições para o devir-animal que menciono no restante desta fala foram baseados pelos Mil Platôs, de Gilles Deleuze e Felix Guattari.
Já no parágrafo inicial, o personagem anuncia que o relato que está prestes a narrar é selvagem, porém banal. Não pede que lhe deem crédito, porém afirma, que por mais louco que tudo possa parecer, ele não está louco e nem sonha. Em suma, o personagem anuncia que narrará acontecimentos da ordem do devir.


Tamanha é a identidade, que prefiro citar os Mil Platôs:


"Devir não é progredir nem regredir segundo uma série. E sobretudo devir não se faz na imaginação, mesmo quando a imaginação atinge o nível cósmico ou dinâmico mais elevado, como em Jung ou Bachelard. Os devires-animais não são sonhos nem fantasmas. Eles são perfeitamente reais. Mas de que realidade se trata? Pois se o devir animal não consiste em se fazer de animal ou imitá-lo, é evidente também que o homem não se torna "realmente" animal, como tampouco o animal se torna "realmente" outra coisa. O devir não produz outra coisa senão ele próprio."


O devir se dá através de uma aliança de contágio entre dois indivíduos de borda. São seres que orbitam a fronteira, o limiar de sua matilha. O feiticeiro e o anômalo operam um contágio que influenciará todo o grupo. Ao lembrar do passado, o personagem/narrador se descreve como uma criança sensível, tão doce e meiga que era até alvo da chacota das outras crianças. E relata que sempre gostou muito de estar entre os animais. Ele é diferente. Ele é o feiticeiro.
Em seguida, ele se casa com uma mulher que também gostava de animais. Nessa fase de sua vida ele ainda tem uma relação edipiana com seus animaizinhos domésticos; dando-lhes comida e acariciando. São parte da família.
Mas aí chega Plutão, o gato preto que contagia o feiticeiro. No conto, ele é de tal forma ligado ao personagem que o mesmo tem que impedir que o gato saia com ele quando vai para a rua. Plutão é o anômalo.
É importante destacar que Plutão é o outro nome de Hades: deus dos mortos e da escuridão na mitologia grega. Seria esta uma indicação de que aquele anômalo viria possibilitar ao personagem fazer contato com suas próprias profundezas?
O fato é que, depois da chegada de Plutão, ele vai aos poucos se transformando e mostrando um lado seu até então desconhecido. Passa a beber, e na embriaguez ele experimenta a perversidade; horrorizado consigo mesmo, porém incontido.
O devir-animal por ser da ordem da matilha, e não das sociedades familiais ou estatais, rompe com as estruturas e instituições estabelecidas. E é exatamente o que acontece no conto. O relacionamento conjugal do personagem se deteriora e, após arrancar um olho e enforcar Plutão numa árvore de seu jardim, ele perde todos os seus bens e tem a casa destruída num incêndio.
Sem seu anômalo, o narrador segue em busca de um substituto, e o encontra. Um gato como Plutão, só que com uma mancha branca no pescoço. Na obra, o animal se liga a ele imediatamente. Mas não só. Esse novo anômalo faz aliança com o narrador/personagem e também com sua esposa. E a história se repete. Só que agora ele acidentalmente mata sua mulher com a machadada pretendida ao gato.
Tamanha traição o anômalo não perdoa. Fiel em sua aliança, o gato se coloca junto do corpo da mulher morta, e são seus miados que entregam o local do corpo e incriminam o personagem aos policiais.
Eis aí o conto terminado. Porém, há uma ocorrência que não pode ser ignorada. Em ambas as alianças, a afinidade excessiva de Plutão e do outro gato com o personagem o irrita. Ele parece desejá-las, mas ao mesmo tempo não se sente à vontade. Qual seria a origem desse desconforto do homem em aliança com o animal? É nesse incômodo que percebemos que o animal não traz a perversidade, e sim possibilita que o homem veja com clareza, e não sem horror, o que ele tem dentro de si.
Cito aqui, pela última vez, prometo, Mil Platôs:


"Não nos tornamos animal sem um fascínio pela matilha, pela multiplicidade. Fascínio do fora? Ou a multiplicidade que nos fascina já está em relação com uma multiplicidade que habita dentro de nós?"


Plutão e seu substituto não são seres das trevas, numa acepção ocidental muito carregada do imaginário judaico-cristão. Eles são sim anômalos que têm contato com o demoníaco. Lembrando que a palavra demônio, em sua origem grega daemonion, quer dizer genial, maravilhoso, divino. Portanto, os anômalos seriam como semi-deuses, que nos permitiriam fazer contato com o desconhecido, o profundo e o escondido em nós. O devir é um convite a olhar no fora o que há dentro.  
Escolho terminar essa fala com a seguinte questão: no senso coletivo existe uma generalização do perfil do felino: gatos são traiçoeiros, não se apegam ao dono mas à casa, são aproveitadores, passam doença (todos comem carne mal passada, mas é o gato do vizinho o culpado pela sua toxoplasmose). Em suma, são seres que não amam e não se apegam como os cães, estes sim, fiéis amigos do homem. Qual seria a origem dessa aversão ao felino? Não seria justamente esse olhar selvagem e inquiridor (quem já encarou um bichano sabe do que estou falando) que nos faz olhar para dentro de nós, que nos convida a uma profunda reavaliação que nos incomoda? O que fazemos quando o reflexo no espelho não nos agrada?

Muito obrigada pela atenção de vocês nesta tarde. Espero que minhas especulações tenham lhes podido proporcionar alimento para viagens ainda mais corajosas e selvagens acerca da representação animal. "

2 comentários:

  1. Um pouco difícil para minha humilde cultura. Mas muito bom! Principalmente o fechamento. Fiquei com saudades do " meu" gato de infância. Todo manhã a vo abria a janela do quarto e ele vinha e pulava na minha cama. Acho que éramos amigos! Era uma relação tão pura. Nunca mais tive um gato. E nunca mais quis ter um animal de estimação. Acho que preciso fazer amizade com a Mipingo enquanto é tempo. Realmente a relação com os animais é muito mais complexa do que podemos imaginar. Desejo que sua relação com ELES seja cada vez mais profunda e gratificante. Te amo! Parabéns!

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    1. Fico feliz que minhas reflexões tenham te estimulado a te aproximar dos animais que estão a sua volta! Boa sorte!

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