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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Lixinhos Literários no. 2

Queridos leitores,

Cá estou eu de volta com a seção Lixinhos Literários. Hoje o post é curtinho, mas necessário para mim. Para pôr (bons) sentimentos para fora. Portanto, hoje não vai ter mimimi. Abraço forte a todos e boa leitura. 


Claricexpectorando

Veio assim sem porquê, aquele estado moroso, que estagna e faz virem suspiros. De uma moleza triste e etérea, ainda que tão presente. Então fiquei lá, suspirando, enchendo a alma com cada um dos meus suspiros. Bateu-me em seguida uma vontade muito grande de me aninhar no peito de minha mãe. Repousar a cabeça ali e ficar enchendo meu peito de alento. E uma vontade de comer a comida da minha mãe, ainda que não soubesse qual.
Perguntou-me a sogra, se não me serviriam seu peito e sua comida. Sorri, agradeci, mas não respondi. Um suspiro me disse que não. E eu quis saber por quê. O suspiro me disse.
Me disse que se peito e comida de sogra servissem, serviriam de igual forma peito e comida de marido, de irmã, de amigo, de vizinha, de pai, de vó, de restaurante. Me disse que só serviriam peito e comida de mãe.
Pensei então que talvez não fosse peito nem comida nem mãe em si. Talvez fosse só um lugar. Um lugar que me lembrasse onde estive antes de eu saber onde estava. Pois uma vez houve esse lugar, onde estive antes de ser eu e depois fui eu, mas lá continuei para terminar de ser eu, embora eu já fosse eu, mas não soubesse.
Existem essas coisas que a gente não sabe, mas que um eu nosso desconhecido sabe. E às vezes ele suspira, pedindo de volta aquele lugar desconhecido nosso, ainda que para ele seja tão conhecido.
E nosso eu desconhecido se manifesta assim. Num suspiro que nos diz que queremos peito e comida de mãe. Quando na verdade não é nossa mãe que queremos. Queremos um lugar, um abrigo, uma fuga, uma parada, para ficarmos escondidos, para nos restaurar. Para esse suspiro só tenho um nome: vontade de útero.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Reflexões Animais

Queridos amigos,

Dias 01 e 02 de outubro aconteceu, na UERJ, o I Seminário sobre Representação Animal na Literatura. Foram dois dias intensos, com muitas palestras interessantes.
Hoje, 07 de outubro, faz 166 anos que Edgar Allan Poe faleceu. Em homenagem a ele, reproduzo aqui minha fala:, proferida durante o seminário: Ternura e Terror, dois momentos da representação animal no conto, onde analiso uma obra sua: O Gato Preto.


Helena e o poder do olhar animal
"Boa tarde a todos. Antes de começar, gostaria de agradecer a oportunidade de estar aqui hoje e poder compartilhar um pouco das minhas reflexões animais.
A fala de hoje, dedico à gata Lila, falecida dia treze último. Lila não fazia parte do meu bando, mas conheci seu olhar sobre mim. E não há nada mais sublime e arrebatador do que o olhar de um animal sobre nós. Quem tem a coragem de encarar o olho animal faz contato não só com o selvagem, com o primordial; com o inicial e o iniciático, mas também com o mágico, o indizível e o incompreensível em si e no outro. Mas não só. O olho animal nos coloca diante das questões ontológicas. Não se trata mais do "eu" e do "outro", e sim do mundo. Quem olha o olho animal, se põe em contato com a essência do mundo.
Mas, ainda assim, tudo depende de quem vê. Colocar-se assim à mercê, se dar a conhecer ao outro, pode ser das experiências mais reconfortantes ou das mais desestruturadoras, como veremos nos dois contos a seguir.