Páginas

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Lixinhos literários

Amigo Leitor,

Inauguro hoje uma seção nova aqui do blog. Vai se chamar "Lixinhos Literários". Sabe aquelas coisas que você quer dizer mas não pode? Ou que deu vontade de escrever porque você acha legal? Mas só para extravasar? Só pelo prazer de escrever, de fruir em texto um pensamento? É isso aí, um texto vertido sem muita reflexão, só pelo prazer de escrever. Se gostarem, tanto melhor. Mas saibam que não tive o menor compromisso em fazer algo de qualidade ou sublime. O que está aí estava na cabeça e no sangue e tinha que sair. Pronto, é isso!

Grande abraço e boa sorte aos que se aventurarem na leitura!

O Parto do Chá de Bebê

Cheguei à conclusão que sou insensível. No mínimo. Já flertei até com a possibilidade de talvez ser psico ou sociopata (sempre esqueço a diferença). Mas tenho dó até de mosca, então acho que insensível e indiferente está de bom tamanho. E eu já me conformei com isso. Não estou muito preocupada em ser e nem em parecer boazinha. Só tento não magoar ninguém deixando claro que não estou nem aí. Permaneço neutra. Aquele lance zen da sabedoria do Tao: ficar só ouvindo e fazer o ouvido de espelho ao invés de penico. Refletir sem falar nada, a não ser que tenha absoluta certeza da realidade do que vai falar, porque falar tudo o que pensa sem prévia análise dispersa energia. Pois então, fico calada para não ter que explicar por que não estou nem aí.
Mas lembrem-se, eu sou insensível. E alguns acreditam que sou fria e egoísta. Afinal, uma mulher que não quer ter filhos só pode ser fria e egoísta.
Não importa que eu cuide muitíssimo bem dos meus três gatos e que todas as crianças com as quais convivo me queiram por perto; uma mulher jovem, saudável e bem casada que não quer ter filhos é seca e fria por dentro. Se você não quer ter fraldas para trocar ou choro e manha para aturar, você não é capaz de amar.
Como não tenho paciência nem acredito haver grandiosidade em algumas atitudes humanas e, acima de tudo (lembrem-se sempre) porque sou insensível, não fiquei de grandes torcidas quando o casal amigo entrou na "corrida da reprodução". Aliás, deve ser alguma coisa na água que a gente toma hoje em dia. Quando eu era pequena as pessoas casavam e depois de algum tempo a mulher ficava grávida. E depois de novo. Só me lembro de um casal que não tinha filhos porque não podia. O resto tinha sem maiores dificuldades.
Mas voltando ao casal amigo. Caguei e andei quando soube que entraram no que eu chamo de "corrida da reprodução": tratamentos, injeções de hormônios, hora certa para transar e sabe-se lá deus mais o quê. Sou insensível e não consigo imaginar por que uma pessoa entra em guerra contra o próprio corpo para se reproduzir. Só conseguia ter pena da moça, que virou uma bola de tão gorda com a cara cheia de espinhas, depois das bombas hormonais. Sério, eu devo ser muito insensível porque eu não consigo conceber uma pessoa violentar tanto o próprio corpo e arriscar a saúde (tanto hormônio não pode ser algo benéfico e seguro) para se reproduzir. Mas… cada um faz o que quer consigo mesmo.
Bem, há cerca de um mês o esposo amigo comunicou a todos via mensagem de texto que a esposa amiga estava grávida e os tais três meses de risco haviam passado. Pensei: bom para eles, fim do sofrimento, que já durava uns bons três anos.  
Mesmo com toda a minha insensibilidade, eu já tinha aprendido que as pessoas querem compartilhar com amigos e parentes esse momento tão íntimo e pessoal. E, com tanta gente tendo filho ao meu redor, eu já tinha me anestesiado para certos comportamentos: a importância que o azul ou rosa assumem de uma hora para outra, as lembrancinhas que só as avós e tias não jogam fora, os futuros pais contando semanas e não meses, se enchendo de fraldas, roupinhas e apetrechos provavelmente inúteis, mas que lhes dão uma sensação de confiança, fazem-nos sentir mais capazes de enfrentar a responsabilidade de educar um outro ser humano, o qual nascerá das suas vontades, sem nenhuma opção a não ser ir parar naquela família.
Bem, já tinha me acostumado à toda aquela chateação entre amigos e conhecidos, só lamentando não ter mais amigos casando. Festa de casamento tem pista de dança, roupas glamorosas e… open bar (ao menos os bons casamentos têm birita boa à vontade). Chá de bebê geralmente acontece num sábado ou domingo à tarde, quando você provavelmente estaria sem fazer nada, mas só porque teve de comparecer começa a pensar em tudo que poderia estar fazendo de melhor àquela hora além de (ser obrigada a) participar de brincadeiras ridículas, empurrar goela abaixo uns salgadinhos ou um bolo salgado bem mais ou menos com refrigerante, água ou suco (lembrem-se, grávida não pode beber) e tentar se ajeitar numa cadeira de plástico pensa. O lado bom é que como homem não está nem aí para essas coisas e muitas vezes não é nem convidado, eu tenho conseguido passar longe desses eventos de gosto gastronômico e intenções duvidosas. Dou uma desculpa qualquer (não tinha como chegar, tinha trabalho por terminar, etc ) e não vou.
Só que dessa vez brincaram com minha insensibilidade. Me senti coagida. E estou decidida a revidar. Lógico que terei de usar de táticas indiretas de resistência, mas não vou deixar passar batido. Lembrem-se eu sou insensível. E posso ser deliciosamente cruel.
Pois é. Era uma linda tarde de sexta e eu chegava de um dia de trabalho calmo, quando fui interpelada pelo porteiro com um pacote. Estranhei. E continuei a estranhar ainda mais. A caixa parecia estar vazia e tinha uma etiqueta de sedex. Olhei o remetente. O esposo amigo. Puta merda, não podia ser! Lembram do casal amigo que vai ter um bebê? Enviaram um convite para chá de bebê — que era um berço de papel articulado (3D) do tamanho de uma caixa de fósforos, por isso a necessidade de uma caixa de uns dois palmos e não um envelope — por sedex, de um endereço ao qual posso chegar em cinco minutos de carro. Será que já ouviram falar em "deixar na portaria", "criar evento no facebook", telefone, email, Whatsapp, SMS? A porra do convite bercinho eu pego depois se você fizer muita questão. Pronto, estava ativado meu modo "chocada", "ultrajada", "passada", "estupefata", sei lá. E quando eu me sinto assim, qualquer coisa irritante é o fim. Não relevo. Não deixo passar mesmo.
Sabe aquele negócio de ter a audácia de pedir para os convidados levarem fralda, hipoglós e o caralho? Oras, sempre me senti mal com isso. Primeiro que acho fralda descartável muito poluente. E depois, qual a graça de levar um presente para alguém se você não pode nem escolher cor, tamanho, nada? Parece obrigação e não agrado. Até para isso já estava me anestesiando. Mas aí a etiquetinha muito bem digitada num dos lados do bercinho dizendo "Levar: 1 pacote de fraldas Pampers P e 1 sabonete líquido Granado" me levou sim foi à loucura. Vocês vão ter um filho e isso não é problema meu!!! Ahhhhh! Pior é que desse chá não tenho como me livrar. O tal esposo amigo é amigão do meu marido e ele vai querer ir.
Lembrem-se, sou insensível, mas pratico a sabedoria do Tao. Sendo assim refleti e depois de alguns dias escrevi educadamente ao esposo amigo "agradecendo" a atenção, mas que não precisava tanto incômodo. Teríamos ido buscar pessoalmente o convite. Sabe qual a resposta? Estariam fora da cidade nos próximos dias e não queriam deixar para a última hora, com medo que fizéssemos outros planos, avisando com antecedência poderíamos reservar a data. Como assim? Até ontem eu achava que podia receber convites e decliná-los. Com uma desculpa, é lógico, mas eu tinha essa opção. Acabava de descobrir que eu recebi uma intimação, não um convite para um evento.
Como sou insensível, começo a questionar o quanto esse casal acha que quer ter um filho mas talvez o faça, mesmo sem saber, por cobrança da família ou da sociedade. Quando e como uma decisão que deveria ser somente de duas pessoas passa a ser ato público, com necessidade de platéia, apresentação e aplausos? Um troço super íntimo, ter um filho, vira terreno de todo mundo e mais um pouco. Coisa horrível.
E por causa dessa moda vou acabar tendo que passar uma tarde da minha vida num play de prédio decorado com papel crepon e celofane, me socializar com uma porção de gente que não conheço (a família da futura mamãe) e uma outra porção que conheço pouco (a família do futuro papai), sorrir, dizer que estou feliz por eles (mentira! estou cagando se eles vão ter um neto, isso muda nada vezes coisa alguma a minha vida) e ficar pensando em como adoraria não ter o que fazer naquela tarde de domingo.
Mas eu sou muito insensível e, portanto, depois dessa intimação eu vou praticar um ato pacífico de resistência. Vou sorrir, dizer e perguntar somente o que os anfitriões querem ouvir, refletir (do jeitinho que manda o Tao), enfim vou somente agradar. Mas isso é o que eles pensam. Estão pensando o quê? Vou resistir bravamente. Não vai ter fraldas Pampers P coisa nenhuma. Ou é Huggies Turma da Mônica P ou Pampers M. As duas coisas não dá. E o sabonete líquido Granado vai virar um Hipoglós ou um saco de bolas de algodão ou um belo macacão ou qualquer outra coisa não exigida. Esse prazer eu quero ter. Vou me deleitar em foder com uma lista bem feita, com planos bem engendrados para ficar tudo bonitinho, conveniente e no lugar. Levar um pouco de loucura a tanta organização.
Afinal, sou insensível. E é isso que os insensíveis fazem. E lembrem-se bem disso ao me convidar para um chá de bebê.


2 comentários:

  1. Não se preocupe, que lixo literário não existe! Toda a Literatura tem valor porque, sendo o escritor um ser social, o que ele escreve, necessariamente, espelha alguma esfera da vida social ou privada. Pode ser uma espiritualidade fuleca como o Paulo Coelho ou uma escrita policial revelando as questões sócio-culturais intrínsecas à sociedade, como os livros do Rubem Fonseca - toda a escrita revela algo e tem algum valor!

    E seu conto está bom, sim, revela questões do Ser na era das comunicações massivas ou os não-lugares dos arquétipos femininos em uma mundo regido pela mercantilização da vida. Ou o que mais couber, por hora eu me ative a esses elementos.

    Não lixifique-se não! Escreves bem!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Lucas. Obrigada pelo estímulo! Entretanto, não usei o termo lixo com sentido tão forte, só para expressar algo sem muita lapidação, sem aquele compromisso em fazer um melhor. Um exercício somente. Mas fico feliz que tenha gostado! Seguimos firmes! Abraço da Bel.

      Excluir

Poste aqui sua mensagem. Linguagem obscena ou agressiva não será tolerada.