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quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Ostra ou pérola?


Na primeira memória vívida que tenho da minha infância eu estou em Ubatuba, onde minha família passava as férias de verão, numa feirinha de artesanato e bijuterias perto da praia. Eu tinha quatro anos e buscava avidamente por um conjunto de colar, brinco e pulseira de pérolas. Falsas, é lógico. Lembro bem de um camelô muito falastrão levantando um maço de pulseirinhas na minha direção. 'Você quer pérolas? Olha quantas! Tem de montão!' Meu coração se iluminou com aquela visão; pérolas às pencas. Algumas semanas depois, no fim de fevereiro, eu assoprava minhas cinco velinhas, ostentando alegrinha minhas jóias.


Desde então, meu fascínio por essas bolinhas cintilantes manteve-se vivo. Uma vez fiz um conjunto com as pérolas viúvas da família. Um brinquinho da minha primeira infância (esse sim, verdadeiro) virou um pingente e um outro que foi da vó Rosa virou um anel. Faltava o brinco, e esse tinha que ser um par. Peguei da mamãe os brincos que foram da tia Leda. No meu aniversário de treze anos ganhei um outro par, estrelas com brilhante encrustado e um pérola cravada abaixo.

Depois o Marquinhos, conhecendo meu gosto, ao longo do nosso namoro e casamento sempre me presenteou com pérolas. E nesse Natal com um colar todinho delas. Me senti a pessoa mais completa do mundo; naquele momento não me faltava mais nada. Agora eu podia morrer, já tinha um colar de pérolas. Mas essa satisfação tão extrema me deixou encafifada. Afinal, de onde vinha essa minha quase obsessão por aquelas filhas das águas?

A explicação poderia estar nos astros, sou pisciana. Não me convenci. Devia haver outro motivo. Me encanta que um dia tenham sido tão raras e absurdamente valiosas. Conta-se que um general romano conseguiu financiar seu exército vendendo apenas um par de brincos de pérola de sua mãe. E depois veio Chanel, com suas voltas e mais voltas e princesas e rainhas pelo mundo e história afora, envoltas em suas pérolas. Mas ainda não era isso, tinha algo mais fundo.

Ah, sim. Pérolas são matéria orgânica. Ou seja, estão vivas. E diferente de um brilhante, independente e soberbo em sua magnificência, a pérola é delicada e exigente. Demanda cuidado e muito carinho, um banho em água salgada de vez em quando; não tolera química de qualquer espécie. Senão vai perdendo o brilho e, opaca de vez, morre. Aí estava uma razão. Diferente de metais e pedras preciosas, tão frios e indiferentes, com minhas pérolas não me sinto sozinha. São amigas que me ajudam a escrever minha vida. E que precisam também da minha presença e zelo para continuar brilhando. Mas, ainda há mais.

A pérola é a grande metáfora da vida. Elas são a defesa das ostras que, uma vez invadidas por corpos estranhos, secretam um nácar que envolve o inimigo. Uma pérola perfeita é o sucesso total do molusco, que conseguiu sufocar o inimigo, aniquilando-o por completo. Por trás da beleza frágil e inocente de uma pérola, existe uma história de luta e sobrevivência; ela é a cicatriz da vitória.



Agora compreendo minha reverência e amor às pérolas. Elas são um exemplo do que quero ser. Uma pérola? Não. Uma ostra! Eu quero ser é ostra. Forte e confiante, pronta para extrair de cada dificuldade uma couraça linda, alva e brilhante e entregar de volta ao medo e à escuridão uma chuva de pérolas das mais lindas e raras. Que 2015 nos traga pérolas, muitas pérolas!

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