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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Um filme para Charlie

Um filme para refletir Charlie Hebdo



Nesta quarta-feira, dia 07, os olhos da mídia se voltaram para Paris, depois do ataque que vitimou doze profissionais do periódico Charlie Hebdo. Prato cheio para a extrema direita, e talvez até mesmo para o europeu médio em geral, já bastante cansado dos 'não-me-toques' do comportamento muçulmano que acabam por permear sua rotina de vida social. Aquela sensação de que tem gente querendo 'cantar de galo no seu galinheiro'.
Mas eu não estou aqui para dar opinião. Tenho pouquíssimo conhecimento político e social sobre esse assunto para ficar metendo o bedelho. Hoje venho sugerir uma obra forte, do cineasta Bruno Dumont, que, tendo vista o desenrolar dos acontecimentos, não poderia ser mais oportuna e atual: O Pecado de Hadewijch, de 2009.


Céline (Julie Sokolowsky) é uma noviça que recebe dispensa do convento por não obedecer a regra e suas superioras. De volta à casa, em Paris, a jovem se vê sozinha;
numa família que a cerca de apoio financeiro, mas a priva de uma convivência amorosa e presente. Lutando para se adaptar à vida secular, ela conhece Yassine (Yassine Salime), um rapaz muçulmano que intermedia sua inserção em um grupo islâmico extremista. Em paralelo, acompanhamos — mais superficialmente, é verdade — a trajetória de vida de David (David Dewaele), um ex-presidiário de um meio humilde que aos poucos se reinsere na sociedade. Por fim, vemos como duas vidas aparentemente tão distantes serão tão importantes uma para a outra e terão muito a nos dizer.


Dumont conduz com naturalidade e maestria um tema delicadíssimo. Diferente das produções hollywoodianas, nas quais normalmente está presente um maniqueísmo contundente, sempre focando nos atos terroristas em si (afinal, um blockbuster de ação necessita de muita violência), Dumont mostra inteligência e maturidade ao fazer do ser humano o centro de sua história. Desse modo, a platéia é levada a refletir sobre a origem dos fanatismos, a dualidade inerente à psique humana e como ela pode afetar o comportamento do indivíduo e influenciar toda a sociedade.
Um filme denso e político, porém extremamente humano e sem a afetação ou a armadilha do discurso panfletário tão fácil de se cair, numa obra com essa temática. Vale a pena!  

Nota: Às famílias das vítimas do ataque, minhas condolências. À União Européia, minha esperança de que possam lidar com o cenário social que aos poucos se desenha, com lucidez, calma e seriedade. Que os ânimos não se acirrem e que a Comunidade não se deixe vencer pela ilusão da exclusão, da segregação e da generalização.   

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