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domingo, 11 de janeiro de 2015

A criatividade e o inconsciente

Por Que Você Pensa Melhor No Chuveiro: Criatividade e o "Período de Incubação"

Por Josh Jones, para o blog Open Culture, 30 de dezembro de 2014

Tradução: Nicole A. Marcelo
arch bath


"O grande Tao definha."
Assim começa uma tradução do 18º capítulo do Tao Te Ching. A frase captura a frustração que acompanha uma epifania perdida. Seja uma compreensão profunda quando acaba de acordar, ou um momento de clareza no chuveiro, quando as engrenagens de sua mente começam a se movimentar e você tateia atrás de caneta e papel, a inspiração evaporou, substituída por um atordoado e atrapalhado "O que foi isso mesmo?"
"A inteligência surge. Aí há grande engano."
Os bruscos lampejos de introspecção que temos em estados de distração meditativa — ao tomar uma ducha, tirar o matinho do jardim, dirigir do trabalho para casa —  iludem nosso consciente com tanta freqüência justamente porque requerem esse desligamento.
Quando estamos muito ativamente conectados ao pensamento consciente — exercitando nossa inteligência, por assim dizer — nossa criatividade e inspiração sofrem. "O grande Tao definha."
As revelações intuitivas que temos enquanto tomamos banho ou realizamos outras atividades descontraídas são o que os psicólogos chamam de "incubação". O blog Mental Floss descreve o fenômeno da seguinte forma: "Essas atividades rotineiras não requerem muita atenção, então você ativa o piloto automático. Isso libera seu inconsciente para trabalhar com outras coisas. Sua mente sai vagando, e dá carta branca ao seu cérebro para jogar um jogo silencioso de livre associação."  
Estaremos sempre fadados a perder o "fio da meada" quando adquirimos consciência do que estávamos fazendo? De forma alguma. Na verdade, alguns pesquisadores, como Allen Braun e Siyuan Liu, observaram a incubação agindo em indivíduos muito envolvidos com a criatividade, como rappers de improviso. A habilidade que possuem deve ser aprimorada e praticada à exaustão, mas ainda assim dependem da inspiração do momento.  
A renomada neurocientista Alice Flaherty sustenta a teoria de que o ingrediente biológico chave na incubação é a dopamina, o neurotransmissor liberado quando estamos relaxados e confortáveis. "Os níveis de estímulo criativo variam de pessoa para pessoa", escreve Flaherty, "de acordo com a atividade dos caminhos da dopamina no sistema límbico." Mais relaxamento, mais dopamina. Mais dopamina, mais criatividade.  
Outros pesquisadores, como Ut Na Sio e Thomas C. Ormerod, da Universidade de Lancaster, empreenderam análises de natureza mais qualitativa — de "relatos pessoais dos processos de descoberta intelectual de indivíduos tidos como gênios." Aqui podemos pensar em Samuel Taylor Coleridge, cujo poema Kublai Khan — uma visão num sonho — ele supostamente escreveu em meio a uma revelação espontânea (ou sob influência do ópio) — antes da inconveniente "pessoa de Porlock"* quebrar o feitiço.
Sio e Ormerod pesquisam a literatura existente sobre "períodos de incubação", na esperança de que "eles possam ser utilizados com eficácia para estimular a criatividade em setores como a solução de problemas pessoais, o aprendizado em sala de aula e em ambientes de trabalho." Sua densa pesquisa sugere que podemos exercitar um certo nível de controle sobre a incubação, através do desenvolvimento de trabalho inconsciente em nossas rotinas. Mas por que isso é necessário?
O psicólogo John Kounios, da Universidade Drexel, dá uma explicação objetiva sobre os processos do inconsciente, aos quais ele se refere como "o modo de rede padrão." Nick Stockton, no blog Wired, resume a teoria de Kounios:
Nossos cérebros normalmente catalogam as coisas por seus contextos: Janelas são partes de edifícios, e as estrelas pertencem ao céu à noite. As idéias sempre vão se misturar até certo ponto, mas quando estamos focados numa tarefa específica nosso pensamento tende a ser linear.
O ato de tomar uma ducha — ou se banhar, no caso de Arquimedes (acima) — dá um tempo à mente, a deixa mesclar as coisas e fazer justaposições improváveis e aleatórias as quais são a base essencial da criatividade. Fico tentado a pensar que Wallace Stevens* passasse uma boa parte do tempo no chuveiro. Ou talvez, como Stockton, mantivesse um "Diário de Privada"  (exatamente o que parece ser).
Exemplos famosos à parte, o que todas essas pesquisas sugerem é que o pico de criatividade acontece quando estamos agradavelmente distraídos. Ou, como o psicólogo Allen Braun escreve, "Acreditamos que o que vemos é um relaxamento das "funções executivas" a fim de permitir uma atenção mais natural e menos específica, e a ocorrência de processos isentos de censura, que podem ser a marca maior da criatividade."
Nada disso quer dizer que será possível capturar aquelas idéias brilhantes antes que elas desvaneçam. Não há um método garantido que envolva a utilização da distração criativa. Mas como Leo Widrich escreve no blog Buffer, há alguns truques que podem ajudar. Para aumentar sua vazão criativa e maximizar as percepções em períodos de incubação, ele recomenda que você:
  1. "Mantenha um caderno a seu lado o tempo todo, até no chuveiro." (Widrich indica um tablet à prova d'água para esse fim) ;
  2. "Planeje momentos de descontração e distração." Widrich chama isso de "a técnica de fora para dentro". John Cleese prega uma outra versão de inspiração planejada;
  3. "Sobrecarregue seu cérebro: faça a tarefa ser bem difícil." Isso parece ser contra-intuitivo — o oposto do relaxamento. Mas como Widrich explica, quando você força seu cérebro com problemas realmente difíceis, os outros parecem muito mais fáceis quando comparados.


Pode parecer muito trabalhoso colocar sua mente para relaxar, produzir mais dopamina e ficar diferente, circular, e inspirada. Mas o esforço reside em fazer uma utilização eficiente do que já está no seu inconsciente. Mais do que buscar às cegas por aquela faísca de brilhantismo que você teve um minuto atrás, você pode aprender, escreve o blog Mental Floss, a "se importar nas tarefas desimportantes".


* Uma visita vinda de Porlock, vilarejo da região de Somerset, na Inglaterra, a quem  Coleridge atribui o motivo da saída do "transe" em que se encontrava.
* Wallace Stevens foi um poeta modernista norte-americano, Prêmio Pulitzer de Poesia em 1955.
Artigos mencionados:

Um comentário:

  1. Adorei! O texto é ótimo e o que dizer de uma tradução de quem tem o inglês da Nicole? Perfeito!

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