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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Experiência e riqueza

Hoje aconteceu um desses momentos que surpreendem a gente. Fui conversar com minha prima Denise, pois vou utilizar as publicações de sua página "Dê e Bruce" em uma monografia sobre os livros do bebê e a subjetivação da gestante. Mas aí, ao ver o desenrolar da conversa, percebi que eu tinha ali um depoimento muito forte, importante e necessário de ser divulgado por aí. Era muito mais do que gravidez, tinha a ver com muita coisa da vida. Era tanto para mim, que não quero ter filhos, como para todas as mulheres (e para os homens, também!) que querem ser pessoas melhores.
Fora que nosso papo dialogou com Benjamin e seu narrador da experiência, com vários dos devires de Deleuze e Guattari, o imaginário (o devaneio de Bachelard?), o exercício da escrita de si de Foucault ... fora que teve Beauvoir, feminismo, matriarcado... putz, foi um conversão! Não tinha como não compartilhar aos quatro ventos. Então segue aí, o relato de Denise Almeida sobre seu processo de subjetivação pré-concepção, de gravidez e, o estabelecimento do relacionamento com a super simpática Surya!

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Lixinhos Literários no. 3

Queridos leitores,

E a lixeira vai aumentando. Estou botando tudo para fora para valer. Para quem se aventurar a continuar... o entulhinho mental de hoje tem a ver com sonhos, mas com sonhos reais. Os que a gente consegue pegar com a mão e apertar, espremer, esfregar, etc. Você já teve um sonho assim? Então este texto é sobre você também, afinal você é um dos...


VERDADORES SONHADEIROS

Tela de Marc Chagall

Às minhas duas primas: Carolina e Denise. E aos dois melhores amigos: Babi e Edu.

Dizem que os poetas, os artistas, os pensadores são sonhadores, loucos, ousados. Que são aqueles que subvertem.
Pois sim, os artistas, os poetas, os inventores, escritores, filósofos são aqueles que  estão tentando, cada qual a seu modo, entender sobre si próprios, o mundo e agir sobre ambos.
Mas eu digo mais. Digo que os que escolhem ter filhos são os verdadeiros sonhadores. Pois ainda que gerar seja do instinto de todo vivente; ainda que reproduzir seja de fácil e inconsequente acontecer, há os que o fazem por intenção. Contra todos os prognósticos de sobrevivência, contra todas as possibilidades de sofrimento e catástrofe iminentes, ainda assim escolhem gerar descendência.
Talvez seja egoísmo, ingenuidade, egocentrismo, irresponsabilidade ou pura ignorância. Eu prefiro chamar de fé. E de quê são feitos os verdadeiros sonhos se não de fé? De fé e entrega. Um entregar-se humilde e franco ao desconhecido. Um assumir que na verdade só fingimos saber do futuro, só conjecturamos e, no fim das contas, não há como se ter certeza de absolutamente nada. A natureza pode nos surpreender tanto pelo abismo quanto pela redenção. A realidade é que vivemos sempre por um fio. A qualquer segundo pode um pó de estrelas nos engolir sem que nem tenhamos tempo de dar conta.
Ah vocês que ousam sonhar de verdade. Que ousam apostar na renovação. Como vos admiro. Pois cada novidade que chega na casa dos que sonham, desnuda minha descrença e ceticismo; minha incapacidade de acreditar que o mundo pode ser diferente.
Para estes corajosos, bravos que têm a audácia de sonhar. Espero que estejam certos. Que o impensável venha nos surpreender com indizíveis alegrias. E desejo que, conscientes de que são portadores da novidade, dos sonhos verdadeiros, sejam capazes de ser Verdadores Sonhadeiros.
Sim! Que sejam capazes de olhar diferente, de apostar, de inverter. Que tenham a audácia de botar tudo do avesso e, mais do que levar realidades para dentro dos novos, saibam extrair os sonhos que os novos vêm trazer para o nosso mundo.







quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Lixinhos Literários no. 2

Queridos leitores,

Cá estou eu de volta com a seção Lixinhos Literários. Hoje o post é curtinho, mas necessário para mim. Para pôr (bons) sentimentos para fora. Portanto, hoje não vai ter mimimi. Abraço forte a todos e boa leitura. 


Claricexpectorando

Veio assim sem porquê, aquele estado moroso, que estagna e faz virem suspiros. De uma moleza triste e etérea, ainda que tão presente. Então fiquei lá, suspirando, enchendo a alma com cada um dos meus suspiros. Bateu-me em seguida uma vontade muito grande de me aninhar no peito de minha mãe. Repousar a cabeça ali e ficar enchendo meu peito de alento. E uma vontade de comer a comida da minha mãe, ainda que não soubesse qual.
Perguntou-me a sogra, se não me serviriam seu peito e sua comida. Sorri, agradeci, mas não respondi. Um suspiro me disse que não. E eu quis saber por quê. O suspiro me disse.
Me disse que se peito e comida de sogra servissem, serviriam de igual forma peito e comida de marido, de irmã, de amigo, de vizinha, de pai, de vó, de restaurante. Me disse que só serviriam peito e comida de mãe.
Pensei então que talvez não fosse peito nem comida nem mãe em si. Talvez fosse só um lugar. Um lugar que me lembrasse onde estive antes de eu saber onde estava. Pois uma vez houve esse lugar, onde estive antes de ser eu e depois fui eu, mas lá continuei para terminar de ser eu, embora eu já fosse eu, mas não soubesse.
Existem essas coisas que a gente não sabe, mas que um eu nosso desconhecido sabe. E às vezes ele suspira, pedindo de volta aquele lugar desconhecido nosso, ainda que para ele seja tão conhecido.
E nosso eu desconhecido se manifesta assim. Num suspiro que nos diz que queremos peito e comida de mãe. Quando na verdade não é nossa mãe que queremos. Queremos um lugar, um abrigo, uma fuga, uma parada, para ficarmos escondidos, para nos restaurar. Para esse suspiro só tenho um nome: vontade de útero.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Reflexões Animais

Queridos amigos,

Dias 01 e 02 de outubro aconteceu, na UERJ, o I Seminário sobre Representação Animal na Literatura. Foram dois dias intensos, com muitas palestras interessantes.
Hoje, 07 de outubro, faz 166 anos que Edgar Allan Poe faleceu. Em homenagem a ele, reproduzo aqui minha fala:, proferida durante o seminário: Ternura e Terror, dois momentos da representação animal no conto, onde analiso uma obra sua: O Gato Preto.


Helena e o poder do olhar animal
"Boa tarde a todos. Antes de começar, gostaria de agradecer a oportunidade de estar aqui hoje e poder compartilhar um pouco das minhas reflexões animais.
A fala de hoje, dedico à gata Lila, falecida dia treze último. Lila não fazia parte do meu bando, mas conheci seu olhar sobre mim. E não há nada mais sublime e arrebatador do que o olhar de um animal sobre nós. Quem tem a coragem de encarar o olho animal faz contato não só com o selvagem, com o primordial; com o inicial e o iniciático, mas também com o mágico, o indizível e o incompreensível em si e no outro. Mas não só. O olho animal nos coloca diante das questões ontológicas. Não se trata mais do "eu" e do "outro", e sim do mundo. Quem olha o olho animal, se põe em contato com a essência do mundo.
Mas, ainda assim, tudo depende de quem vê. Colocar-se assim à mercê, se dar a conhecer ao outro, pode ser das experiências mais reconfortantes ou das mais desestruturadoras, como veremos nos dois contos a seguir.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Lixinhos literários

Amigo Leitor,

Inauguro hoje uma seção nova aqui do blog. Vai se chamar "Lixinhos Literários". Sabe aquelas coisas que você quer dizer mas não pode? Ou que deu vontade de escrever porque você acha legal? Mas só para extravasar? Só pelo prazer de escrever, de fruir em texto um pensamento? É isso aí, um texto vertido sem muita reflexão, só pelo prazer de escrever. Se gostarem, tanto melhor. Mas saibam que não tive o menor compromisso em fazer algo de qualidade ou sublime. O que está aí estava na cabeça e no sangue e tinha que sair. Pronto, é isso!

Grande abraço e boa sorte aos que se aventurarem na leitura!

O Parto do Chá de Bebê

Cheguei à conclusão que sou insensível. No mínimo. Já flertei até com a possibilidade de talvez ser psico ou sociopata (sempre esqueço a diferença). Mas tenho dó até de mosca, então acho que insensível e indiferente está de bom tamanho. E eu já me conformei com isso. Não estou muito preocupada em ser e nem em parecer boazinha. Só tento não magoar ninguém deixando claro que não estou nem aí. Permaneço neutra. Aquele lance zen da sabedoria do Tao: ficar só ouvindo e fazer o ouvido de espelho ao invés de penico. Refletir sem falar nada, a não ser que tenha absoluta certeza da realidade do que vai falar, porque falar tudo o que pensa sem prévia análise dispersa energia. Pois então, fico calada para não ter que explicar por que não estou nem aí.
Mas lembrem-se, eu sou insensível. E alguns acreditam que sou fria e egoísta. Afinal, uma mulher que não quer ter filhos só pode ser fria e egoísta.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Moça, você não é safadinha...

...é só mal comida mesmo!




Ok, brincadeiras à parte, vamos conversar um pouquinho sobre o famigerado "50 tons", seu enredo NADA sadomasô e os motivos que levaram essa horda de mulheres às livrarias, e agora aos cinemas.
No final de 2012, escrevi para a revista V!sh, de Sorocaba-SP, uma resenha da trilogia de Anastasia e Christian Grey. Para quem quiser conferir, clique aqui. De lá para cá mantenho a mesma opinião. O livro é muito ruim, como uma grande parte dos best-sellers por aí. Muita história, mas qualidade e criatividade de texto lá no chinelo. Ao ler, me lembrei um pouco da trilogia Millenium, do sueco Stieg Larsson. Mas Larsson ainda goza Uiii! de prerrogativas. Apesar de cair na pobreza de texto e originalidade em vários momentos (o que pode ser problema também da tradução, feita em português a partir da versão francesa e não do original sueco) Larsson tem uma história corajosa, diferente e cheia da força típica do jornalismo de denúncia; ideológica. Ele não se priva de nenhum tema em consideração aos seus leitores. Pelo contrário, a intenção é exatamente essa: expor uma situação, chocar, impressionar.
Mas eu não vim aqui para falar de Millenium, e sim do livrinho e filminho "quente" que está ensandecendo as vaginas Brasil afora.

domingo, 11 de janeiro de 2015

A criatividade e o inconsciente

Por Que Você Pensa Melhor No Chuveiro: Criatividade e o "Período de Incubação"

Por Josh Jones, para o blog Open Culture, 30 de dezembro de 2014

Tradução: Nicole A. Marcelo
arch bath


"O grande Tao definha."
Assim começa uma tradução do 18º capítulo do Tao Te Ching. A frase captura a frustração que acompanha uma epifania perdida. Seja uma compreensão profunda quando acaba de acordar, ou um momento de clareza no chuveiro, quando as engrenagens de sua mente começam a se movimentar e você tateia atrás de caneta e papel, a inspiração evaporou, substituída por um atordoado e atrapalhado "O que foi isso mesmo?"
"A inteligência surge. Aí há grande engano."
Os bruscos lampejos de introspecção que temos em estados de distração meditativa — ao tomar uma ducha, tirar o matinho do jardim, dirigir do trabalho para casa —  iludem nosso consciente com tanta freqüência justamente porque requerem esse desligamento.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Um filme para Charlie

Um filme para refletir Charlie Hebdo



Nesta quarta-feira, dia 07, os olhos da mídia se voltaram para Paris, depois do ataque que vitimou doze profissionais do periódico Charlie Hebdo. Prato cheio para a extrema direita, e talvez até mesmo para o europeu médio em geral, já bastante cansado dos 'não-me-toques' do comportamento muçulmano que acabam por permear sua rotina de vida social. Aquela sensação de que tem gente querendo 'cantar de galo no seu galinheiro'.
Mas eu não estou aqui para dar opinião. Tenho pouquíssimo conhecimento político e social sobre esse assunto para ficar metendo o bedelho. Hoje venho sugerir uma obra forte, do cineasta Bruno Dumont, que, tendo vista o desenrolar dos acontecimentos, não poderia ser mais oportuna e atual: O Pecado de Hadewijch, de 2009.


Céline (Julie Sokolowsky) é uma noviça que recebe dispensa do convento por não obedecer a regra e suas superioras. De volta à casa, em Paris, a jovem se vê sozinha;

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Ostra ou pérola?


Na primeira memória vívida que tenho da minha infância eu estou em Ubatuba, onde minha família passava as férias de verão, numa feirinha de artesanato e bijuterias perto da praia. Eu tinha quatro anos e buscava avidamente por um conjunto de colar, brinco e pulseira de pérolas. Falsas, é lógico. Lembro bem de um camelô muito falastrão levantando um maço de pulseirinhas na minha direção. 'Você quer pérolas? Olha quantas! Tem de montão!' Meu coração se iluminou com aquela visão; pérolas às pencas. Algumas semanas depois, no fim de fevereiro, eu assoprava minhas cinco velinhas, ostentando alegrinha minhas jóias.


Desde então, meu fascínio por essas bolinhas cintilantes manteve-se vivo. Uma vez fiz um conjunto com as pérolas viúvas da família. Um brinquinho da minha primeira infância (esse sim, verdadeiro) virou um pingente e um outro que foi da vó Rosa virou um anel. Faltava o brinco, e esse tinha que ser um par. Peguei da mamãe os brincos que foram da tia Leda. No meu aniversário de treze anos ganhei um outro par, estrelas com brilhante encrustado e um pérola cravada abaixo.