Páginas

domingo, 7 de dezembro de 2014

Tríptico de Natal



Fim de ano é aquela agitação. Luzes para todos os lados, gente se acotovelando nos supermercados. À noite, as sacolas não param. Mais dignas e soberbas que as dos mercados, é verdade, mas continuam para lá e para cá, saindo de seus estabelecimentos comerciais para ganhar lugar em alguma sala, embaixo de um pinheiro adornado, na maior parte das vezes artificial.
Tenho as melhores lembranças dos Natais da minha infância. Vivências mais simples do que as de hoje, mas não por isso menos marcantes. Na sala de visitas ostentava-se o mais importante: o presépio. A gruta de papel pedra, muito bem amassado e modelado sobre o aparador, abrigava com harmonia todos os integrantes da cena da natividade. Depois, na copa, montava-se a árvore. Bolinhas de vidro fino de vários tamanhos e cores com uma estrela no topo. As luzes piscantes ainda não tinham chegado, pelo menos lá em casa.
A noite do dia 24, passávamos invariavelmente com a família do meu pai; ou na casa da vó Elvira ou na casa da tia Lica. Por motivos que desconhecia, a vó Rosa ficava sozinha em nossa casa. Não se juntava a nós nem comemorava do seu lado da família. Na manhã do dia 25, tia Rita e o tio Platão faziam uma visita e entregavam presentes para todos. Tia Rita contava as histórias mais alegres sobre a ceia da noite anterior. Tudo soava tão animado e alegre, não entendia por que não íamos de vez em quando. Mas Natal tem essa aura de mistério para as crianças. Lugares intocáveis, situações delineadas muito antes de nossa existência, às quais mesmo incompreensíveis, acatamos.
Mas minha obstinação maior era uma pessoa muito difícil de encontrar: Papai Noel.