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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O pai, o filho e o tigre: o homem contra si mesmo num dominó de loucos

Queridos leitores,


Voltei. Novamente não por opção, mas por necessidade.



'Uma situação escancara dois cancros velados da sociedade. Calorosos têm sido os comentários em redes sociais em defesa do tigre do mal-fadado episódio no zoológico de Cascavel, no Paraná. Devo confessar (e prevejo que minha revelação incitará a revolta de muitos) senti um prazer sádico ao saber que o garoto tivera o braço amputado. 'Delícia', exclamei e segui triunfante para a cozinha; meu dia começava melhor. Por quê? Porque dois seres humanos, embora vítimas de uma sociedade ainda mais doentia que minha satisfação, estes dois seres humanos responderam por seus atos.


Lembro-me bem de uma visita que fiz à Su, uma grande amiga. Mãe de duas gêmeas adoráveis, me pediu que acompanhasse as meninas — na época com quase três anos — ao andar de cima. Meus avisos eram o trivial entre os adultos: 'Devagar! Um degrau de cada vez!'. A mais atrevida me desafiou: 'Eu vou subir correndo!', bradou ela, virando-se em seguida para se certificar de que conseguira minha atenção. Minha vontade foi dizer: 'Então vá!'. Ocasião melhor não haveria para ensinar à garotinha que todos nossos atos têm conseqüências, e somos responsáveis por nossas escolhas. O pior desfecho seria uns dentes de leite quebrados e muita choradeira, mas uma bela lição aprendida. Entretanto, optei pela forma clássica de educação no Brasil: 'Não! Segure a mão da tia' e agarrei sua mãozinha. Su não entenderia minha postura em caso de um eventual acidente.
O fato é que os pais vão sempre postergando o encontro de seus filhos com essa dura realidade. Justificam-se de todas as formas, mas a verdade é uma só: não desejam causar sofrimento naqueles que mais amam. E privam seus rebentos do bem mais valioso: um amadurecimento sadio, ainda que doloroso. Desse modo, forma-se aos poucos uma sociedade de alienados, se não por seus pais, pelo Estado, afinal "crianças" infringem a lei todo o santo dia sob o aval a proteção do ECA*.
Acontece que dessa vez o imbróglio alimenta um verme sutil, travestido de ciência, mascarado de ecologia e vendido como inocente lazer e diversão: a cultura dos zoológicos. Mais sádicos do que eu, pessoas no mundo todo seguem para estes templos de tortura, onde animais nascidos livres são retirados de seu habitat natural e submetidos à uma exposição e um cárcere não adequados aos seus instintos e não merecidos. E com essa nojenta empáfia antropocentrista cultuamos o mal e o ensinamos todos os fins de semana às nossas crianças. E quem foi que disse que o pior inimigo entra pela porta da frente, fazendo estardalhaço???

Num mundo urbano artificializado, onde as carnes são pacotes congelados, leite uma garrafa plástica e suco uma gosma pasteurizada em caixinha tetrapak, não nos julgamos pertencentes à natureza e, ingenuamente, pensamos estar imunes a ela. Só que a grande mãe tem suas leis imutáveis; poderosas, constituintes de uma justiça genuinamente cega. E implacável como as sete pragas do Egito.

Agora vejo que senti prazer não porque vi um desgraçado se f****, mas porque assisti à natureza aplicar impiedosa sua pena e, com mão pesada, esbofetear pai e filho. Bateu o martelo pela bocarra de um tigre: monumental, magnânimo, visceral… e enjaulado. Mas não basta toda a soberba humana, ainda há lugar para mais escárnio e humilhação. Lógico, a natureza teima em desrespeitar nossa vontade e pensamos que podemos nos livrar de obedecer suas regras.

Só que estas são soberanas, impassíveis de emendas, sanções, liminares e vetos. A elas respondem tudo acima e abaixo de nós. E por que não nós?? Em nome de nossos sonhos de dominação, isolamos e matamos o tigre selvagem. O filho passa para o pai que passa para o zoológico que passa para o tigre, num dominó de loucos que só faz aumentar nossa pena diante da justiça primordial.
Temo pelo que nos está guardado. Pois a mãe natureza ensina em silêncio e paciência. Quando enfim assumirmos responsabilidade sobre nossas faltas, haverá ainda esperança? Ou veremos decretada contra nós a pena capital?'

*ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente

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