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terça-feira, 13 de maio de 2014

Funcionando Sob Pressão

Caros leitores, 

Não comentei antes com vocês porque não achei que fosse acabar postando sobre isso aqui no blog, mas eu me inscrevi numa oficina de Conto com a professora Cláudia Lage, na Estação das Letras. Nossa primeira aula foi ontem e até agora gostei de tudo. Inclusive, já temos dever de casa para esta semana! Já que não tenho publicado minhas últimas criações por aqui resolvi dividir este primeiro exercício com vocês.  Peço perdão pela edição, contava que o google drive fosse ter os caracteres musicais que eu precisava e... eles não tinham! Então pode ser que fique meio estranho. Mas a intenção foi boa! Vamos lá?




SUÍTE


I. Allegro Claudicante
                    Bel pugilou longas horas com o travesseiro.Cogitou levantar e escrever na sala como de costume. E só sair de lá depois de desovada a inspiração.
'Não, Marcos vai me encher o saco. Dizer pra ir deitar com ele, que não é hora de estar acordada e se eu me recusar vai me lançar aquele olhar de desaprovação, como quem desiste de um parente doido que se nega a aceitar tratamento.' Acesa a fagulha lá ficava ela, os miolos ardendo na brasa da ânsia literária. Imaginava temas e personagens interessantes, remoía o início e o possível desfecho de sua futura narrativa. Virou de um lado e fechou os olhos. Nada. As mil e uma possibilidades não paravam de dançar na sua mente. 'Calma! Não pense nisso! Você vai fechar os olhos e sonhar com a sua história. Vou o cacete! Esse negócio de sonhar com idéias mirabolantes só funciona com gênios e santos. Amanhã de cabeça fresca você vai conseguir! Confia e dorme!' Mas era impraticável. Seu cérebro funcionava sozinho, solenemente alheio à sua vontade. No fundo ela tinha medo. Medo de esquecer frases brilhantes e sacadas de feito que fariam toda a diferença. Medo que a faísca se apagasse e aquele vácuo que às vezes lhe invadia a dominasse, justo quando ela se visse diante de um papel em branco a ser preenchido, compelida a criar por essa ou aquela razão. 'Me deixa em paz! Volta amanhã de manhã cedo que eu tenho o dia livre.' Desistiu. Achou melhor deixar que a cuca funcionasse até fundir de cansaço. Virou de novo e deu de encontro com as pupilas dilatadas de sua gata mais arisca, deitada na outra ponta do travesseiro. 'Melhor eu ficar de olho fechado, por segurança. Se ficar encarando corro o risco de tomar uma unhada na vista.' O fato é que a situação, mesmo não tendo oferecido um solução instantânea, acabou por levá-la ao sono.
Na manhã seguinte despertou de repente.Arregalou os olhos já na direção do relógio. Nove em ponto. Dormira um sono pesado, porém sem onirismos nem fadas-madrinhas a lhe sussurrar um "Era uma vez..." libertador. Como não tinha fome, encheu sua caneca favorita com água fervente, afogou nela um saquinho de chá preto e — ainda de pijamas — puxou para si um bloco, lápis e borracha. ' Vamos lá, senta o rabo aqui e concentra!' Começou a esboçar uma história de cunho feminista. "Uma mulher sentada na poltrona, as mãos sobre os joelhos, mira uma valise..." 'Que maçada!' E lá se vão mulher, valise e sabe-se lá mais o quê virarem bola atirada aos gatos. A hora avança e os gatos ganham mais bolas para brincar. A essa altura passa o marido pela sala. "Por que não faz isso direto no computador, hein? Imagina quantas árvores você já não matou!" "Me deixa! Eu gosto assim!" Ele meneia a cabeça e volta para o quarto achando graça das esquisitices da mulher.
'Acho que eu vou pedir um tema à professora. Fica mais fácil. E você vai se entregar assim, sem lutar? Mas não vou conseguir pensar em nada bom ainda hoje. E quem falou que precisa entregar hoje? Ah, sua egocêntrica d'uma figa, você quer é ter seu conto lido pra turma, né? Vaidosa! Exibida! Mas ora, escrever só pra gente tem graça? AAAAAAHHHHHHH!!!!'
Toca o telefone.
"Oi, mãe. Não dá para me ligar depois?"
"Está dando aula, filhinha?"
"Não" (suspiro) "estou aqui procurando uma idéia boa prum conto." 
"Seu pai que é bom pra essas coisas. Peraí!"
"Mãe, não pre..."
"Ô, Marcelo! Vem cá que a Bel quer falar com você!
(outro suspiro)
"Oi, filhota! Sua mãe acabou de me falar aqui. Quer um tema bom? Por que não escreve justamente sobre isso?"
"Isso o quê, pai?"
"A angústia no processo de criação."
"...é pai,...vou tentar" 
"Isso, vai lá. Beijão e bom dia!"
"Tchau, pai." 
Esparramou-se no sofá meio aflita. 'Era só o que me faltava, a angústia no processo de criação. Parece título de tese, e de filosofia ainda por cima! Ficou olhando o teto branco, os mosquitos mortos no vidro do lustre. 'Bem, o que tenho a perder? Bora lá!'
Sentou-se e puxou uma folha limpa.Fine


Coda

Finalmente deitou o lápis sobre a mesa e aproveitou aquela deliciosa sensação de alívio. Estaria bom? Não sabia ao certo. Mas pelo menos sentia-se satisfeita. A primeira missão estava cumprida. Um conto, cerca de uma lauda, menos de quatro. Agora sim Bel se sentia pronta. Pegou o computador, criou o arquivo e iniciou a digitação.     

Da capo al Fine






                  

Um comentário:

  1. Quanto sufoco! Mas saiu ! Rsrs vc é ótima! Adorei! Me fez lembrar do menino na prova de português. Tema: um jogo de futebol. A redação do menino : " Choveu! Não teve jogo! " kkkkkkk brincadeira Gostei de saber q vc teve sua primeira aula e gostou. Te amo!

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