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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Aval à mediocridade

Machado de Assis engraçado
Caricatura de Machado de Assis


Viver é estar em constante mutação. É ter de reavaliar sem cessar suas escolhas e conceitos. Lembro-me de quando voltei, aos dezesseis anos, de um ano de intercâmbio no sul dos EUA. Antes de partir eu detestava o Brasil; paísinho atrasado subdesenvolvido. Bastou uma sabática estada num high-school do Mississippi assistindo a marmanjos levando corretivos a palmatória (instrumento lendário até então, presente somente nas lembranças escolares de minha avó em conjunto com a genuflexão no milho) entre outras posturas retrógradas, para eu reconsiderar melhor meu pobre país.
Voltei idealista, decidida a ser o agente auxiliar transformador da minha pátria. Adolescente é sempre um grandissíssimo ingênuo com ilusões de mudar o mundo. E lá se vão quase quinze anos. Não que amar o Brasil esteja fora dos meus planos; acho que isso não é mais uma opção. Não há como morar dez anos no Rio de Janeiro sem ter um grande caso de amor com a nação. Só que já não posso dizer que tenho o mesmo sentimento pelos meus compatriotas.
Brasileiro é um ser com vocação para a mediocridade.
Não basta aceitar suas limitações. Ele as adota como comportamento padrão a ser seguido pelo restante de nós, a infeliz minoria com aspirações de construir um Brasil mais justo e próspero.
No decorrer da nossa História essa pequena parcela de brasileiros vem suportando as mais aviltantes derrotas e desilusões: Collor, inflação, violência sempre em ascensão, o desrespeito do cidadão às leis, mensalão, Copa do Mundo e suas superfaturadas licitações e o famoso "jeitinho". E isso é o que eu consigo me lembrar dada minha relativa pouca idade. Os mais velhos terão ainda mais dissabores a relatar.
E agora sigo eu, disposta a deixar o Brasil em busca de melhor infra-estrutura e qualidade de vida na Europa. No entanto, restava como alento minha língua mãe. Impossível de abandonar, a única lembrança que leva o exilado, como o soldado no front carrega ao peito a foto da amada. Já tinha também me conformado com o fato de Sarney e Paulo Coelho serem membros da ABL e tinha até relevado este engodo que tem por nome Acordo Ortográfico de 1990, afinal ninguém pode me obrigar, escrevo como eu quiser. Listadas as mazelas, estava resignada a catar os cacos.
Mas eis que antes que consigamos nos pôr de pé lá vem outro golpe de machado em nossa dignidade intelectual. Ou seria, sem conseguir evitar o trocadilho, um golpe na dignidade do Machado. É, sempre há como piorar. E desta vez a vítima foi o ilustre imortal Machado de Assis — que já há muito deve se revirar no túmulo ao se deparar com os novos "imortais" de sua Academia.
A ceifadora em questão é uma tal de Patrícia Secco e, ao que parece, vem arquitetando seu plano devastador desde 2008. Até aí tudo bem: qualquer cidadão tem o direito de ter seu plano pessoal de destruição em massa e de acreditar em teorias da conspiração. Só não imaginávamos que a desinfeliz iria conseguir captar verba pública para a edição simplificada de 600 mil exemplares de "O Alienista", de Machado de Assis e "A Pata da Gazela" de José de Alencar. É o governo dando aval à mediocridade.
Se ainda pensasse ingenuamente diria que a escritora está subestimando nossos alunos. Porém calculo que Patrícia não esteja nem um pouco interessada em tornar mais acessível e leve às crianças e adolescentes estudantes obras de autores clássicos. Além de almejar projeção pública (o bom e velho "falem mal mas falem de mim") acredito que nossa ini(a)miga padeça de um mal muito mais nefasto que a mediocridade: o antigo vício brasileiro de se apropriar do dinheiro público em benefício próprio. Este sim um hábito entranhado no cerne de toda a desgraça brasileira. E o dom tupiniquim de se vender a baixo preço sem pensar nas conseqüências.
Graças a pessoas como Patrícia e o nosso Ministério da Cultura (SIC!), se continuarmos nesta franca derrocada, em breve um cidadão mediano não conseguirá nem entender este texto sem ter que verificar seis ou sete palavras no dicionário a cada frase. E assim a vida das Patrícias escritoras se tornará mais fácil; não terão que lançar mão do dicionário de sinônimos ou da criatividade a fim de enriquecer suas obras.
Fico cada vez mais desterrada e sem esperança. Não basta me expulsar, tem que retalhar a imagem que levo no bolso e no coração??? E ao escrito sério, o que restará?
É com tristeza que começo a pensar em me versar em português lusitano, pois logo logo não haverá leitores disponíveis na terra de Machado capazes da compreensão não só de seus livros, mas de qualquer texto inteligente.

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