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quinta-feira, 6 de março de 2014

Quinze anos depois: lembrando a vida e a obra de Stanley Kubrick

Por Fernando Loureiro



Há exatos 15 anos, no dia 7 de março de 1999, falecia, em sua residência na Inglaterra, o cineasta estadunidense Stanley Kubrick. Ao longo de 46 anos de carreira Kubrick lançou apenas 13 longas-metragens. No entanto seus filmes o fizeram ser considerado por críticos e por seus colegas de ofício como um dos maiores cineastas de toda a história do cinema.


Nascido no Bronx, na cidade de Nova York, a 28 de julho de 1928, filho de um médico e de uma dona de casa, ambos descendentes de imigrantes judeus da Europa Oriental, Kubrick iniciou sua vida profissional aos 16 anos de idade, como fotojornalista da revista Look, de Nova York, atividade que dividia com a paixão pelo xadrez, música clássica e jazz. Autodidata, era ávido espectador de filmes de arte no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MOMA, onde assistiu aos grandes clássicos do cinema mudo e filmes europeus e estadunidenses da primeira metade do século XX. Assistia a aulas de filosofia, sociologia e psicologia, como ouvinte, na Columbia University, mas, no entanto, as notas medianas do jovem Stanley no ensino médio não tornaram fácil sua entrada numa universidade e ele acabou nunca cursando o ensino superior.





Aos 24 anos de idade, após dirigir documentários em curta metragem, produziu e dirigiu seu primeiro filme de ficção, o drama de guerra Medo e Desejo (Fear and Desire, 1953), obra que posteriormente consideraria um exercício amador e que renegaria. Apesar disso, o filme chamou a atenção de críticos de Nova York e de distribuidores do circuito de filmes independentes. A partir daí o cinema seria sua única paixão e ocupação. Produziu e dirigiu filmes policiais, de produção independente, A Morte Passou Por Perto (Killer’s Kiss, 1955) filmado nas ruas de Nova York, num estilo de trabalho que se tornaria famoso posteriormente, quando Jean Luc Godard filmou Acossado (À Bout de Souflle, 1960) nas ruas de Paris, e O Grande Golpe (The Killing, 1956) filme sobre uma gangue que rouba o dinheiro das apostas num hipódromo. Em 1956 teve a oportunidade de produzir aquele que é considerado seu primeiro grande filme, o drama de toques antimilitaristas, Glória Feita de Sangue (Paths of Glory, 1957), a história de um Coronel do Exército francês, que durante a Primeira Guerra Mundial defende, perante uma corte marcial, um grupo de soldados que serão condenados à morte por covardia. Durante as filmagens, na Alemanha Ocidental, conheceu aquela que seria a companheira do resto de sua vida, a atriz e pintora alemã Christiane Harlan, com quem teve duas filhas, Anya, falecida em 2009, e Vivian. Kubrick, que já tinha se casado e divorciado duas vezes, ainda adotou a filha do primeiro casamento de Christiane, Katharina Harlan, que se tornou pintora como a mãe.



Após Glória Feita de Sangue, Kubrick, que desde cedo procurara manter sua independência artística, teve a oportunidade, para ele infeliz, de trabalhar como diretor contratado num projeto do qual não tivera nenhum envolvimento prévio, o épico Spartacus, lançado em 1960 e protagonizado por Kirk Douglas. Apesar do filme ter sido um sucesso de bilheteria, Kubrick nunca o considerou um filme verdadeiramente seu.


Seu próximo filme seria um dos mais polêmicos de sua carreira, uma adaptação cinematográfica do romance Lolita de Vladmir Nabokov, a história da paixão de um intelectual europeu de meia idade por uma menina de 12 anos. O filme, lançado em 1962, foi atacado, durante sua produção, por organizações ligadas a setores conservadores da sociedade americana, atores recusaram o papel do intelectual europeu e Kubrick foi forçado a envelhecer Lolita, que no filme é uma adolescente de 16 anos. No entanto, o mérito de Kubrick é destacar como a obra de Nabokov é também uma comédia ácida e irônica sobre a sociedade americana dos anos 50.





Lolita marcou o início de uma parceria de Kubrick com o ator britânico Peter Sellers que se tornaria ainda mais intensa em 1964 quando Kubrick lançou Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or How I Stopped Worrying and Learned to Love the bomb, 1964) uma comédia de humor negro sobre a corrida armamentista nuclear entre os EUA e a URSS. No filme, O General da Força Aérea dos EUA, Jack D. Ripper, um anticomunista fanático, decide atacar a URSS por conta própria, como retribuição por uma suposta conspiração comunista para poluir seus “fluidos corporais”. No filme, o ator britânico Peter Sellers interpretou três papéis diferentes: o do Presidente dos EUA Merkin Muffley, o do Oficial da Real Força Aérea Britânica Lionel Mandrake e o próprio Dr. Strangelove, cientista e ex-oficial nazista que depois de servir Hitler se torna conselheiro para assuntos nucleares do Presidente dos EUA. O projeto foi desenvolvido e filmado na Inglaterra, para onde o cineasta se mudou com sua família após a produção de Lolita. Lá procurava maior liberdade artística e melhores condições de trabalho, longe do glamour e das festas de Hollywood, coisas a que, homem tímido e reservado, sempre fora avesso. Também admirava o profissionalismo dos técnicos da indústria cinematográfica britânica.





Dr. Fantástico foi um sucesso de bilheteria e crítica. Lançado após a crise dos mísseis de Cuba em 1962 e do assassinato do Presidente John Kennedy em 1963, o filme era incrivelmente atual e suscitou uma série de debates nos EUA e mundo afora. Os detalhes da produção, sobretudo o interior de um bombardeiro da Força Aérea dos EUA, eram tão perfeitos, que Kubrick e outros membros da produção do filme chegaram a ser alvos de uma investigação do governo americano, que queria descobrir como tinham conseguido tantos detalhes sobre a aeronave e os procedimentos para emprego de armas nucleares pelas forças dos EUA. Com elogios da crítica, indicações ao Oscar e sucesso de bilheteria, Kubrick passa à pré-produção daquele que é até hoje seu filme mais famoso, 2001: uma odisseia no Espaço (2001: A Space Odissey, 1968) adaptação do romance de ficção científica de Arthur C. Clarke. Trabalhando no roteiro com o próprio autor, Kubrick constrói um filme que questiona e procurar mudar os modelos convencionais de narrativa cinematográfica, uma obsessão do cineasta, que admirava o cinema mudo e considerava a edição como a parte verdadeiramente original do cinema, a que lhe dava singularidade como arte, face à literatura, o teatro e a fotografia. Assim, há poucos diálogos, sequências inteiras somente com música clássica e efeitos especiais que valeram o único Oscar que receberia em sua carreira. A história de como um monolito, construído por uma Inteligência alienígena influencia o desenvolvimento da espécie humana, da pré-história até a era da exploração espacial, divide a crítica e o público. Nunca um grande estúdio americano como a MGM lançara um filme tão pouco convencional. Para alguns era uma obra-prima, um filme que contribuía para o avanço do cinema como expressão artística, para outros, um filme pretensioso e entediante.




Após o lançamento de 2001, Kubrick encerra sua parceria com a MGM. Uma das causas foi o fracasso do projeto Napoleon, um sonho de Kubrick que nunca foi realizado. Ele escreveu várias versões de um roteiro sobre a vida do oficial de artilharia que virou Imperador da França, leu centenas de livros sobre Napoleão, estabeleceu contatos com historiadores, historiadores da arte, consultores militares, procurou e escolheu locações, recrutou diretores de arte, pesquisou figurinos. Para um executivo da MGM escreveu que pretendia fazer “o melhor filme de todos os tempos.” Para o papel principal pensou num jovem ator em início de carreira: Jack Nicholson. No entanto, Napoleon foi recusado pela MGM. Kubrick interrompeu a pré-produção do filme e assinou com a Warner Bros um contrato de exclusividade. A partir do momento em que a Warner aceitasse um projeto seu, ele teria controle total sobre o filme. No entanto, filmes de época estavam fora de moda, um épico sobre Napoleão, Waterloo (Sergei Bordanchuk, 1970) tinha sido lançado e fracassado nas bilheterias e a Warner não deu o sinal verde para o Napoleon de Kubrick. 




Kubrick voltou-se então para um livro que lera fazia pouco tempo: Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971), a história de uma gangue de adolescentes, numa Inglaterra futurista, que praticava os mais chocantes atos de violência. Seu líder, Alex, é preso e passa por um tratamento que visa torná-lo um cidadão exemplar, o tratamento Ludovico, que na prática, o torna incapaz de escolher entre o bem e o mal, desumanizando-o. Filmado na Inglaterra, Laranja Mecânica foi um projeto bem menor que 2001. Usando equipes pequenas, fotografia simples, uma narrativa bem mais convencional e quase nenhum efeito especial, o filme se destaca, no entanto, pela violência estilizada e pela discussão sobre a violência nas sociedades modernas e, sobretudo, das maneiras como ela é combatida. Lançado em 1971, o filme não escapou, mais uma vez, de polêmicas. Na Inglaterra, o filme foi apontado como a causa de crimes cometidos por jovens, que teriam afirmado às autoridades que tinham se inspirado no filme. Kubrick e sua família receberam ameaças de morte, protestos foram organizados perto de sua residência. Em março de 1972, Kubrick solicitou que a Warner Bros tirasse o filme de cartaz na Inglaterra, sem no entanto deixar de se defender afirmando que não acreditava que uma obra de arte pudesse causar violência. Para ele a arte representa, interpreta e reinterpreta a vida, mas não causa nem cria a vida em si. Laranja Mecânica só retornaria aos cinemas ingleses após a morte de Kubrick em 1999.







Após Laranja Mecânica o intervalo entre os lançamentos de novos filmes foi se tornando cada vez maior. Com controle artístico total sobre seus filmes, Kubrick agora se envolvia pessoalmente em todos os aspectos da produção, inclusive na pós produção e na distribuição e divulgação dos filmes na imprensa, sempre trabalhando com uma equipe de colaboradores próximos. Na década de 70 lançaria apenas mais um filme: o drama histórico Barry Lyndon em 1975.


A história de um jovem irlandês, interpretado pelo astro do momento, Ryan O’Neal, que ascende à nobreza na Inglaterra do século XVIII através de golpes, mentiras e um casamento por interesse, marca um retorno de Kubrick às suas preocupações com a forma de narrativa cinematográfica. Poucos filmes de Kubrick exigem tanto do espectador. Poucos filmes de Kubrick, por outro lado, oferecem imagens tão belas e cuidadosamente compostas. Filmado totalmente em locações na Inglaterra, Irlanda e na Alemanha Ocidental, Barry Lyndon tem um narrador onisciente, irônico, que muitas vezes revela o que vai acontecer, deixando o espectador curioso não pelo que está por vir, mas sim em como vai acontecer. As imagens são belíssimas, filmadas com câmeras desenvolvidas especialmente para o filme e que eram capazes de filmar somente à luz de velas, obtendo o efeito desejado por Kubrick, ou seja, fazer o público ver o século XVIII como era visto por quem vivia naquele período histórico. O clima é de distanciamento, os personagens pouco falam sobre suas emoções, as motivações são implícitas, o filme, de três horas de duração, tem um ritmo deliberadamente lento. Mas são opções estéticas e narrativas de um diretor para quem o cinema se prestava mais à comparações com a música do que com a literatura. Kubrick, apaixonado por música clássica desde a juventude, usa Wagner em 2001, Bethoveen em Laranja Mecânica e Haendel em Barry Lyndon.






Para decepção de Kubrick, Barry Lyndon (apesar dos Oscar para fotografia, direção de arte, figurino e trilha sonora adaptada) foi um fracasso de bilheteria nos EUA, só se salvando de um fracasso ainda maior por ter tido sucesso relativo na França e em outros mercados da Europa Ocidental. Kubrick sabia que o desempenho comercial de um filme afetava as possibilidades de novos projetos, por isso sua preocupação com o desempenho comercial de suas produções. Ele era um cineasta que estava ao mesmo tempo dentro e fora da indústria cinematográfica americana.


Vivendo e trabalhando na Inglaterra, filmando com uma equipe de colaboradores fiéis, longe das festas e do mundinho de Hollywood, Kubrick tinha seus filmes financiados por um grande estúdio dos EUA. Kubrick e a Warner se beneficiavam mutuamente. Para Kubrick o contrato com a Warner lhe dava liberdade artística e a possibilidade de contar suas histórias com grandes orçamentos, numa escala que seria impensável em produções independentes. Por outro lado, para a Warner, Kubrick oferecia prestígio artístico além de, claro, boas bilheterias e lucros.


Após Barry Lyndon, Kubrick retornou ao processo de buscar a nova história que queria contar. Leu pilhas de livros, recebeu centenas de roteiros, até que se decidiu pela obra, ainda a ser lançada, de Stephen King, O Iluminado (The Shining), uma história de terror psicológico sobre uma família disfuncional, a história de um homem que, isolado com sua família num hotel nas montanhas rochosas, decide matar sua esposa e filho. As filmagens duram quase dois anos, 1978 a 1979, num set gigantesco do hotel, construído na Inglaterra. Nos papéis principais, Jack Nicholson, Shelley Duval e Danny Lloyd no papel do filho do casal, dotado de poderes mediúnicos. Nos papéis coadjuvantes atores como Patrick Macgee e Barry Nelson, que desde Laranja Mecânica fazem parte de uma trupe de atores que trabalhavam com Kubrick. O Iluminado é uma adição aos filmes de horror que fizeram sucesso nos anos 70, como O Exorcista (The Exorcist, William Friedkin, 1973) e A Profecia (The Omen, Richard Donner, 1976). No entanto, Kubrick não deixa de inovar: faz um filme de terror num lugar aberto, amplo, iluminado. As preocupações formais de Kubrick estão todas lá: as composições perfeitas, o uso do foco em profundidade, mantendo todos os objetos em cena focados, preocupação com uma iluminação naturalista, o uso do steady-cam, que permite movimento estáveis nos travellings pelos corredores do hotel Overlook, construído após extensa pesquisa em hotéis nos EUA. Seu único filme de terror marca a última parceria de Kubrick com John Alcott, diretor de fotografia de 2001, Laranja Mecânica e Barry Lyndon. Alcott, vencedor do Oscar em 1975, por Barry Lyndon, morreu em 1986.





Barry Lyndon e O iluminado deixam claro a marca de Kubrick como um cineasta perfeccionista. O número de takes para cada cena chegam às dezenas, o que causa conflitos com alguns atores, especialmente Shelley Duvall, que teve um relacionamento atribulado com um cada vez mais exigente Stanley Kubrick. Há relatos de cenas que teriam sido filmadas cerca de 70 vezes durante as filmagens. Destaca-se, também, o fato de termos, durante as filmagens de O Iluminado, a única produção de um making off de um filme de Stanley Kubrick, dirigido por sua filha, Vivian. O documentário, de cerca de um hora de duração, é o único registro em filme de Kubrick dirigindo um filme. Foi também durante as filmagens de O Iluminado que Kubrick foi apresentado a um jovem cineasta com quem manteria uma amizade até sua morte: Steven Spielberg.


Já ao lançar O Iluminado, em maio de 1980, Kubrick iniciava a pré-produção daquele que seria seu próximo filme, Nascido Para Matar (Full Metal Jacket, 1987) que no entanto só seria lançado em 1987. Autor de pelo menos dois filmes que abordavam diretamente o fenômeno da guerra, Medo e Desejo e Glória Feita de Sangue, Kubrick agora fazia um filme sobre a Guerra do Vietnã. Como no caso de seu antecessor, Nascido para Matar se integra numa série de filmes sobre a guerra do Vietnã produzidos no final dos anos 70 e durante os anos 80. Kubrick selecionou The Short Timers, romance do veterano do Vietnã Gustav Hasford. Com a colaboração do correspondente de guerra Michael Herr, Kubrick escreveu um roteiro pouco convencional, claramente dividido em duas partes, que dá poucas, na verdade quase nenhuma, informação sobre a vida dos soldados antes da guerra, preocupando-se, na primeira parte, com seu treinamento desumanizador e na segunda, com o inferno dos combates urbanos durante a ofensiva do Tet em 1968. No subtexto do filme, Kubrick, leitor de Jung e Freud, explora a ideia jungiana da dupla essência do homem, capaz de atos de bondade e atos da pior crueldade. Esta ambivalência encontra sua expressão imagética na figura do Soldado Joker que usa um broche com o símbolo da paz no uniforme e escreve “nascido para matar” no seu capacete. Não querendo afastar-se de sua família, e dos seus gatos de estimação, e viajar para o sudeste asiático, Kubrick conseguiu filmar a guerra do Vietnã nos subúrbios de Londres, mais especificamente num depósito de gás abandonado que havia sido projetado e construído pelos mesmos arquitetos e engenheiros franceses que haviam construído muitos prédios na cidade Imperial de Hue, cenário dos combates que o cineasta queria retratar. Para o elenco Kubrick contratou jovens atores, selecionados a partir de milhares de vídeos amadores que recebeu. Kubrick havia publicado anúncios em jornais americanos solicitando que jovens atores, ou mesmo não atores, enviassem fitas VHS na qual interpretariam uma cena qualquer sobre a guerra do Vietnã. Sua escolha final recaiu sobre Mathew Modine, Vincent D’Onofrio e Adam Baldwin entre outros. A trilha sonora ficou a cargo de sua filha, Vivian Kubrick, que usou o pseudônimo de Abigail Mead. 




Quando foi finalmente foi lançado em 1987, após quase dois anos de filmagens e pós-produção, Nascido Para Matar mais uma vez impressionou e confundiu crítica e público. Não era parecido com nenhum dos filmes sobre o Vietnã lançados até então. Não havia ali o sentimentalismo de um Oliver Stone em Platoon (1986) nem reflexões mais profundas sobre a política externa dos EUA na guerra fria. Apesar de abordar aspectos da presença estadunidense no Vietnã e seu envolvimento no conflito, Nascido Para Matar é um filme que explora a natureza humana, sua capacidade para a violência, e os processos pelos quais os seres humanos podem ser, de fato, desumanizados.


Depois de seu filme sobre a guerra do Vietnã, Kubrick ficaria 12 anos sem lançar outro filme. Durante esse período ele se retraiu ainda mais, a ponto de não haver fotos recentes suas nos jornais e publicações sobre cinema. No entanto, na sua grande propriedade no interior da Inglaterra, Kubrick trabalhava numa série de novos projetos, que infelizmente, ele nunca conseguiu levar a cabo.

O primeiro deles era um filme sobre o holocausto, Aryan Papers, baseado no romance autobiográfico Wartime Lies de Louis Bagley sobre um menino judeu e sua tia que, na Polônia ocupada pelos nazistas, conseguem, mentindo e se disfarçando, os tais Aryan Papers do título, documentos que declaravam origem ariana e os salvariam da máquina de matar dos nazistas. O roteiro estava pronto e a Warner deu sinal verde para o projeto. Kubrick escolheu o elenco: a tia seria a jovem e belíssima atriz holandesa Johanna Ter Steege, escolhida após Julia Roberts recusar o papel, e o sobrinho, Joseph Mazzello, o menino de Jurassic Park, de Steven Spielberg. As locações estavam selecionadas: o filme seria produzido na República Tcheca, com apoio do governo local e Kubrick, pela primeira vez em décadas, filmaria fora da Inglaterra. As filmagens ocorreriam em 1993 e o filme seria lançado no Natal de 1994. No entanto, uma série de fatores acabou levando Kubrick a abandonar o projeto na última hora. Primeiro, o lançamento de A Lista de Schindler (Schindler’s List, Steven Spielberg, 1993). Kubrick considerava que o lançamento de Nascido Para Matar, após uma série de filmes sobre o Vietnã, tinha prejudicado o resultado comercial do filme: o público não queria ver dois grandes filmes sobre o Vietnã no espaço de um ano e o mesmo seria verdade para um tema pesado como o Holocausto. Segundo: sua filha mais velha, Anya, engravidou do primeiro filho e sua esposa não iria se mudar com ele para a República Tcheca e sim ficar com a filha que precisava do apoio da mãe. Terceiro: Kubrick, que ficou deprimido e visivelmente afetado pela imersão no tema do Holocausto durante a pré-produção, tinha dúvidas de que o cinema fosse realmente capaz de representar o que o Holocausto verdadeiramente fora. Assim, em 1993, Kubrick reuniu-se com executivos da Warner e comunicou que iria abandonar Aryan Papers. Quem estiver curioso sobre esse filme não feito pode encontrar no youtube imagens dos testes de figurino e maquiagem com Johanna Ter Steege.




Após abandonar Aryan Papers Kubrick voltou-se para A.I Artificial Intelligence, adaptação de um conto do escritor de ficção científica estadunidense Brian Aldiss. A história de um menino-robô que acreditava ser uma criança de verdade fascinava Kubrick, que esperava que o desenvolvimento dos efeitos especiais e da informática tornassem possível contar a história como ele visualizava. Ele chegou mesmo a cogitar não ter um ator no papel do menino, mas sim um robô de verdade, ou um personagem gerado por computação gráfica. No entanto, durante a pré-produção do filme, Kubrick estreitou seus laços com Spielberg e decidiu que o filme tinhas mais relações com as sensibilidades artísticas do diretor de ET, O Extraterrestre (E.T: The Extra-Terrestrial, 1982) do que com as suas e passou o projeto para a direção de Spielberg. Kubrick permaneceria apenas como produtor. A.I. foi lançado em 2001, dirigido por Spielberg. Como era comum num projeto de Kubrick, dividiu público e crítica. Apesar de Kubrick considerar que as sensibilidades de Spielberg eram muito diferentes das dele, A.I. é um filme belo, melancólico, emocionalmente contido. A influência de Kubrick está clara no filme de Spielberg.


Os anos dedicados a Aryan Papers e A.I. explicam o fato de que, no final dos anos 90, Kubrick estava perto de completar 10 anos sem lançar um filme. Ele agora, então, se voltou para um livro que lera nos ano 70, Traumnovelle, do austríaco Arthur Schnitzler. O romance sobre casamento, ciúmes e obsessão sexual foi adaptado por Kubrick em conjunto com o escritor e roteirista Frederic Raphael e deu origem a De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999). As filmagens, longas, duraram de 1996 até o início de 1998, na Inglaterra, embora o filme se passasse em Nova York. Para o elenco Kubrick escolheu o mais famoso casal de atores da época, Tom Cruise e Nicole Kidman, nos papéis do Dr. Bill Harford e sua esposa, a curadora de arte Alice. Uma noite, após uma festa na casa de um paciente rico de seu marido, Alice confessa a Bill seus desejos sexuais não realizados e de como sentiu atração por um oficial da marinha que vira num hotel durante uma viagem com o marido e a filha. Após as revelações da esposa, Bill se deixa envolver numa trama de sexo, orgias e assassinato entre as elites políticas e econômicas de Nova York. É o filme mais íntimo e emocional de Kubrick. Um ensaio sobre desejo, sexualidade, casamento, compromisso, fidelidade. Ao entregar o filme aos executivos da Warner, Kubrick afirmou, para familiares e colaboradores, que considerava De Olhos Bem Fechados sua maior contribuição ao cinema, seu melhor filme.





Ainda em 1997 recebeu o D.W. Grifith Award pela sua obra, prêmio do Director’s Guild of America, espécie de Sindicato dos Cineastas dos EUA. Nas imagens do discurso de agradecimento, gravado na Inglaterra e enviado ao Director’s Guild, muitos se espantaram em ver um senhor de barbas grisalhas, aparentando até um pouco mais que os seus quase 70 anos de idade. Após o lançamento de De Olhos Bem Fechados, Kubrick pretendia dar algumas entrevistas, reaparecer para a mídia. Trabalharia na produção de A.I., de Spielberg e continuaria com seus planos de filmes futuros, quem sabe mesmo ressuscitar Napoleon ou algum outro projeto inacabado. No entanto, antes mesmo de De Olhos Bem Fechados ser lançado, Stanley Kubrick morreu durante o sono, de um infarto fulminante, na sua casa no interior da Inglaterra. Ele foi enterrado na sua propriedade, perto de uma grande árvore, um dos seus locais preferidos. Depois de sua morte, sua viúva e seu cunhado, Jan Harlan, co-produtor de vários dos seus filmes, dedicaram-se à preservação de sua obra e de todo o material acumulado durante mais de 40 anos de dedicação ao cinema. Todo o material está agora preservado na University of Arts de Londres e pode ser consultado por pesquisadores, estudantes de cinema, jornalistas e qualquer um apaixonado pelo cinema e pela obra de Stanley Kubrick. Parte do acervo foi organizado na Stanley Kubrick Exhibit, uma exposição itinerante que desde 2004 roda a Europa, EUA e que, entre outubro de 2013 e janeiro de 2014, quebrou recordes de bilheteria no Museu da Imagem e do Som em São Paulo, na primeira vez em que foi apresentada na América Latina. Desde sua morte, dezenas de livros sobre seus filmes foram publicados, edições especiais em DVD, e posteriormente Blue-Ray, foram lançadas, seus filmes são vistos e revistos em mostras e festivais em todo o mundo. Uma ida à Exposição Stanley Kubrick no Museu da Imagem e do Som em São Paulo permitia, ao visitante atento, observar que a maioria dos visitantes era de jovens que eram pouco mais que adolescentes ou mesmo crianças quando Kubrick morreu em 1999. Sua obra está viva e conquistando um novo público.


Em 2001, numa entrevista ao crítico de cinema francês Michel Ciment, um dos maiores especialistas na obra de Kubrick e dos poucos críticos com quem Kubrick teve um relacionamento próximo, Jack Nicholson afirmou que não conseguia entender como ainda havia gente nos EUA que duvidava do talento de Kubrick. Para Nicholson, quando o assunto era cinema, Stanley era “o cara”.






Referências:


CIMENT, Michel. Conversas com Kubrick. São Paulo: Cosac&Naif, 2013.


DUNCAN, Paul. Stanley Kubrick, a filmografia completa. Berlin: Taschen, 2003.


WALKER, Alexander. Stanley Kubrick, Director. Nova York: W.W Norton, 2000.


KROHN, Bill. Masters of Cinema: Stanley Kubrick. Paris: Cahiers du Cinema,


2000.

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