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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A Maga das Batutas

Amigos, voltei! Não para valer, pois há muitos projetos pelo caminho. Mas vejam só como coisas ruins podem trazer coisas boas. Conversando com um amigo acerca da abrutalhada imagem da desagradável representante da nossa nação, lembrei desta crônica que escrevi. Foi tão bom poder revisar e melhorar uma lembrança tão positiva e singela de uma pessoa. E me lembrar de fatos que já estavam no limbo da memória. Para ela, a profa. Massima, um abraço apertado e, onde quer que esteja, tenho certeza de que continua sendo o máximo!


A Maga das Batutas 

À maga, regente, 
 minha professora de Canto Coral na Universidade,
de quem preservo a verdadeira identidade,
a fim de proteger sua privacidade.




regente de canto coral


Definitivamente. Quando me inscrevi em Canto Coral não poderia sequer imaginar me deparar com uma figura que me intrigaria de forma tão intensa e peculiar. E muito menos alguém por quem eu viria a nutrir tanto respeito e admiração.



Bem, decidi me inscrever na matéria a conselho de um amigo, para melhorar o ouvido e, em conseqüência, a performance nas aulas de ditado e solfejo. Apesar de não serem obrigatórias para o curso de Piano na Universidade, gostei tanto que continuei fazendo Coral até esgotarem-se os níveis disponíveis da disciplina. Várias foram as razões que me fizeram tomar gosto pelo canto em grupo. Mas conhecer e ter contato com a regente, a professora Massima, foi uma das experiências mais proveitosas e valorosas da minha vida.
A professora Massima mais parecia um homem.
Todavia, seus trejeitos suaves e mínimos lançavam-na a léguas de distância do que poderia ser considerado masculino. Era muito diferente daquelas que vemos de mãos dadas às suas companheiras. Sempre se vestia sobriamente, com elegância e discrição.  Esguia, não muito alta, de cabelos pretos levemente ondulados, batendo nos ombros, e uns olhinhos da mesma cor, nos quais as pálpebras inferiores pareciam estar sempre levemente borradas com uma nuvenzinha de lápis para olhos. Mas, mesmo assim, algo nela me remetia ao vigor e insipidez dos homens.


Talvez a culpa fosse da ausência de maquiagem. Ou da forma como nos regia. Dificilmente se alterava ou levantava a voz; se impunha sem se impôr. Sua simples presença bastava. Às vezes me dava até um pouco de medo, quando nas passagens mais vivas e sombrias seus olhos iam se arregalando e seu rosto tomando uma feição rija, sisuda, como se do globo pudesse escoar algo vindo de dentro. E seus cabelos se arrepiavam, armando de levinho, pelo esforço físico. Mas, eu prefiro acreditar em “eletricidade estática adquirida por música vibrante”.

Não. Seria injusto e rebaixador compará-la aos seres do sexo masculino. Ela era, isso sim, a forma mais límpida, clara e cristalina; a imagem mais verossímil possível; a definição perfeita do andrógino. Um criatura que existe não para o seu gênero e sim para sua função no mundo.

Pelos mais variados motivos, ela mais se assemelhava a uma entidade do que a uma criatura de carne e osso. Pelo menos era essa a impressão que eu tinha. Também, pudera, Massima não chegava; surgia. Nunca a vi cruzando a porta de entrada da Escola de Música, nem pegando um táxi ou almoçando em um dos restaurantes das redondezas, onde era comum ver alunos, funcionários e professores fazendo suas refeições. Exceto pelo bar do Seu Gracindo (mas aí não conta porque o bar ficava dentro da faculdade).

Além disso, ela nunca se fazia perceber ao adentrar um recinto. Quando seus discípulos de regência iniciavam os ensaios, era comum ouvir — na primeira brecha feita por nossos erros — uma vozinha discreta, como que vinda do além, fazendo comentários. Era ela que, sabe lá Deus quando e há quanto tempo, entrara e assistia a tudo do fundo da sala.

Equando ela aparecia com uma botinha de couro preto, cadarço e bico fino - invariavelmente combinada com um vestido púrpura? Só fazia aumentar em mim a impressão de uma bruxa. Não! Bruxa não, porque bruxas são más, têm verrugas pelo rosto, queixo cabeludo e portam aquele chapéu cônico. Mas, é bem capaz que seu meio de transporte fosse uma vassoura. Ou um tapete voador. Quem sabe o teletransporte. Mas, se não é bruxa, é o quê?

Matei a charada quando a vi tão miúdinha perto de um de seus alunos, alto e forte. A discrepância era tão brutal, mas conforme ela falava e instruía, ia ficando grande. Um grande diferente, um grande invisível, um grande que não é a mão que pega. Sim, como não havia pensado nisso antes? Uma mulher que não é bruxa, mas que tem poderes mágicos: uma maga.

Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que ela era mãe de duas meninas e uma delas tinha só uns sete anos. Descobrir não, constatar. Porque que ela tinha duas filhas eu já sabia, só não tinha conseguido digerir o fato. Até hoje custo a crer que ela tenha passado dezoito meses enjoando, engordando e depois mais dezoito aleitando e trocando fraldas. Para mim, sua estada na Alemanha a havia deixado como as mães alemãs. É, porque na minha cabeça as alemãs adotam seus filhos ou eles um dia batem às suas portas, já com uns cinco ou seis anos de idade, chamando-as de "Mutter". Não nascem, brotam.

Mas eis que, das pouquíssimas vezes em que se aproximou de mim, fui agraciada com gestos surpreendentemente maternais. Nada dramático ou folhetinesco. Simplesmente “cosy”, como diriam os ingleses.

Antes de uma das apresentações do côro, quando estávamos todas alinhadas para entrar ao palco, senti uma mãozinha leve na altura dos meus ombros, ajeitando a alça do sutiã para dentro da manga do vestido. Ao virar me deparo com a Profa. Massima e seus dedos fininhos a arrumar as costas da minha indumentária coral.  “Estava aparecendo”, ela me disse. Voltei a cabeça para frente e permiti que terminasse o meu figurino de concerto, mexendo com destreza e leveza o tecido. Aproveitei o momento. Até porque acho que desde os quatro anos que alguém não me ajuda a vestir, só vendedoras interesseiras; esperançosas de que a peça oferecida me caísse bem. Naquele instante comecei a achar que não seria tão frio e distante tê-la como mãe.

Uma outra vez, ao sair de um ensaio fui interpelada (pelas costas outra vez!) com um “Está tudo bem?”, assim, do nada. Como dificilmente consigo me abrir o suficiente para dizer “Não, hoje estou me sentindo um lixo pelos mais variados motivos”, usei da técnica covarde de devolver uma pergunta com outra.
“Por quê?”, respondi.
“Te vi quietinha lá no fundo da sala o ensaio todo.”

Desconversei, dizendo que estava com muito sono, o que era verdade, mas não quis dizer o porquê. Só conseguir pensar na montanha de sensibilidade com a qual tinha esbarrado.

E, num dos ensaios finais do Réquiem de Brahms, enquanto o Maestro convidado passava a peça conosco, a vi lá no fundo da sala, conversando com uma menininha. A garotinha prestava muita atenção e, lá pelas tantas, vi que Massima regia recatada, com as mãos bem perto do papel, e a pequena só olhava concentrada. Fiquei imaginando o que ela tinha dito para interessar tanto uma criança. Concluí que ela devia ser divertida. Mais tarde as monitoras comentavam entre si: “Coitada da filha da Massima, ter que ficar até tarde aqui, sem ter o que fazer.” Então, a tal menininha era a filha dela!

Naquele dia eu fiquei triste. Triste porque nunca tinha me entretido daquela forma com a minha própria mãe. Triste por não ser mais uma menininha. Triste por motivos que nem Freud explica. Triste por só assistir, passar de longe assim, por mim a maga. A maga das batutas.

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