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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

24 horas na vida de uma adolescente bissexual

Disclaimer: Se você for meu pai, por favor, não leia esse texto!!!


Emma e Adèle


Caros leitores,

Diferente do que afirmei no último post, cá estou eu de volta à ativa. E também não tinha como não retornar, devido a uma necessidade de protesto que cresceu em mim. Como devem saber, sou grande defensora do respeito à mulher. Acredito numa sociedade que, num lindo dia, considere suas cidadãs por sua inteligência, integridade, honestidade e não pelo tamanho de seu derrière. E que sejam valorizadas outras contribuições suas para a comunidade além dos filhos que gerou e como os criou.

No início de dezembro, um amigão meu, super cinéfilo, vem me dizer que viu um filme que o agradou muito, "Azul é a cor mais quente". Não tinha ouvido falar, só visto por alto na programação do jornal. Aí ele me explicou que tinha dado polêmica devido a uma cena de sexo um tanto longa (cerca de oito minutos, o que é meio fora dos padrões para o cinema não pornô). Porém, achou que o filme era belíssimo e valia muito a pena, daqueles que marcam. Inclusive acrescentou ser exagerada a execração em torno da tal cena. Sugeri então que ele escrevesse uma resenha sobre o filme e eu, por minha vez, assistiria ao tal "Azul é a cor mais quente". E eis que na noite passada eu separei três longas horas para honrar meu "acordo de cavalheiros".

E o que não é um olhar feminino sobre um determinado assunto! Achei o filme entediante — longo em demasia para o conteúdo a ser abordado — e muito machista. Nesse instante você se levanta da cadeira, revoltado(a) e brada: 'Mas essa moça é uma moralista! Onde já se viu? Só por causa de uma ceninha de cama gay (cuja duração representa apenas 5% do filme) ela acusa o diretor de ser sexista!?! Mas como? Se é um filme sobre o amor livre entre duas mulheres? Ela deve ser mal resolvida ou homofóbica. Análise nela!'

Pois eu digo: o filme é sim machista e, mesmo sendo heterossexual da unha do pé ao último fio de cabelo, afirmo que a relação entre Adèle e Emma representa a fantasia de seus realizadores acerca de um relacionamento entre duas mulheres. Por que?

Para começo de conversa, uma das razões que compromete "Azul é a cor mais quente" é a forma escolhida para o desenrolar da história. Me remeteu aos idos de 2002/3, quando um aluno me relatou com empolgação o início de uma série de TV contada de uma forma inédita: cada episódio seria uma hora na vida de um agente da CIA. Me lembro de ter dito: "Mas como? Se ele for dormir, os últimos oito episódios serão nulos." É assim que você se sente assistindo a "Azul". Os minutos se arrastam num torpor sem fim; um quase Big Brother familiar/escolar da rotina. Longos cento e oitenta minutos para desfiar um enredo que já foi supra-utilizado em incontáveis comédias românticas e novelas mundo afora.

Adèle e Emma

Além disso, o relacionamento amoroso entre Adèle e Emma não se trata de um envolvimento homossexual. Só esqueceram de escalar um ator para o papel de Emma. Ingenuidade achar que uma lésbica masculinizada é um homem em corpo de mulher. Digo isso do ponto de vista feminino. Será que alguém já parou para pensar por que uma mulher escolhe viver com outra? Indispensável é a atração pelo mesmo gênero. Mas, indo mais a fundo, dividir o mesmo espaço com um homem é complicado. Em sua maioria encontram-se — em diferentes níveis — imaturos, dependentes e egoístas. Sabe aquela coisa de terminar o almoço de domingo, arrotar e ir ver tv enquanto a esposa fica lavando a louça e arrumando a cozinha? (Os mais abusados ainda têm o desplante de pedir que a mulher leve-lhe uma "cervejinha") Há homens companheiros, sim (ainda bem!), mas continuam sendo em número reduzido. Acho que se eu tivesse uma tendência a me envolver com mulheres nunca que preferiria ir morar com um homem.

E como se não bastassem os absurdos de cunho psicológico, lá vêm os famigerados oito minutos de sexo entre duas mulheres.

Bem, fui criada por uma mãe portadora de referenciais bem plásticos com relação à exposição de crianças a conteúdo sexual. Quando contava quatro aninhos, em 1988, assistia junto dela à primeira reprise de "Dona Beija". Vi todas as novelas das oito que quis, comando da madrugada e algumas pornochanchadas. Tudo ao lado de mamãe. E apesar de controversa, achei a abordagem muito saudável pois nasceu em mim precocemente uma questão, até ontem sem solução satisfatória.

Por que o nu masculino é tão raro? É, gente. Com tanta exposição a material erótico como é que eu consegui passar minha infância incólume, sem a visão de uma sombra sequer do genital masculino? Não dava para ver nem os pelinhos, quiçá o resto! Mas peito, bunda e nu frontal feminino era só o que tinha. Bem, para isso serviu "Azul é a cor mais quente". Não, não é isso! À beira dos trinta, aquele relance de pau na cena de sexo entre os personagens Adèle e Thomas não foi a novidade.

O longa veio elucidar o mistério. Mesmo num filme sobre a descoberta da homossexualidade e a difícil transição da adolescência para a idade adulta, o diretor consegue fazer de cada cena de nudez e/ou de sexo um deleite ao público masculino. Era peito, bunda e mulher gostosa sem a menor cerimônia. (Qual será a proporção de homens no júri do Festival de Cannes, hein?) De repente, a questão que pairou durante anos tinha sua resposta lá, em duas jovens atrizes se prestando a um papel digno de um honestíssimo filme pornô. Porque o mundo é machista e a indústria do Cinema e Televisão, grosso modo, ainda norteia o sexo a partir da óptica do homem. Sendo assim, a mulher vira carne exposta em vitrine de açougue.

Os mais puristas afirmam que, por ser o Cinema uma Arte, o sexo retratado nesse ínterim é uma expressão necessária. Pois é, até aí o diretor escorrega. Porque a impressão que se tem é que (não fosse pela fisionomia das personagens) uma cena de um pornô fora incorporada durante a edição.  Tudo transpira pornô: a depilação completa de ambas personagens é extremamente inverossímil. Duas francesas, as quais têm fama de não tirarem nem o pêlo das axilas, uma de 16 anos classe média baixa e a outra uma artista plástica masculinizada; ambas sem um pêlo pubiano. Para adicionar, a câmera fecha sempre nos genitais, faltando muito pouco para vermos "tudo". E a gritaria? Excessiva e muito típica. Para dizer a verdade, não fosse pelo currículo das duas atrizes que protagonizam a cena, pensaria terem tido experiência prévia no ramo x-rated. E a cereja do bolo: Adèle em sua primeira experiência com outra mulher se revela uma "pro", totalmente à vontade e sem hesitações.


História da carochinha para homem se divertir vendo duas gostosas se pegando. De um "péssimo mau gosto", pleonasmo tão em voga depois de cunhado pelo nosso digníssimo Arcebispo.
Não! Não sejamos injustos com o ramo pornô, de uma franqueza rara. Eles não se escondem atrás de uma máscara de grandes orçamentos e pompa. Sem rodeios oferecem aquilo que o público quer: cenas de sexo para um propósito muito bem definido. E a paga por tanta honestidade? São discriminados e achincalhados como a escória da humanidade.

Em suma, meninada púbere, se seus pais não liberaram o "playboy tv" para vocês, baixem "Azul é a cor mais quente". Não, não é um filme francês para intelectual sobre homossexualidade. Só vão ter que agüentar três horas de encheção de lingüiça colocadas para disfarçar entre duas ou três cenas de um pornozinho maneiro. 
Bem, pelo visto seu diretor conseguiu o que queria com a baixaria. Está todo mundo falando (inclusive a idiota ultrajada aqui) e o filme está causando.
Amigos, a máxima fica novamente provada: sexo vende!
E compra! Agora até a Palma de Ouro no Festival de Cannes.


 

2 comentários:

  1. Excelente resenha!
    Eu me diverti bastante com ela, principalmente pela parte da depilação! Realmente! Bem pouco provável rs... Uma amiga lésbica mestranda em cinema me indicou rs... Agora fiquei mais curiosa ainda.

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