Páginas

domingo, 7 de dezembro de 2014

Tríptico de Natal



Fim de ano é aquela agitação. Luzes para todos os lados, gente se acotovelando nos supermercados. À noite, as sacolas não param. Mais dignas e soberbas que as dos mercados, é verdade, mas continuam para lá e para cá, saindo de seus estabelecimentos comerciais para ganhar lugar em alguma sala, embaixo de um pinheiro adornado, na maior parte das vezes artificial.
Tenho as melhores lembranças dos Natais da minha infância. Vivências mais simples do que as de hoje, mas não por isso menos marcantes. Na sala de visitas ostentava-se o mais importante: o presépio. A gruta de papel pedra, muito bem amassado e modelado sobre o aparador, abrigava com harmonia todos os integrantes da cena da natividade. Depois, na copa, montava-se a árvore. Bolinhas de vidro fino de vários tamanhos e cores com uma estrela no topo. As luzes piscantes ainda não tinham chegado, pelo menos lá em casa.
A noite do dia 24, passávamos invariavelmente com a família do meu pai; ou na casa da vó Elvira ou na casa da tia Lica. Por motivos que desconhecia, a vó Rosa ficava sozinha em nossa casa. Não se juntava a nós nem comemorava do seu lado da família. Na manhã do dia 25, tia Rita e o tio Platão faziam uma visita e entregavam presentes para todos. Tia Rita contava as histórias mais alegres sobre a ceia da noite anterior. Tudo soava tão animado e alegre, não entendia por que não íamos de vez em quando. Mas Natal tem essa aura de mistério para as crianças. Lugares intocáveis, situações delineadas muito antes de nossa existência, às quais mesmo incompreensíveis, acatamos.
Mas minha obstinação maior era uma pessoa muito difícil de encontrar: Papai Noel.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O pai, o filho e o tigre: o homem contra si mesmo num dominó de loucos

Queridos leitores,


Voltei. Novamente não por opção, mas por necessidade.



'Uma situação escancara dois cancros velados da sociedade. Calorosos têm sido os comentários em redes sociais em defesa do tigre do mal-fadado episódio no zoológico de Cascavel, no Paraná. Devo confessar (e prevejo que minha revelação incitará a revolta de muitos) senti um prazer sádico ao saber que o garoto tivera o braço amputado. 'Delícia', exclamei e segui triunfante para a cozinha; meu dia começava melhor. Por quê?

terça-feira, 13 de maio de 2014

Funcionando Sob Pressão

Caros leitores, 

Não comentei antes com vocês porque não achei que fosse acabar postando sobre isso aqui no blog, mas eu me inscrevi numa oficina de Conto com a professora Cláudia Lage, na Estação das Letras. Nossa primeira aula foi ontem e até agora gostei de tudo. Inclusive, já temos dever de casa para esta semana! Já que não tenho publicado minhas últimas criações por aqui resolvi dividir este primeiro exercício com vocês.  Peço perdão pela edição, contava que o google drive fosse ter os caracteres musicais que eu precisava e... eles não tinham! Então pode ser que fique meio estranho. Mas a intenção foi boa! Vamos lá?




SUÍTE


I. Allegro Claudicante
                    Bel pugilou longas horas com o travesseiro.Cogitou levantar e escrever na sala como de costume. E só sair de lá depois de desovada a inspiração.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Aval à mediocridade

Machado de Assis engraçado
Caricatura de Machado de Assis


Viver é estar em constante mutação. É ter de reavaliar sem cessar suas escolhas e conceitos. Lembro-me de quando voltei, aos dezesseis anos, de um ano de intercâmbio no sul dos EUA. Antes de partir eu detestava o Brasil; paísinho atrasado subdesenvolvido. Bastou uma sabática estada num high-school do Mississippi assistindo a marmanjos levando corretivos a palmatória (instrumento lendário até então, presente somente nas lembranças escolares de minha avó em conjunto com a genuflexão no milho) entre outras posturas retrógradas, para eu reconsiderar melhor meu pobre país.
Voltei idealista, decidida a ser o agente auxiliar transformador da minha pátria. Adolescente é sempre um grandissíssimo ingênuo com ilusões de mudar o mundo. E lá se vão quase quinze anos. Não que amar o Brasil esteja fora dos meus planos; acho que isso não é mais uma opção. Não há como morar dez anos no Rio de Janeiro sem ter um grande caso de amor com a nação. Só que já não posso dizer que tenho o mesmo sentimento pelos meus compatriotas.
Brasileiro é um ser com vocação para a mediocridade.

sábado, 22 de março de 2014

Tela sobre duas rodas

Entrando numa vibe minimalista, depois de uma experiência que eu deveria repetir mais vezes. Desta vez não vou ficar me explicando: quem entender o poema, maravilha! Se não entender, só lamento.




TELA SOBRE DUAS RODAS




Um passo,
um impulso,
ganho a rua,
cruzo o sinal.



E veloz,

quinta-feira, 6 de março de 2014

Quinze anos depois: lembrando a vida e a obra de Stanley Kubrick

Por Fernando Loureiro



Há exatos 15 anos, no dia 7 de março de 1999, falecia, em sua residência na Inglaterra, o cineasta estadunidense Stanley Kubrick. Ao longo de 46 anos de carreira Kubrick lançou apenas 13 longas-metragens. No entanto seus filmes o fizeram ser considerado por críticos e por seus colegas de ofício como um dos maiores cineastas de toda a história do cinema.


Nascido no Bronx, na cidade de Nova York, a 28 de julho de 1928, filho de um médico e de uma dona de casa, ambos descendentes de imigrantes judeus da Europa Oriental, Kubrick iniciou sua vida profissional aos 16 anos de idade, como fotojornalista da revista Look, de Nova York, atividade que dividia com a paixão pelo xadrez, música clássica e jazz. Autodidata, era ávido espectador de filmes de arte no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MOMA, onde assistiu aos grandes clássicos do cinema mudo e filmes europeus e estadunidenses da primeira metade do século XX. Assistia a aulas de filosofia, sociologia e psicologia, como ouvinte, na Columbia University, mas, no entanto, as notas medianas do jovem Stanley no ensino médio não tornaram fácil sua entrada numa universidade e ele acabou nunca cursando o ensino superior.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

24 horas na vida de uma adolescente bissexual

Disclaimer: Se você for meu pai, por favor, não leia esse texto!!!


Emma e Adèle


Caros leitores,

Diferente do que afirmei no último post, cá estou eu de volta à ativa. E também não tinha como não retornar, devido a uma necessidade de protesto que cresceu em mim. Como devem saber, sou grande defensora do respeito à mulher. Acredito numa sociedade que, num lindo dia, considere suas cidadãs por sua inteligência, integridade, honestidade e não pelo tamanho de seu derrière. E que sejam valorizadas outras contribuições suas para a comunidade além dos filhos que gerou e como os criou.

No início de dezembro, um amigão meu, super cinéfilo, vem me dizer que viu um filme que o agradou muito, "Azul é a cor mais quente". Não tinha ouvido falar, só visto por alto na programação do jornal. Aí ele me explicou que tinha dado polêmica devido a uma cena de sexo um tanto longa (cerca de oito minutos, o que é meio fora dos padrões para o cinema não pornô). Porém, achou que o filme era belíssimo e valia muito a pena, daqueles que marcam. Inclusive acrescentou ser exagerada a execração em torno da tal cena. Sugeri então que ele escrevesse uma resenha sobre o filme e eu, por minha vez, assistiria ao tal "Azul é a cor mais quente". E eis que na noite passada eu separei três longas horas para honrar meu "acordo de cavalheiros".

E o que não é um olhar feminino sobre um determinado assunto! Achei o filme entediante — longo em demasia para o conteúdo a ser abordado — e muito machista. Nesse instante você se levanta da cadeira, revoltado(a) e brada: 'Mas essa moça é uma moralista! Onde já se viu? Só por causa de uma ceninha de cama gay (cuja duração representa apenas 5% do filme) ela acusa o diretor de ser sexista!?! Mas como? Se é um filme sobre o amor livre entre duas mulheres? Ela deve ser mal resolvida ou homofóbica. Análise nela!'

Pois eu digo: o filme é sim machista e, mesmo sendo heterossexual da unha do pé ao último fio de cabelo, afirmo que a relação entre Adèle e Emma representa a fantasia de seus realizadores acerca de um relacionamento entre duas mulheres. Por que?

Para começo de conversa, uma das razões que compromete "Azul é a cor mais quente" é a forma escolhida para o desenrolar da história. Me remeteu aos idos de 2002/3, quando um aluno me relatou com empolgação o início de uma série de TV contada de uma forma inédita: cada episódio seria uma hora na vida de um agente da CIA. Me lembro de ter dito: "Mas como? Se ele for dormir, os últimos oito episódios serão nulos." É assim que você se sente assistindo a "Azul". Os minutos se arrastam num torpor sem fim; um quase Big Brother familiar/escolar da rotina. Longos cento e oitenta minutos para desfiar um enredo que já foi supra-utilizado em incontáveis comédias românticas e novelas mundo afora.

Adèle e Emma

Além disso, o relacionamento amoroso entre Adèle e Emma não se trata de um envolvimento homossexual. Só esqueceram de escalar um ator para o papel de Emma. Ingenuidade achar que uma lésbica masculinizada é um homem em corpo de mulher. Digo isso do ponto de vista feminino. Será que alguém já parou para pensar por que uma mulher escolhe viver com outra? Indispensável é a atração pelo mesmo gênero. Mas, indo mais a fundo, dividir o mesmo espaço com um homem é complicado. Em sua maioria encontram-se — em diferentes níveis — imaturos, dependentes e egoístas. Sabe aquela coisa de terminar o almoço de domingo, arrotar e ir ver tv enquanto a esposa fica lavando a louça e arrumando a cozinha? (Os mais abusados ainda têm o desplante de pedir que a mulher leve-lhe uma "cervejinha") Há homens companheiros, sim (ainda bem!), mas continuam sendo em número reduzido. Acho que se eu tivesse uma tendência a me envolver com mulheres nunca que preferiria ir morar com um homem.

E como se não bastassem os absurdos de cunho psicológico, lá vêm os famigerados oito minutos de sexo entre duas mulheres.

Bem, fui criada por uma mãe portadora de referenciais bem plásticos com relação à exposição de crianças a conteúdo sexual. Quando contava quatro aninhos, em 1988, assistia junto dela à primeira reprise de "Dona Beija". Vi todas as novelas das oito que quis, comando da madrugada e algumas pornochanchadas. Tudo ao lado de mamãe. E apesar de controversa, achei a abordagem muito saudável pois nasceu em mim precocemente uma questão, até ontem sem solução satisfatória.

Por que o nu masculino é tão raro? É, gente. Com tanta exposição a material erótico como é que eu consegui passar minha infância incólume, sem a visão de uma sombra sequer do genital masculino? Não dava para ver nem os pelinhos, quiçá o resto! Mas peito, bunda e nu frontal feminino era só o que tinha. Bem, para isso serviu "Azul é a cor mais quente". Não, não é isso! À beira dos trinta, aquele relance de pau na cena de sexo entre os personagens Adèle e Thomas não foi a novidade.

O longa veio elucidar o mistério. Mesmo num filme sobre a descoberta da homossexualidade e a difícil transição da adolescência para a idade adulta, o diretor consegue fazer de cada cena de nudez e/ou de sexo um deleite ao público masculino. Era peito, bunda e mulher gostosa sem a menor cerimônia. (Qual será a proporção de homens no júri do Festival de Cannes, hein?) De repente, a questão que pairou durante anos tinha sua resposta lá, em duas jovens atrizes se prestando a um papel digno de um honestíssimo filme pornô. Porque o mundo é machista e a indústria do Cinema e Televisão, grosso modo, ainda norteia o sexo a partir da óptica do homem. Sendo assim, a mulher vira carne exposta em vitrine de açougue.

Os mais puristas afirmam que, por ser o Cinema uma Arte, o sexo retratado nesse ínterim é uma expressão necessária. Pois é, até aí o diretor escorrega. Porque a impressão que se tem é que (não fosse pela fisionomia das personagens) uma cena de um pornô fora incorporada durante a edição.  Tudo transpira pornô: a depilação completa de ambas personagens é extremamente inverossímil. Duas francesas, as quais têm fama de não tirarem nem o pêlo das axilas, uma de 16 anos classe média baixa e a outra uma artista plástica masculinizada; ambas sem um pêlo pubiano. Para adicionar, a câmera fecha sempre nos genitais, faltando muito pouco para vermos "tudo". E a gritaria? Excessiva e muito típica. Para dizer a verdade, não fosse pelo currículo das duas atrizes que protagonizam a cena, pensaria terem tido experiência prévia no ramo x-rated. E a cereja do bolo: Adèle em sua primeira experiência com outra mulher se revela uma "pro", totalmente à vontade e sem hesitações.


História da carochinha para homem se divertir vendo duas gostosas se pegando. De um "péssimo mau gosto", pleonasmo tão em voga depois de cunhado pelo nosso digníssimo Arcebispo.
Não! Não sejamos injustos com o ramo pornô, de uma franqueza rara. Eles não se escondem atrás de uma máscara de grandes orçamentos e pompa. Sem rodeios oferecem aquilo que o público quer: cenas de sexo para um propósito muito bem definido. E a paga por tanta honestidade? São discriminados e achincalhados como a escória da humanidade.

Em suma, meninada púbere, se seus pais não liberaram o "playboy tv" para vocês, baixem "Azul é a cor mais quente". Não, não é um filme francês para intelectual sobre homossexualidade. Só vão ter que agüentar três horas de encheção de lingüiça colocadas para disfarçar entre duas ou três cenas de um pornozinho maneiro. 
Bem, pelo visto seu diretor conseguiu o que queria com a baixaria. Está todo mundo falando (inclusive a idiota ultrajada aqui) e o filme está causando.
Amigos, a máxima fica novamente provada: sexo vende!
E compra! Agora até a Palma de Ouro no Festival de Cannes.


 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A Maga das Batutas

Amigos, voltei! Não para valer, pois há muitos projetos pelo caminho. Mas vejam só como coisas ruins podem trazer coisas boas. Conversando com um amigo acerca da abrutalhada imagem da desagradável representante da nossa nação, lembrei desta crônica que escrevi. Foi tão bom poder revisar e melhorar uma lembrança tão positiva e singela de uma pessoa. E me lembrar de fatos que já estavam no limbo da memória. Para ela, a profa. Massima, um abraço apertado e, onde quer que esteja, tenho certeza de que continua sendo o máximo!


A Maga das Batutas 

À maga, regente, 
 minha professora de Canto Coral na Universidade,
de quem preservo a verdadeira identidade,
a fim de proteger sua privacidade.




regente de canto coral


Definitivamente. Quando me inscrevi em Canto Coral não poderia sequer imaginar me deparar com uma figura que me intrigaria de forma tão intensa e peculiar. E muito menos alguém por quem eu viria a nutrir tanto respeito e admiração.



Bem, decidi me inscrever na matéria a conselho de um amigo, para melhorar o ouvido e, em conseqüência, a performance nas aulas de ditado e solfejo. Apesar de não serem obrigatórias para o curso de Piano na Universidade, gostei tanto que continuei fazendo Coral até esgotarem-se os níveis disponíveis da disciplina. Várias foram as razões que me fizeram tomar gosto pelo canto em grupo. Mas conhecer e ter contato com a regente, a professora Massima, foi uma das experiências mais proveitosas e valorosas da minha vida.
A professora Massima mais parecia um homem.