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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Walesa, o filho da Polônia


Resenha - Walesa, o Homem da Esperança


Quase uma semana de festival e eu me esforçando para que o blog acompanhe o ritmo da minha programação. Ontem, reservei o dia para descançar a cabeça e o corpo. E resenhar. Mas, só consegui escrever sobre o documentário Mr. Angel, da minha sessão de domingo. E aí cansei. Aliás, peço desculpas aos leitores se a qualidade e a riqueza do texto se encontra comprometida, mas são muitos filmes e eu ainda tenho meu trabalho, meus estudos e minha casa (sem empregada) para cuidar. Espero que esteja conseguindo dar uma idéia dos assuntos tratados nos filmes e minha impressão pessoal, para  assim ajudá-los a decidir nesse mar sem fim de títulos e exibições.

Escolhi o filme "Walesa - o homem da esperança", do célebre diretor Andrzej Wajda, por contar a trajetória de Lech Walesa, eletricista de um estaleiro de Gdansk, na Polônia, que conseguiu mobilizar e liderar a classe operária durante o regime comunista através da fundação do Solidariedade, um sindicato independente que, depois da queda da União Soviética, tornou-se um partido. É definitivamente uma escolha acertada para quem deseja conhecer um pouco mais da história da Polônia e do comunismo no Leste Europeu.

O diretor Andrzej Wajda

Se você não mora no Rio ou não terá tempo para comparecer a uma das limitadas sessões do festival tenho uma boa notícia: "Walesa" terá lançamento nacional no primeiro semestre de 2014. E mãos à resenha!

A narrativa se desenrola através de dois planos concomitantes. A entrevista cedida por Walesa à jornalista italiana Oriana Falacci pontua a história de vida do sindicalista e político. Apesar da sinopse construir um Walesa com superpoderes, capaz de unir a classe trabalhadora, derrubar o Comunismo na Polônia e inaugurar a derrocada do regime soviético, quem tem sensibilidade perceberá que não é assim que o longa o retrata. É sutil, mas não esquecida sua colaboração — mesmo que forçada — como informante da polícia dentro do estaleiro durante os anos 1970 e na incisiva pergunta que Falacci faz ao seu motorista sobre o apartamento da família Walesa ter sido concedido pelo governo (ao qual Walesa faz oposição). Diferente da impressão passada pela publicidade da produção, Walesa não era um simples eletricista com dons de liderança. Apesar de não ser um intelectual, era mais instruído do que a grande massa com a qual lidou e tinha, como ele mesmo afirma em sua entrevista para a repórter, intuição. Era pobre (afinal estamos falando de comunismo, todo mundo exceto quem está no poder é pobre) porém não miserável, e chefe de uma legítima (e numerosa) família católica. Seu perfil colaborou para que contasse com o apoio e confiança do povo na fundação do Solidariedade e na condução da série de greves que sacudiram a Polônia no início dos anos 1980.

E, para bom entendedor meia palavra basta. Ou uma meia dúzia de cenas, afinal é impossível não notar a forte interferência da Igreja Católica nos rumos da política. Ouso afirmar que talvez este tenha sido o momento na Idade Contemporânea em que o Vaticano mais agiu como Estado e não como Santa Sé, usando sua influência para alterar definitivamente os rumos da Europa oriental. Ao eleger um Papa polonês, a Igreja voltou os olhos do mundo para a região e João Paulo II usou de seu papado sem hesitar, a fim de colaborar com a queda do regime.


Entretanto, não podemos desprezar a importância de Walesa para a História. Lech Walesa foi um líder, o símbolo maior que os pequeninos esperam. Fracos perante um regime massacrante, o grande herói é necessário e ansiado; aquele que inspira, que dá força e arrebata multidões. Ele foi o esteio e um espelho para a luta popular. (qualquer comparação com Lula não terá sido mera coincidência)


Destaque também para a construção dos personagens, todos (independente de posição política) retratados de forma humana, o que ajuda a diluir uma idéia arraigada de "bandidos e mocinhos" no cenário político. E, seria injusta se não mencionasse o grande apoio do herói: sua valente esposa Danuta, que criou com boa vontade e coragem sete filhos num Estado totalitário comunista. Ou seja: sem máquina de lavar, empregada, nem microondas; nada destas regalias dos porcos capitalistas ocidentais. E ainda tinha que lidar com as demissões sofridas pelo marido devido ao seu engajamento político e a constante ameaça de prisão e morte.

A verdadeira Danuta Walesa com seus filhos

E, finalmente, para as gerações mais novas (principalmente as do lado de cá da antiga Cortina de Ferro) "Walesa - o homem da esperança" serve para sermos um pouco mais gratos pelo que temos. Fica ridículo nossa manha por não termos o último tipo de smartphone ou uma tv 3D "topmaxfullHD" depois de vermos uma mulher ter que usar o mesmo carrinho de bebê para todos seus seis filhos, um prédio inteiro se reunir numa sala pequena para assistir a um programa televisivo no único aparelho do edifício e pessoas se engalfinhando para garantir víveres cada vez mais caros a uma população pobre e sem perspectiva. E pensar que coisa pior existe, e até hoje.

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