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sábado, 5 de outubro de 2013

Papai não me batizou estrela...

Papai me ensinou a brilhar como uma!



Recentemente, uma pessoa a qual estou ligada por laços que não ousarei expor, a fim de preservar sua privacidade e identidade, comentou que pagou para batizar uma estrela específica com o nome de sua filhinha, um bebê de alguns meses de vida. Achei um gesto bonito e simbólico. Porém, a meu ver, algumas exortações se fazem necessárias, visto que fui filha e, agora já adulta, vejo o quanto a postura do meu pai foi valiosa para a pessoa que sou hoje. E, como essa relação pai-filha de meu conhecido com sua garotinha é praticamente um livro ainda em branco, vale a pena mostrar-lhe o quanto um pai é importante na vida de seus filhos.

Quando nasci, a alegria de pápilo foi tamanha que a altos brados disse que me daria um carro quando eu fizesse dezoito anos. Estou há onze anos esperando o tal carro. Entretanto não fico nem um pouco triste por papai não ter cumprido sua "promessa". Aquela foi uma epifania circunstancial; um gesto carregado de emoção. Assim como dar o nome de um bebê para uma estrela. Para mim valeram muito mais todas as suas manifestações de amor e apego em momentos de plena razão. Decisões na sobriedade são mais difíceis e preciosas.


Seu lado professor pardal o fez desenvolver engenhocas que tornaram a relação com mamãe nos meus primeiros meses de vida mais aconchegante e prazerosa. Retirou uma das guardas do meu berço, acoplando-o à cama. Minha mãe nem precisava levantar para amamentar. Era eu chorar e seu braço me puxava para seu seio; mãe e filha tranqüilas em sintonia. Na minha primeira infância ela lecionava em São Paulo e chegava em casa tarde da noite. Felizmente minha avó materna morava conosco e assim alguém tomava conta de mim. Porém, papai não almoçava durante este período: saía da fábrica correndo no intervalo da refeição para, rapidamente, me banhar e trocar a fralda (a qual, colocada pela minha avó já idosa, se encontrava àquela altura para lá do joelho). Nas noite em que mamãe tinha que trabalhar até mais tarde, lá ia ele cantar para mim e minha irmãzinha para nos fazer dormir.

Papai só teve duas meninas. E esta talvez seja a maior prova de amor que tenha dado: nunca nos tratou com diferença. Nos mostrou como fazer pipa e nos ensinou a empiná-las, a andar de bicicleta, jogar bola, ouvir Van Halen e investiu em nossa educação sem qualquer preconceito de gênero. Apesar de eu não ter me interessado nem um pouco pela mecânica dos carros, tenho que admitir que não foi por falta de empenho de meu genitor. Me lembro que quando tinha uns nove anos uma professora do trabalho da mamãe lhe perguntou: "Mas vocês não quiseram tentar um menino???" Achei absurda a pergunta. Mas, intrigada, fui saber com meu pai se o tal menino não fazia falta. Sua resposta? "Nunca me preocupei com isso."

E assim o tempo seguiu. Meu pai, apesar de ter lá seus grilos como todo mundo, era um homem bastante estável e foi para nós um baluarte de segurança diante da instabilidade emocional e imaturidade de minha mãe. Tudo que precisava, ele nos deu. Não mediu esforços para prover por nós e investir em nosso futuro. Provavelmente por essa razão tenha sido tão difícil para mim, no fim da adolescência, perceber seus defeitos sem me espantar e me decepcionar. Ver o meu herói, aquele que fez todos os sacrifícios por mim e minha irmã, como um homem de carne e osso foi um golpe duro. Mas pelo o qual eu teria que passar mais cedo ou mais tarde.

Quando estava nos EUA em intercâmbio, virava, mexia e eu gastava bem mais do que os padrões da minha família (imaginem uma garota de quinze anos, longe dos pais e sozinha com um cartão de crédito). Num desses meses de gastos excessivos, no comecinho da noite, recebi um telefonema do meu pai. Logo pensei: 'vai me dar a maior bronca porque gastei uma nota no cartão.' Meu queixo caiu. Meu pão duríssimo pai, famoso pelas maiores aberrações em nome da economia, me ligou porque estava em escala noturna no trabalho e, contemplando minha foto na mesa em meio à madrugada, sentiu saudade e pensou em me telefonar. Isto era prova de amor, carinho, afeição e compromisso. Ainda no âmbito do apoio financeiro, me recordo bem de uma vez que ele foi me buscar na professora particular de matemática (já havia alguns anos que terminara o colégio, estudar para o vestibular sozinha não estava fácil) e lhe entreguei o bilhetinho mensal com a conta das aulas. Ele abriu a carteira no portão mesmo e me deu o dinheiro, dizendo que me esperava ali. Lembro da exclamação da dona Maria Helena ao vislumbrar tão instantâneo pagamento: "Ah, mas o seu pai é do tipo modelo, hein? Sempre a postos. Desses que não se fazem mais." Não é estranho que eu me espante hoje em dia com a situação degradante de mães que entregaram a guarda de seus filhos ao ex-marido. Motivo? Só a pensão não seria suficiente para criá-los com decência e os ex se recusavam a dar qualquer centavo a mais do que o estipulado por lei. Se meu pai faria isso com mamãe se eles se separassem? Duvido. Papai deixava de comprar coisas para ele, mas fazia mundos e fundos para satisfazer nossas necessidades. E sem dor na consciência.

Papai sempre acreditou em mim. Ele não precisava dizer. Suas atitudes mostravam. Assim, cresci segura e desenvolta para ser o que eu quisesse. Não que eu tenha sabido bem o que fazer com esse querer. E até hoje, eu sei que ele ainda acredita muito em mim e no meu sucesso pessoal e profissional. E me apóia incondicionalmente. Vejam o mais recente exemplo: durante uma missa de Natal, fui hostilizada por um padre que se recusou a me dar a Eucaristia direto na boca. Imaginem, como eu vou pegar Jesus com a mão??? Nem pensar. Chorava como criança diante de tal ato de repúdio e indiferença. Voltei para o Rio triste, mas decidida a entrar em contato com meu confessor, para saber se estava certa ou se era o caso de me arrepender por soberba. E eis que mal chego em casa e vejo um email do meu pai — ateu ferrenho, daqueles de entrar nos maiores embates com pessoas de fé, defensor da "verdade" da laicidade —  que portava o seguinte título: o padre estava errado. Em seu conteúdo, um link de um site super fidedigno da Igreja Católica contendo a encíclica "Redemptionis Sacramentum", do Papa João Paulo II. Lá, a prova de que o padre tinha por obrigação me deixar comungar como eu quisesse. Ele pesquisou na internet sobre o assunto! Depois ainda fiquei sabendo pela mamãe que ele foi falar com um parente nosso católico, queria que ele intervisse junto ao Bispo acerca da leviandade cometida. Fiquei estupefata. Ele colocou toda sua descrença de lado e foi defender aquilo que para mim era importante. Deus não podia querer um pai mais justo e dedicado.

Se houve problemas? Lógico! Ninguém é perfeito. Tentou me dar cultura e eu aprendi direitinho como adquiri-la. Tão bem que o feitiço se voltou contra o feiticeiro e hoje, intelectual bestinha que sou, acabo por me opor a ele. Sua origem operária e simples muitas vezes o limita e acabamos por nos desentender. Papai não me deu o carro, nem roupa de boutique; tinha lá seu jeito durão, controlador. Não deu me batizou estrela, mas me ensinou seus nomes e significados. Ficará estampada para sempre em minha memória a noite em que aprendi como a terra girava. A copa toda escura, e uma luminária forte acesa, projetada em direção à parede. Uma bola de tênis contra a luz girava lentamente, em torno de si mesma e de outro objeto (provavelmente a própria luminária),  que fazia as vezes do Sol. Sua sombra era como mágica! Ali, eu vi o céu na parede, em todo o seu esplendor. E depois, mais velha, senti o friozinho na barriga de ver passar um meteoro, logo depois de papai ter me explicado o que era. Exatamente como acontecera com ele quando criança. Ele não deu meu nome a uma estrela, mas me mostrou, acima de tudo, que eu tenho força e capacidade para brilhar muito mais do que qualquer uma. Ah, se todas as meninas tivessem o pai que eu tenho, o mundo definitivamente seria um lugar diferente para nós, muito mais lindo, amplo e cheio de oportunidades.

Espero que meu amigo não se zangue. Não tentei nem tenho intenção de menosprezar seu gesto. Mas, aqui é como uma festa de casamento e eu estou aqui no lugar do padre, para lembrar que as bodas e a lua-de-mel são um início, lindo e doce, mas, depois que acaba, é no dia-a-dia que o casamento vai se consolidando, assim como a relação dos pais com seus filhos. De nada adianta simbolismo se não demonstrar por meio de atitudes cotidianas a força incomensurável do amor paterno. Acima de tudo, desejo de todo o coração que quando sua filha chegar à minha idade, seu testemunho possa ser ainda mais positivo e que vocês dois sejam muito unidos e amigos.

Um beijo grande e sincero em vocês.

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