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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Resenha - documentário Mr. Angel

Resenha - documentário Mr. Angel



De volta às minhas impressões do Festival do Rio. Quem quiser ver pode ver as resenhas de Nordstrand e os Filhos de Hitler aqui no blog. O lado bom de ter uma programação pessoal intensa é que selecionamos alguns filmes e simplesmente esquecemos dos pormenores do tema. E no caso do documentário de domingo, Mr. Angel, foi a melhor coisa que podia acontecer.

No início, Buck Angel, um homem todo tatuado, cabeça raspada, se veste com botas pretas e calça de couro, como um motoqueiro, e descreve como este estilo reflete sua visão do masculino. E aí, começam as contradições. Ele diz que quando criança gostava de calças Levi's, mas quando as pedia à sua mãe ela lhe dizia: "Mas só meninos usam Levi's." Como assim, e ele era o quê??? Aos poucos, a ficha vai caindo. Buck nasceu na realidade Susan Lee, mas nunca se encaixou dentro desta realidade.

No documentário, acompanhamos a transformação de Susan para Buck, hoje um empresário e ator pornô transexual que tem algo que os outros não têm: uma vagina. Isso mesmo. Buck resolveu não fazer a cirurgia de mudança de sexo. Mas é casado com uma mulher, a piercer Elayne. E vivem juntos e felizes com seus vários cães de estimação no México. Pois é, no México.

Porém, engana-se quem pensa que tudo se resume à indústria pornográfica. Aliás, ao longo do documentário o que menos importa é a pornografia. Temos a oportunidade de conhecer Buck Angel como pessoa, sua trajetória de vida, todas as dificuldades enfrentadas até se encontrar como trans não operado e o esforço em vender seus trabalhos para o mercado pornográfico norte-americano.

Questionamentos mil vieram à tona para mim. Como mulher, me perguntei o que é ser mulher. Precisamos mesmo de peito, bunda, sutiã, batom, salto alto para sermos mulheres? Ser mulher se resume a essa parafernalha? É só isso que somos? Uma fábrica de sexo e bebês? Então uma mulher estéril ou sem filhos é menos mulher? Qual a imagem do feminino que a nossa sociedade propaga e nós compramos sem titubear? Me perguntei se a necessidade de ver-se homem vem do fato de termos estereótipos tão arraigados de feminino e masculino. Isso deveria ser o mais importante??? Nossa aparência e nosso gênero?
Durante sua infância, Buck era muito atlético e esportivo. Parecia e queria ser menino: mijar de pé e vestir calças. A escola era uma penúria, exceto pelas aulas de Educação Física, que adorava. Quando adolescente, recebeu a proposta para correr numa competição e devido às suas notas foi proibido pelos pais. O treinador foi falar pessoalmente com os mesmos, que continuaram irredutíveis. Tentou se matar pela primeira vez depois deste episódio. Que levanta um outro ponto: o quanto os pais estão prontos para apoiar seus filhos incondicionalmente, em especial nos Estados Unidos, onde crianças são mais motivo de exposição do que qualquer outra coisa. Amor cretino este que ama enquanto o filho é motivo de inveja para a vizinhança e se enquadra no perfil ideal preconizado por uma sociedade hipócrita e materialista.

Antes de virar Buck, Susan foi modelo

Mr. Angel me lembrou do Romeo, travesti da minha cidade natal. Trabalhava na receita federal da cidade vizinha e ia todo o santo dia no mesmo ônibus que eu pegava para o conservatório. Toda maquiada, de salto alto e cabelo descolorido, toda feliz, papeando com algumas amigas. Nunca vi ninguém (exceto papai, que ficou boquiaberto ao vê-lo no caixa da Receita, quando precisou verificar pendências com o "Leão") insultar, olhar torto ou menosprezar o Romeo. Mesmo que por dentro achássemos esquisito, respeitávamos o Romeo. Será esta exclusão o que ajudou a levar Buck à sua escolha profissional? Seria este o único mundo em que ele se sentia incluído, o da pornografia? Ou é esta a minha visão preconceituosa dos atores da indústria cinematográfica X-rated, que os enxerga como pessoas marginais ou problemáticas.? Difícil…

Para quem tem a mente aberta, vale muito a pena assistir a Mr. Angel. Quem não tem, mas gostaria de ver o mundo pelos olhos de outro, assistam também. Um manifesto ao respeito e à importância de valorizar verdadeiramente a dignidade de TODOS os seres humanos.

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