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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Homenagem aos professores...

...Ou com quantos pregos se fecha o caixão da Educação

Professoras do Colégio Manoel Ribas, em Telêmaco Borba/PR


Amanhã é dia dos professores, talvez o mais funesto da história do Rio de Janeiro. De um lado, governantes insistem em resistir ao diálogo e se comprometer com uma remuneração digna e mais justa para a classe. Há quem diga que se os professores estão lá é porque não encontraram coisa melhor. 'Querem ganhar bem? Que sigam para a rede privada ou mudem de área.' Há quem não acredite na greve como forma de protesto por melhorias e alcance de objetivos. Independente de ponto de vista, percebo que a desvalorização sofrida pelo professor ao longo do século passado e início deste é um indicador muito mais triste e sombrio do futuro que aguarda nosso país.

Venho de uma família de professores. Minha bisavó, Brasilina, foi professora do primeiro corpo docente do Grupo Escolar Ruy Barbosa, fundado em 1907. Ela era de uma época em que, como dizia minha mãe, homem "corria atrás" de mulher professora. Ganhavam bem e gozavam de prestígio e respeito na comunidade. E, venhamos e convenhamos, naquela época era mesmo a única profissão considerada adequada a uma mulher, tão próxima da experiência maternal. Talvez essa mesma sociedade do início do século XX não olhasse com tão bons olhos para uma mulher desejosa de ser professora universitária, por exemplo.

Minha tia avó Jacirema também foi professora, assim como minha madrinha, que é uma das três primas de mamãe. As outras duas foram secretárias executivas. Eram os anos 60 e uma nova época se apresentava às mulheres. Agora, com maior facilidade, conseguiam empregos em outras funções além da Educação. Mas, minha mãe foi professora e eu também.

Entretanto, não foi com mansidão que aceitei o ofício tão arraigado no seio de minha família materna. Hoje, adulta, percebo as razões. Minha avó, uma mulher muito humilde e simples, ficou viúva com minha mãe ainda menina para criar. Sem instrução, cheia de dívidas deixadas pelo meu avô e determinada a não se casar novamente, sustentou a família, literalmente, com o suor do seu rosto. Virou salgadeira e pilotou um fogão a lenha na cozinha de nossa casa até pouco antes de eu nascer. Logicamente, como o dinheiro era contado, a única formação que ela pôde dar à minha mãe foi o "diploma de professora", para usar suas própria palavras. E, para convencer a filha das benesses da profissão, ela usou de vários artifícios. O que minha mãe contava sempre é que ela dizia que era a profissão ideal para uma mulher pois só tomava meio período, deixando o outro livre para que ela se ocupasse da casa, dos filhos e do marido. Eu tinha menos de dez anos quando ouvi pela primeira vez a história e, como boa feminista precoce, odiei o discurso do começo ao fim. Outro ponto que me fez fugir do magistério como diabo foge da cruz foi ver minha mãe chegar em casa sempre nervosa, estafada e irritada. E se eu e minha irmã começávamos algum tipo de algazarra sua tática para nos calar era argumentar que já tinha ouvido gritaria de criança a manhã toda e não suportava mais.

E não é que a vida nos prega peças? Aos dezesseis anos, recém chegada de um ano de intercâmbio nos EUA e com uma relação difícil com meus pais, concluí que um pouco de independência não me faria mal. Me ofereceram algumas turmas no curso de inglês onde fora aluna e eu não hesitei. E, depois, quando resolvi seguir a profissão escolhida, foi dando aulas de Música que encontrei uma forma de renda. Quando olho para trás, vejo que fui infantil em rejeitar algo que me é tão natural: ensinar. E tenho que admitir que o formato de aulas privadas individuais é confortável e me dá mais liberdade e autonomia. É calmo, menos cansativo e eu tenho a satisfação de poder dar o meu melhor e buscar extrair o melhor dos meus alunos. Gradativamente fui percebendo que professor mesmo são poucos, talvez menos da metade dos que clamam para si o título. Ser professor é quase como ser vidente. É olhar para dentro de cada discípulo e tentar compreender o que se passa dentro dele e como ele vai poder usufruir do que tenho para ensinar. É nos dedicarmos menos aos que aprendem naturalmente — por mais que nosso ego insista, devemos resistir, eles são os que menos precisaram e precisarão de nós — e voltar um olhar mais paciente e compreensivo para os que necessitam de um esforço a mais de nossa parte para florescer.

Ser professor é uma grande responsabilidade. Devemos ter sempre em mente que nossas atitudes perante nossos alunos o afetarão para sempre e principalmente quando se trata de crianças e adolescentes. Às vezes incompreendidos ou ignorados como pessoa no lar, vão buscar no professor o apoio adulto para se aconselhar e seguir adiante. Portanto, é imprescindível ter amor ao que faz. Mas não somente. Também é essencial que a remuneração e as condições de trabalho possibilitem que o professor possa exercer sua profissão com dignidade. Mas por que é que gradativamente o professor se tornou tão desvalorizado?


Acredito eu que é porque para o brasileiro em geral a Educação é cada vez menos importante. Para as classes mais abastadas é um meio de garantir aos filhos a entrada na Universidade e assim o tão sonhado emprego bem remunerado. E para os mais pobres é aonde os filhos vão porque são obrigados por lei ou para a obtenção do Bolsa Família. E para todas as classes, um lugar onde enfiar as crianças e adolescentes e poder ir trabalhar sem encheção de saco. Afinal, a professora é responsável pela educação deles, os pais pelo sustento. (SIC!) São minoria os cidadãos  que vêem a escola como o local primordial de socialização da criança ou como fonte de saber. Pelo menos onde se aprende como obter informação. E aí a culpa é do modelo de ensino enraizado em nossa sociedade. Com medo de se tornar supérflua, a escola insiste em propagar uma forma de aprendizagem patriarcal, autômata e distante dos alunos. Sem saber bem o porquê, ou com medo de virar lixeiro (você professor do ensino fundamental, vai me dizer que nunca proferiu o "Quer ser lixeiro? Então estude!" ou viu algum colega aterrorizar os alunos assim?) as crianças seguem estudando sem motivação ou gosto. E aprender se torna algo penoso, aquilo que se deixa de fazer assim que possível.

Para os governantes, como não precisam oferecer Educação de qualidade para garantir uma maioria nas urnas (basta um showmício caprichado com sertanejo Universitário, o funkeiro do momento ou o padre/pastor-cantor mais bem cotado), não se incomodam em tentar mudar um tiquinho a situação. Quanto mais piorar, melhor para eles. É triste, mas é a realidade.

Neste dia dos professores, fica ecoando o discurso inesquecível da Aparecida, uma de minhas professoras na faculdade. Ela uma vez nos relatou seu testemunho, que resume a degradação do Magistério. Nos contou que quando criança (lá pelos anos 50, acredito eu) estudava no colégio Pedro II. Todas as suas professoras chegavam de táxi. Sua família era classe média, vivia com conforto. Mesmo assim sua mãe quase não andava de táxi. Já nos tempos atuais estava ela num prédio público (aí não me lembro qual) quando avistou uma grande fila de mulheres meio descabeladas, mal vestidas e descuidadas. Por curiosidade foi perguntar do que se tratava, imaginando ser um concurso para servente ou algo assim. Aparecida se espantou ao saber que aquelas eram as pretendentes ao concurso de professora! Bastaram cerca de 60 anos para que as ilustres e bem colocadas professoras estivessem tão mal financeira e emocionalmente para serem confundidas com aspirantes a faxineira. (sem ofensa às faxineiras)

A essa hora, penso que minha avó Brasilina deve estar se revirando no túmulo. Ver professores agredidos, humilhados, pisados. Com um salário que mal dá para manter uma família no nosso Rio de Janeiro cada dia mais custoso. Lamento pelos meus colegas, mas como agir? Será que todos os grevistas teriam condições de pedir demissão e causar o grande caos necessário para o governo recuar? E será que não teriam vários outros professores dispostos a se humilhar e aceitar prontamente os postos deixados pelos grevistas? Difícil.


Amanhã, fora o aniversário de mamãe, não há nada a se comemorar. É o Brasil dando mais um passo em direção ao precipício. Que Deus abençoe, dê força e ilumine os professores. Amém!    

3 comentários:

  1. Parabéns! Encontrei em seu relato a verdade e o interesse pelos alunos, tendo em vista não só o aprendizado mas também a formação de cidadães que com certeza, um dia, terão uma óptica diferente sobre a educação. Pápilo

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  2. Parabéns! com certeza você está trabalhando para que essa condição em que se encontra o ensino e os professores mude. Me lembrei de quando você, voluntariamente, montou um grupo de pessoas adultas para alfabetizar. Beijos! Pápilo

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  3. Um beijo, Pápilo! Obrigada por comentar.

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