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domingo, 13 de outubro de 2013

Alì tem olhos azuis


Ou sobre a história dos corações sem pátria




"Alì tem olhos azuis" não é um filme para senhorinhas amantes da música e das pitorescas paisagens italianas. O título selecionado para a Mostra Espectativa 2013 é inspirado na obra do brilhante e controverso escritor Pier Paolo Pasolini, "Alì dos olhos azuis".


Nader é um adolescente filho de imigrantes egípcios. Ele ocupa seu tempo entre assaltos e a night underground local com seu amigo italiano Stefano. Quando a família recusa a aceitar o namoro de Nader com a italiana, Brigitte, o rapaz sai de casa e passa a morar na rua. Ao mesmo tempo, ele e Stefano — após esfaquearem um jovem —  são perseguidos por uma gangue de romenos em busca de vingança.


O longa tem uma dose forte de realismo. Não por acaso, a trama se passa em Ostia — periferia de Roma onde Pasolini foi brutalmente assassinado. E os prenomes dos personagens principais são os mesmos dos atores: Nader, Stefano e Brigitte. O enredo aborda conflitos atuais enfrentados pelos europeus: a marginalização do imigrante, sua dificuldade e resistência em se integrar à cultura local e a falta de perspectiva e interesse da juventude moderna. 

(Atenção! o restante da resenha contém spoilers!)

Nader está perdido, sem identidade. É italiano, mas sua família luta contra a miscigenação com os costumes locais. A cena que melhor mostra o quanto Nader não consegue pertencer a nenhum mundo é quando chega na escola e retira com violência o crucifixo da parede. Irritado, diz à professora que não tem que ficar olhando para um homem que ele nem sabe quem é pregado numa cruz. Porém, em casa, acabara de brigar com os pais pois não aceita sua imposição dos costumes muçulmanos.

Porém, "Alì tem olhos azuis" não é um filme só sobre imigrantes e seus filhos sem pátria. É também uma história triste da falta de objetivo e niilismo intelectual de uma grande parcela da juventude atual. Os mais pobres — ou muito ricos — vivem imersos num mundo marginal de drogas, pequenos crimes, sexo livre (ou pago) e música percussiva. Sem ambições, sonhos, ou futuro. Sem vontade ou sem saber como mudar, se não o mundo, pelo menos a sua realidade. E os garotos de classe média, iludidos com as pequenas maravilhas que um estilo de vida consumista e materialista podem proporcionar, vendem sua alma e horas de trabalho aos interesses de grandes corporações.




Enfim, para quem quer aproveitar um pouco de bom cinema italiano, mas sem pizza, Coliseu ou D&G. O filme está escalado para a repescagem do Festival com sessão hoje às 20 horas no Instituto Moreira Salles.

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