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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Homenagem aos professores...

...Ou com quantos pregos se fecha o caixão da Educação

Professoras do Colégio Manoel Ribas, em Telêmaco Borba/PR


Amanhã é dia dos professores, talvez o mais funesto da história do Rio de Janeiro. De um lado, governantes insistem em resistir ao diálogo e se comprometer com uma remuneração digna e mais justa para a classe. Há quem diga que se os professores estão lá é porque não encontraram coisa melhor. 'Querem ganhar bem? Que sigam para a rede privada ou mudem de área.' Há quem não acredite na greve como forma de protesto por melhorias e alcance de objetivos. Independente de ponto de vista, percebo que a desvalorização sofrida pelo professor ao longo do século passado e início deste é um indicador muito mais triste e sombrio do futuro que aguarda nosso país.

domingo, 13 de outubro de 2013

Alì tem olhos azuis


Ou sobre a história dos corações sem pátria




"Alì tem olhos azuis" não é um filme para senhorinhas amantes da música e das pitorescas paisagens italianas. O título selecionado para a Mostra Espectativa 2013 é inspirado na obra do brilhante e controverso escritor Pier Paolo Pasolini, "Alì dos olhos azuis".

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Resenha - A verdade sobre Emanuel

Resenha do filme "A verdade sobre Emanuel"




Uma história sobre luto, culpa, maternidade e o primeiro amor. Seleção no festival de Sundance e com certeza um dos destaques do nosso festival carioca, "A verdade sobre Emanuel", com direção, roteiro e produção de Francesca Gregorini, aborda todos estes assuntos delicadíssimos e os conflitos da adolescência de uma forma linda, suave e ao mesmo tempo real; sem romantismo kitsch.

Emanuel é uma moça prestes a completar 18 anos que viveu sua vida imersa na culpa pela morte da mãe no parto. Quando Linda (interpretada por Jessica Biel) se muda com sua filhinha Chloe para a casa ao lado, a semelhança com a mãe falecida chama sua atenção e assim a introvertida e ácida adolescente aceita ser babá do bebê. Só que as coisas não são exatamente como ela imaginara: a jovem descobre que Chloe é na realidade uma boneca! Entretanto, contrariando toda lógica, Emanuel segue com a fantasia da vizinha.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Resenha - A Suspensão da Realidade


Resenha de "Suspensão da Realidade"




O Festival acaba amanhã e minhas últimas energias devotarei a estas resenhas. Depois disso acredito que mereço o descanso dos justos, ou melhor, dos cinéfilos. Foram quase duas semanas de programação intensa (ontem mesmo fui a duas sessões num único dia) e a vida não pára. Continuo trabalhando, estudando e cuidando da minha família. Apesar de ter visto várias boas produções, acho que já fiz melhores escolhas em festivais anteriores. Mas, esta foi sem dúvida a melhor de todas: Suspensão da Realidade.

Há muito tempo eu não assistia a um filme tão bom em todos os sentidos; daqueles que a gente não cansa. Para quem já viu filmes demais na vida, a história a essa altura do campeonato é o que menos importa, queremos mais. Tem que ser inovador, diferente, inusitado e "Suspensão da Realidade" tem todos estes atributos.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A Piscina - Resenha

Resenha do filme "A Piscina"




Apesar de ainda estar devendo para vocês as resenhas dos filmes de quinta e sábado, preciso avisar: fujam de
"A Piscina", sob risco de quererem se afogar em uma após assisti-lo. São 66 minutos sofríveis e a sinopse instigante é uma grande propaganda enganosa.

O longa (não tão longo assim) promete mostrar o desenvolvimento das relações entre alunos deficientes físicos e mentais durante uma aula de natação. Infelizmente, o trabalho de direção de Carlos Machado Quintela e o roteiro de Abel Argos só estigmatizam ainda mais o estereotipo do deficiente e transformam o filme num show de aberrações desnecessenário que acaba por prestar um deserviço à imagem dos portadores de deficiência.

Se pudesse pegava meu dinheiro de volta, mas… festlval de cinema é assim, tem coisa boa e tem porcaria. Há de se pagar para ver. Prometo postar durante a semana resenhas de "A Suspensão da Realidade" e "A Verdade sobre Emanuel". Mas, já adianto, ambos são nota dez e valem muito a pena! Até mais, queridos.

sábado, 5 de outubro de 2013

Papai não me batizou estrela...

Papai me ensinou a brilhar como uma!



Recentemente, uma pessoa a qual estou ligada por laços que não ousarei expor, a fim de preservar sua privacidade e identidade, comentou que pagou para batizar uma estrela específica com o nome de sua filhinha, um bebê de alguns meses de vida. Achei um gesto bonito e simbólico. Porém, a meu ver, algumas exortações se fazem necessárias, visto que fui filha e, agora já adulta, vejo o quanto a postura do meu pai foi valiosa para a pessoa que sou hoje. E, como essa relação pai-filha de meu conhecido com sua garotinha é praticamente um livro ainda em branco, vale a pena mostrar-lhe o quanto um pai é importante na vida de seus filhos.

Quando nasci, a alegria de pápilo foi tamanha que a altos brados disse que me daria um carro quando eu fizesse dezoito anos. Estou há onze anos esperando o tal carro. Entretanto não fico nem um pouco triste por papai não ter cumprido sua "promessa". Aquela foi uma epifania circunstancial; um gesto carregado de emoção. Assim como dar o nome de um bebê para uma estrela. Para mim valeram muito mais todas as suas manifestações de amor e apego em momentos de plena razão. Decisões na sobriedade são mais difíceis e preciosas.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Walesa, o filho da Polônia


Resenha - Walesa, o Homem da Esperança


Quase uma semana de festival e eu me esforçando para que o blog acompanhe o ritmo da minha programação. Ontem, reservei o dia para descançar a cabeça e o corpo. E resenhar. Mas, só consegui escrever sobre o documentário Mr. Angel, da minha sessão de domingo. E aí cansei. Aliás, peço desculpas aos leitores se a qualidade e a riqueza do texto se encontra comprometida, mas são muitos filmes e eu ainda tenho meu trabalho, meus estudos e minha casa (sem empregada) para cuidar. Espero que esteja conseguindo dar uma idéia dos assuntos tratados nos filmes e minha impressão pessoal, para  assim ajudá-los a decidir nesse mar sem fim de títulos e exibições.

Escolhi o filme "Walesa - o homem da esperança", do célebre diretor Andrzej Wajda, por contar a trajetória de Lech Walesa, eletricista de um estaleiro de Gdansk, na Polônia, que conseguiu mobilizar e liderar a classe operária durante o regime comunista através da fundação do Solidariedade, um sindicato independente que, depois da queda da União Soviética, tornou-se um partido. É definitivamente uma escolha acertada para quem deseja conhecer um pouco mais da história da Polônia e do comunismo no Leste Europeu.

O diretor Andrzej Wajda

Se você não mora no Rio ou não terá tempo para comparecer a uma das limitadas sessões do festival tenho uma boa notícia: "Walesa" terá lançamento nacional no primeiro semestre de 2014. E mãos à resenha!

A narrativa se desenrola através de dois planos concomitantes. A entrevista cedida por Walesa à jornalista italiana Oriana Falacci pontua a história de vida do sindicalista e político. Apesar da sinopse construir um Walesa com superpoderes, capaz de unir a classe trabalhadora, derrubar o Comunismo na Polônia e inaugurar a derrocada do regime soviético, quem tem sensibilidade perceberá que não é assim que o longa o retrata. É sutil, mas não esquecida sua colaboração — mesmo que forçada — como informante da polícia dentro do estaleiro durante os anos 1970 e na incisiva pergunta que Falacci faz ao seu motorista sobre o apartamento da família Walesa ter sido concedido pelo governo (ao qual Walesa faz oposição). Diferente da impressão passada pela publicidade da produção, Walesa não era um simples eletricista com dons de liderança. Apesar de não ser um intelectual, era mais instruído do que a grande massa com a qual lidou e tinha, como ele mesmo afirma em sua entrevista para a repórter, intuição. Era pobre (afinal estamos falando de comunismo, todo mundo exceto quem está no poder é pobre) porém não miserável, e chefe de uma legítima (e numerosa) família católica. Seu perfil colaborou para que contasse com o apoio e confiança do povo na fundação do Solidariedade e na condução da série de greves que sacudiram a Polônia no início dos anos 1980.

E, para bom entendedor meia palavra basta. Ou uma meia dúzia de cenas, afinal é impossível não notar a forte interferência da Igreja Católica nos rumos da política. Ouso afirmar que talvez este tenha sido o momento na Idade Contemporânea em que o Vaticano mais agiu como Estado e não como Santa Sé, usando sua influência para alterar definitivamente os rumos da Europa oriental. Ao eleger um Papa polonês, a Igreja voltou os olhos do mundo para a região e João Paulo II usou de seu papado sem hesitar, a fim de colaborar com a queda do regime.


Entretanto, não podemos desprezar a importância de Walesa para a História. Lech Walesa foi um líder, o símbolo maior que os pequeninos esperam. Fracos perante um regime massacrante, o grande herói é necessário e ansiado; aquele que inspira, que dá força e arrebata multidões. Ele foi o esteio e um espelho para a luta popular. (qualquer comparação com Lula não terá sido mera coincidência)


Destaque também para a construção dos personagens, todos (independente de posição política) retratados de forma humana, o que ajuda a diluir uma idéia arraigada de "bandidos e mocinhos" no cenário político. E, seria injusta se não mencionasse o grande apoio do herói: sua valente esposa Danuta, que criou com boa vontade e coragem sete filhos num Estado totalitário comunista. Ou seja: sem máquina de lavar, empregada, nem microondas; nada destas regalias dos porcos capitalistas ocidentais. E ainda tinha que lidar com as demissões sofridas pelo marido devido ao seu engajamento político e a constante ameaça de prisão e morte.

A verdadeira Danuta Walesa com seus filhos

E, finalmente, para as gerações mais novas (principalmente as do lado de cá da antiga Cortina de Ferro) "Walesa - o homem da esperança" serve para sermos um pouco mais gratos pelo que temos. Fica ridículo nossa manha por não termos o último tipo de smartphone ou uma tv 3D "topmaxfullHD" depois de vermos uma mulher ter que usar o mesmo carrinho de bebê para todos seus seis filhos, um prédio inteiro se reunir numa sala pequena para assistir a um programa televisivo no único aparelho do edifício e pessoas se engalfinhando para garantir víveres cada vez mais caros a uma população pobre e sem perspectiva. E pensar que coisa pior existe, e até hoje.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Resenha - documentário Mr. Angel

Resenha - documentário Mr. Angel



De volta às minhas impressões do Festival do Rio. Quem quiser ver pode ver as resenhas de Nordstrand e os Filhos de Hitler aqui no blog. O lado bom de ter uma programação pessoal intensa é que selecionamos alguns filmes e simplesmente esquecemos dos pormenores do tema. E no caso do documentário de domingo, Mr. Angel, foi a melhor coisa que podia acontecer.

No início, Buck Angel, um homem todo tatuado, cabeça raspada, se veste com botas pretas e calça de couro, como um motoqueiro, e descreve como este estilo reflete sua visão do masculino. E aí, começam as contradições. Ele diz que quando criança gostava de calças Levi's, mas quando as pedia à sua mãe ela lhe dizia: "Mas só meninos usam Levi's." Como assim, e ele era o quê??? Aos poucos, a ficha vai caindo. Buck nasceu na realidade Susan Lee, mas nunca se encaixou dentro desta realidade.

No documentário, acompanhamos a transformação de Susan para Buck, hoje um empresário e ator pornô transexual que tem algo que os outros não têm: uma vagina. Isso mesmo. Buck resolveu não fazer a cirurgia de mudança de sexo. Mas é casado com uma mulher, a piercer Elayne. E vivem juntos e felizes com seus vários cães de estimação no México. Pois é, no México.

Porém, engana-se quem pensa que tudo se resume à indústria pornográfica. Aliás, ao longo do documentário o que menos importa é a pornografia. Temos a oportunidade de conhecer Buck Angel como pessoa, sua trajetória de vida, todas as dificuldades enfrentadas até se encontrar como trans não operado e o esforço em vender seus trabalhos para o mercado pornográfico norte-americano.

Questionamentos mil vieram à tona para mim. Como mulher, me perguntei o que é ser mulher. Precisamos mesmo de peito, bunda, sutiã, batom, salto alto para sermos mulheres? Ser mulher se resume a essa parafernalha? É só isso que somos? Uma fábrica de sexo e bebês? Então uma mulher estéril ou sem filhos é menos mulher? Qual a imagem do feminino que a nossa sociedade propaga e nós compramos sem titubear? Me perguntei se a necessidade de ver-se homem vem do fato de termos estereótipos tão arraigados de feminino e masculino. Isso deveria ser o mais importante??? Nossa aparência e nosso gênero?
Durante sua infância, Buck era muito atlético e esportivo. Parecia e queria ser menino: mijar de pé e vestir calças. A escola era uma penúria, exceto pelas aulas de Educação Física, que adorava. Quando adolescente, recebeu a proposta para correr numa competição e devido às suas notas foi proibido pelos pais. O treinador foi falar pessoalmente com os mesmos, que continuaram irredutíveis. Tentou se matar pela primeira vez depois deste episódio. Que levanta um outro ponto: o quanto os pais estão prontos para apoiar seus filhos incondicionalmente, em especial nos Estados Unidos, onde crianças são mais motivo de exposição do que qualquer outra coisa. Amor cretino este que ama enquanto o filho é motivo de inveja para a vizinhança e se enquadra no perfil ideal preconizado por uma sociedade hipócrita e materialista.

Antes de virar Buck, Susan foi modelo

Mr. Angel me lembrou do Romeo, travesti da minha cidade natal. Trabalhava na receita federal da cidade vizinha e ia todo o santo dia no mesmo ônibus que eu pegava para o conservatório. Toda maquiada, de salto alto e cabelo descolorido, toda feliz, papeando com algumas amigas. Nunca vi ninguém (exceto papai, que ficou boquiaberto ao vê-lo no caixa da Receita, quando precisou verificar pendências com o "Leão") insultar, olhar torto ou menosprezar o Romeo. Mesmo que por dentro achássemos esquisito, respeitávamos o Romeo. Será esta exclusão o que ajudou a levar Buck à sua escolha profissional? Seria este o único mundo em que ele se sentia incluído, o da pornografia? Ou é esta a minha visão preconceituosa dos atores da indústria cinematográfica X-rated, que os enxerga como pessoas marginais ou problemáticas.? Difícil…

Para quem tem a mente aberta, vale muito a pena assistir a Mr. Angel. Quem não tem, mas gostaria de ver o mundo pelos olhos de outro, assistam também. Um manifesto ao respeito e à importância de valorizar verdadeiramente a dignidade de TODOS os seres humanos.