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domingo, 29 de setembro de 2013

Resenha - Os filhos de Hitler


"Por que julgas, então, o teu irmão? Ou por que desprezas o teu irmão? Todos temos que comparecer perante o Tribunal de Deus." Romanos 14, 10



E o festival continua. Ontem a sessão foi totalmente às avessas. Tinha escolhido para hoje "O seqüestro de Patty Hearst". Porém, como na sexta o filme ainda não havia sido liberado, tinha dúvidas se queria ou não vê-lo e o Instituto Moreira Salles é muito fora de mão e em local um pouco perigoso para quem não dirige, optei por assistir a "Os filhos de Hitler".



Documentário dirigido e produzido pelo israelita Chanoch Ze'evi (alguém sentiu um cheirinho de parcialidade no ar?) sobre a situação dos filhos e netos dos mais altos representantes do regime nazista. Só que os ingressos se esgotaram no ingresso.com e, tenho que admitir, a preguiça bateu e achei o filme (que não é estréia) para download na net. Fiz então minha sessãozinha com cama ao invés de poltrona, e telinha no lugar da telona.

Apesar de ser um prato cheio para legitimar a colonização e instauração do Estado de Israel (como se dois errados fizessem um certo), o documentário traz à tona vários temas cabais, não todos ligados à Segunda Guerra e ao Nazismo.
O mais importante deles, e mais óbvio (pelo menos para mim), é a maldição que a família se tornou para a sociedade. Núcleo primordial para a preservação da nossa espécie, a família permite que o recém-nascido — ainda muito despreparado para sobrevivência em comparação com outros mamíferos — se desenvolva protegido até a maturidade física e psicológica. Evoluímos com tanto sucesso que atualmente, para garantir nosso futuro, é necessário limitar o crescimento populacional a fim de evitar o colapso do ecossistema e um conseqüente desaparecimento da espécie. Mas, a genética nos prega peças e, um recurso existente para auxiliar na nossa perpetuação acaba por afastar mais e mais as pessoas entre si.

Já não é a primeira vez que eu ouço frases auto-ilusórias de meros mortais tentando ser imortais. "Filho é a coisa mais importante; é a continuação da gente." "Estamos grávidos. Logo logo uma miniatura de nós chegará ao mundo." Há também as de cunho pejorativo, porém carregadas do mesmo estigma: "Tal pai, tal filho.", "Filho de peixe, peixinho é.", entre outras. Grande novidade para os papais e mamães do mundo: seu filho só tem a sua cara para que o seu ego te motive a criá-lo com amor e perpetuar a ESPÉCIE, e não você. Você morre junto com seu último suspiro.

Porém, esta idéia é uma pesada cruz tanto para descendentes de pessoas ilustres como para personalidades atrozes, capazes dos atos mais hediondos. E influencia a forma como os descendentes de Hoess, Goering, Himmler, Goeth e Frank lidam com a atitude e a ideologia de sua família. Os sobrinhos-netos de Herman Goering resolveram se esterilizar e o filho de Niklas Frank viaja a Alemanha, lendo partes de seus livros onde conseguir palestrar. Assusta que a tragédia do Holocausto tenha separado ainda mais a Humanidade, trazendo rancor e preconceito. O mundo se dividindo em etnias boas ou más. Como se sanguinários não houvessem em toda parte do mundo. O pobre Niklas afirma em suas palestras ainda desconfiar de cada rosto alemão para o qual palestra, dizendo que acredita que tudo aconteceria de novo se a situação econômica piorasse. E várias outras nações não foram capazes de apoiar ditadores e regimes totalitários? Atualmente, qual é a situação do imigrante nos países desenvolvidos? Só que os alemães tiveram a desgraça de ter lunáticos no poder e perder a guerra. Se cada crime de guerra cometido por soldados russos ao tomar Berlim viesse à baila com a mesma intensidade que o Holocausto, talvez não houvesse um russo capaz de andar de cabeça erguida; envergonhados todos pelas maldades cometidas por seus ancestrais. Mas crime de guerra de vitorioso não é crime, né?

Entretanto, nem tudo é tristeza e ressentimento em "Os Filhos de Hitler". Alguns deles assumiram de peito aberto seus sobrenomes mal-assombrados e foram fundo para entender quem foram seus ancestrais e provar que todo ser humano integrado a uma sociedade aberta e plural é capaz de questionar o comportamento de seus genitores e se tornar um indivíduo, com caráter e convicções próprios. Katrin Himmler, por exemplo, enfrentou a hostilidade de sua família, sobre a qual paira uma névoa de silêncio acerca do Holocausto e a responsabilidade do patriarca no episódio macabro. Mas ela e Hainer Hoess entenderam que para virar a página e iniciar uma nova caminhada, agora com passos só seus, é preciso chafurdar a lama da verdade, antes de soterrar o chiqueiro por completo. E a verdade pode ser suja, mas liberta. E une, através do milagre do perdão.
Deixo vocês com o mais belo trecho do documentário. Um momento singelo, onde não há judeus nem alemães, somente gente perdoando e aprendendo a suportar a dor de reconhecer a existência do mal.

a cena inicia em 6:45


e termina em 1:31 deste segundo vídeo

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