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sábado, 28 de setembro de 2013

Festival do Rio - Resenha Nordstrand

Resenha do Filme Nordstrand



Quem sofre mais? Vítima ou testemunha? Por que todo o ser humano tem a capacidade automática de se reproduzir? Sem curso preparatório, prévia autorização ou avaliação, todos os homens e mulheres saudáveis e férteis podem gerar descendentes. Basta que… ah, todos os leitores deste blog sabem de onde vêm os bebês. Mas, será que todos aqueles que decidiram pôr filhos no mundo estão tratando bem destes seres inocentes, dependentes e ainda imaturos neurológica e psicologicamente?


Num momento em que muitas sociedades buscam proteger cada vez mais os menores de abusos sexuais e punir seus agressores, a ofensa física e psicológica acaba ficando em segundo plano. E é este lado silencioso da violência doméstica que o diretor, roteirista e produtor alemão, Florian Eichinger explora em seu filme "Nordstrand", integrante da mostra "Foco Alemanha" do Festival do Rio 2013.


Marten e Volker são dois irmãos que retornam à casa onde passaram infância e parte da adolescência. Sua mãe está prestes a sair da cadeia depois de cumprir pena pelo assassinato do pai dos rapazes. Motivo? Um pouco obscuro para quem assiste, mas provavelmente ocorrido pela perda de controle e o ódio acumulado pelos anos de espancamentos e tortura psicológica sofrida pelo caçula, Volker. Marten tem apego à casa e quer ele e o irmão lá para receberem a mãe. Deseja um recomeço para a família. Volker porém retorna com o único intuito de vender a casa, partilhar o valor obtido com Marten e continuar sua vida só, longe da mãe e do irmão.

Os dois símbolos maiores do filme são explorados magistralmente por Eichinger: a casa e as portas. A casa, signo absoluto da família e do lar. É nela que ambos se tornaram o que são hoje, e onde depositam sentimentos e intenções controversas. Ela é poderosa e franca. Impossível não se lembrar da canção "A rush of blood to the head", do Coldplay.



E dentro da morada, muitas portas. Ela, que é o terror maior da vítima, o acessório do agressor e o consolo da testemunha. De maneira incrível, o fechar de portas é usado como condutor de emoções no espectador. Gera apreensão, tristeza e revolta. Mas, o filme aprofunda o debate ao tirar o foco da culpa e punição do agressor. O pai bêbado e violento é apenas uma sombra, já morta e enterrada. Agora todos que se omitiram têm que lidar com sua falta de atitude, o que talvez seja sofrimento pior do que os traumas da vítima. Perdoar a si mesmo é a tarefa mais dura e delicada. O filme também serve de alerta a vizinhos, amigos, familiares e conhecidos, para que se quebre o silêncio sutil da violência familiar. Sempre achamos que estamos imaginando demais, que não é da nossa conta, que não devemos nos meter na vida alheia. Será? Até que ponto o véu das convenções sociais acoberta e encoraja a continuidade da agressão dentro de casa?

Entretanto, fica o aviso: produção alemã, ok? Não espere a delicadeza francesa ou o dramalhão policial dos americanos. Filme seco, mas muito tocante, com uma fotografia excelente e bem trabalhada. Vale a pena!











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