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terça-feira, 17 de setembro de 2013

As irmãs de sangue que me perdoem, mas amiga de infância é fundamental


Magnificat à Luísa



Queridos leitores,

Me mantive no limbo por algumas semanas, meio sem inspiração, sem ter sobre o que escrever. Mentira, tenho muito sobre o que falar, só ainda não está pronto para vocês. Nesta semana que passou visitei minha família, vi minha irmã querida finalmente começar a nascer espiritualmente e tentei prestar auxílio à uma pessoa muito especial, num momento único para ela e sua filhinha linda, prestes a completar três meses. Este texto é um Magnificat às capacidades de uma grande amiga; quase irmã, pela qual eu nutro grande admiração e para quem eu desejo do fundo do coração e com todas as forças mais nobres possíveis ao ser humano que ela viva sempre na mais absoluta felicidade.

Nossa Senhora com Menino Jesus

Luísa é uma das minhas melhores amigas. Não, ela é de longe a minha melhor amiga. Tão amiga que virou família. Me casei com seu primo e assim somos primas também. Nos conhecemos no colégio, brigando (para variar). Estávamos na quinta ou sexta série e ela tinha o péssimo hábito de agredir fisicamente aqueles que a desagradavam de alguma forma. E como — tenho que admitir — eu também não era a criança mais simpática da turma, sempre entrávamos em atrito. Não tinha força física, então usei da psicológica. Organizei com os outros colegas um "gelo": espécie de bullying emocional que consiste em evitar por completo a pessoa, mesmo que ela tente contato. Ao final de uma semana de "gelo" bem aplicado, fui parar na Direção. Sua mãe compareceu à escola e informou aos superiores que a filha atravessava um período difícil, visitando um psicólogo e o tal "gelo" a tinha deixado num péssimo estado emocional. Quando fiquei sabendo me senti mal, muito mal. Quando eu iria imaginar que aquela garota forte, que não levava desaforo para casa, seria na realidade tão frágil a ponto de chorar na minha frente, assim que confessou estar sofrendo com o desprezo da turma? Apesar de saber que aquela foi a minha forma de defesa, me arrependi amargamente. E depois de tão malfadado episódio, aos poucos nos tornamos amigas.

Luísa é de longe a pessoa mais inteligente que conheço. No ano em que se formou, até seus colegas do rígido colégio para qual se transferiu a fim de terminar o Ensino Médio invejaram seu sucesso no vestibular. Lembro de ter ouvido um deles comentar com os outros: "Luísa passou para todas as faculdades, nos cursos que escolheu." E olha que nunca a encontrei uma vez sequer se descabelando em cima dos livros. Estudava sim, mas sempre estava com aquela fala suave, sotaquezinho mineiro; na tranqüilidade. Muito justa e preocupada com as questões de desigualdade social, ela é uma das poucas pessoas que têm o direito de se intitularem comunistas com C maiúsculo. Diferente de outras, que têm a leitura unicamente como entretenimento ou muleta para terapia, minha amiguinha possui uma biblioteca digna de uma mente cara, rara e de vastos interesses: Sociologia, História, Filosofia, livros técnicos, Dickens, Marx, Engels. Ela é aquela que te conta coisas novas, com quem você aprende e não quem você ensina.

Duquesa consorte Louise d'Artois

Entretanto, tudo tem seu preço e tanta consciência não viria de graça. Luísa viu-se sempre mergulhada em dissabores amorosos, problemas de adaptação, depressão, síndrome do pânico e assim passou os últimos anos entre mudanças, vestibulares (sempre com sucesso) para diferentes cursos, matrículas, transferências, trancamentos, medicação, terapia. Some-se a tudo isto o olhar de esguelha da sociedade e da família, que cobra um sucesso palpável: diploma, emprego, salário (de preferência bem alto numa empresa bem conhecida), casamento, uma casa limpa, equipada, arrumada e — como a PEC das domésticas chegou para ficar — uma diarista muito bem disposta no lugar da boa e velha empregada, servindo um almoço vistoso para uma família feliz.

Fico pensando: como pode uma pessoa tão maravilhosa e capaz ter sofrido tanto? Um dos motivos provavelmente reside nesta caixinha-modelo aí de cima, que busca separar o mundo entre pessoas bem-sucedidas (como se isso fosse sinônimo de felicidade) e fracassadas, sempre usando como gabarito o conjunto emprego-salário-estabilidade emocional e conjugal. E lógico que uma mulher como ela quer mais: quer ter seu lugar no mundo, se sentir útil e produzir conhecimento; crescer por dentro, mais do que por fora.

Além disso, Lú menciona com insistência uma culpa cuja origem ignoro. Talvez ela atribua para si a culpa de algum acontecimento , mesmo eu tendo certeza que a Lú não tem culpa de nada. Culpa de quê? De nascer, crescer e ser linda por dentro e por fora? Não, você não tem culpa de absolutamente nada! Pessoas como você nos ajudam a crer num mundo melhor e a apostar no ser humano.

Talvez ela tenha somente uma única culpa: ter uma altíssima sensibilidade e levar o restante da nossa imprestável humanidade muito a sério. Deposita sua fé em todos, acreditando-os dignos depositários da sua confiança. Ilude-se ao imaginar todos os seres humanos leais como ela própria. Então, decepciona-se e vai ao fundo do poço, num desgaste emocional excessivo e desnecessário.

Fico triste em saber que quando criança a machuquei. E logo onde dói mais: no coração. Espero ter conseguido reparar o mal-feito ao longo destes anos de amizade e se ela me considerar um tiquinho-inho do que eu a considero, já me dou por satisfeita.



Luísa, um grande beijo e saiba que sua amiguinha te ama muito e quer ver você realizada e muito feliz.

Amém.

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