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terça-feira, 3 de setembro de 2013

A Mulher Francesa




Quando ainda estava na faculdade, mesmo que muito assoberbada, me reservava o prazer de participar com assiduidade do Festival de Cinema do Rio. Que delícia era ir até o Espaço de Cinema na Voluntários da Pátria e recitar ao atendente filme por filme da minha listinha. E prazer inexplicável sentia ao ver a tripinha aumentar progressivamente até que cessasse a impressão. Aí eu carregava para casa cerca de quinze a vinte entradas para os mais variados cinemas do Rio, exibindo filmes de todos os tipos. Aquele momento era só meu: sozinha — ou melhor, acompanhada por um sacão de pipocas — no escurinho da sala de projeção eu chorei e ri com personagens de todo o mundo. E sempre me derreti pelo cinema francês; invariavelmente sutil para contar até as histórias mais dramáticas.

Cena do filme "Jules et Jim", de François Truffaut
E esse mês, depois de alguns anos um pouco afastada de produções de qualidade, tive o prazer de poder assistir a dois filmes franceses os quais eu não poderia deixar de comentar aqui no blog. Apesar de muito diferentes entre si, ambos possuem algumas semelhanças: têm como protagonistas duas consagradíssimas atrizes (deusas, musas, divas) do cinema francês e o olhar voltado para temas delicados, porém contundentes.


"Uma Dama em Paris", do diretor Ilmar Raag, é mais palatável. Anne (Laine Mägi), uma cuidadora de idosos estoniana, acaba de perder a mãe, o marido é um alcóolatra imprestável e os dois filhos já estão crescidos e moram em outras cidades. É nesse ínterim que ela recebe uma proposta para trabalhar para uma rica senhora estoniana radicada em Paris, Frida (Jeanne Moreau). Ao chegar, encontra uma idosa muito diferente do que ela esperava (e nós todos, também!). O filme é divertido, mostra uma Paris mais real, sem os clichês de Hollywood e, ao mesmo tempo, nos leva a refletir sobre as dificuldades da mulher que dedicou sua vida e investiu todo seu tempo em paixões voluptuosas e esmerou-se em aproveitar tudo o que sua beleza e sensualidade podiam proporcionar-lhe, sem se importar com valores morais ou éticos e muito menos demonstrar consideração com o próximo. Ou melhor, com a próxima! E o que acontece quando a beleza se esvai e os amantes se afastam? É muito intenso perceber o intercâmbio que Anne e Frida fazem. Ao compartilharem o que têm de mais poderoso, uma transforma um pouco a vida da outra. Sem contar que as duas atrizes dão um banho de charme e atuação, cada uma à sua maneira. Para quem ficou curioso, segue o trailer do filme:


Reparem no colar de pérolas de Chanel usado por Frida, pura elegância e sofisticação!

E passar das duas irreverentes estonianas para "Camille Claudel - 1915", de Bruno Dumont é como mudar da água para o vinho. Não, é sair daquela caipirinha de morango cheia de açúcar para uma dose dupla de vodka russa sem gelo, entornada de uma vez só. Bruno Dumont é um cineasta bastante controverso, com uma obra que trata de conflitos interculturais, religiosos e sexuais sem rodeios. Só que desta vez sou obrigada a avisar ao espectador: o longa é sem muito movimento, sem muita ação, sem trilha sonora. Sabe aquele seu amigo que diz que filme europeu é parado? Pois é, se os outros são parados, esse é empacado mesmo. Amarrou o burro na cerca e esqueceu lá. Só que isso não quer dizer que não seja um bom filme. Nele vemos Camille Claudel, escultora francesa, na casa dos cinqüenta anos, quando foi internada pela família em Montdevergues, um sanatório próximo da cidade de Avignon, no sul da França. Apesar de visivelmente afetada pelo fim mal resolvido de seu relacionamento com Rodin, Camille não está nem é louca. Aliás, você sabe quem foi Camille Claudel? Conhece alguma de suas obras?

Detalhe de uma obra de Camille Claudel
Camille nasceu em 1864, uma época em que meninas nasciam para se casar, serem mães e esposas. Entretanto, o pai percebeu seu talento para esculpir ainda na infância. Passou então a investir em sua educação a fim de que desenvolvesse suas habilidades. Já em Paris, ainda muito menina e inocente, não soube lidar com a miscigenação trabalho-amor. Ao ingressar como aprendiz no ateliê de Rodin, apaixonou-se perdidamente por seu mestre e dedicou-se a esse amor, sendo por fim não correspondida. Aos poucos, apesar do imenso talento, Camille tornou-se uma sombra do que foi, do que poderia ter sido. Por que? Por quê?


trailer do filme, legendado em português

Como já disse acima, "Camille Claudel - 1915" é sem uma porção de coisas. Mas ele não precisa de nada para existir, pois quase não é um filme; é praticamente um manifesto. É um mal necessário para que conheçamos esta artista, sua obra, e nos perguntemos o que realmente aconteceu com uma mulher tão capaz, tão forte. O que ainda destrói o futuro e a estabilidade emocional de tantas mulheres, até hoje? O filme inclusive me aguçou o interesse em ler mais sobre Camille, e já estou aguardando ansiosa pela entrega da minha encomenda na Livraria da Travessa com o livro "Camille Claudel, sa vie", de Odile Ayral-Clause, para iniciar minha leitura.



Se apesar de tudo o que contei, você ainda quiser sofrer junto da estupenda Juliette Binoche encarnando Camille, coragem! Vale a pena! Pense que o que você vai somente experimentar por cerca de 90 minutos mostra o que foram os trinta anos seguintes da vida de Camille, que faleceu em 1943, enclausurada no mesmo sanatório.






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