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sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Procura-se a Arte desesperadamente

a Arte

...Viva ou morta.
Recompensa: a sua sanidade.
(Prelúdio em prosa)

Queridos amigos leitores,

O post de hoje tinha por missão inaugurar uma série especial sobre filmes, ou melhor, sobre livros e suas respectivas versões cinematográficas. Porém, durante a produção, um aspecto fundamental da seqüência ganhou vida própria e um post inteiro só para si. Este, portanto, será um prefácio, mas nem por isso deixará de fazer parte de uma análise cuidadosa e minuciosa, que consiste somente da minha visão, e não necessariamente da realidade. Vocês têm todo direito de concordar ou discordar e eu tenho todas as possibilidades de estar certa ou errada. Afinal, a vida é um livro aberto e — enquanto vivos — ainda em processo de criação, podendo ser editado, visto e revisto infinitamente até que a última página o feche, ao apagar das luzes.

Antes de mais nada, é importante ressaltar que não escrevo com um olhar dicotômico sobre literatura norte-americana e suas (boas) adaptações para o Cinema. Estigmatizou-se a idéia de que o livro é sempre melhor e como nada poderá transformar essa triste realidade, só resta ao fiel admirador de determinada obra ir ao cinema e de lá sair — seja muito ou pouco — invariavelmente decepcionado. Isso é em grande parte culpa da própria sociedade elitista em que vivemos, onde duas Artes completamente diferentes são injustamente comparadas. E, verdade seja dita,
na maioria das vezes não se busca comparar Cinema e Literatura e sim depreciar a sétima Arte como indigna e acusá-la de meio de fácil absorção por um grande (e preguiçoso) público. Pior do que isso só mesmo a televisão — essa sim coitada, totalmente marginalizada e por vezes com razão. Mas, como já provei aqui mesmo neste blog, no post "Ninguém ama Paulinha", todas as três formas podem nos levar à reflexão. Infelizmente, só se consegue com essa atitude sectarista afastar uma grande parte de leitores em potencial, pois a Literatura fica estereotipada como complicada e de difícil compreensão; coisa para dona-de-casa abastada ou para o aposentado desejoso em exercitar os neurônios. Grande ilusão: as mães de família entediadas, em sua maioria, preferem gastar seu ócio (e os rendimentos dos maridos) no salão ou às compras, e os velhinhos modernos costumam ativar suas sinapses com palavras cruzadas ou revistinhas de Sudoku. E a quem resta a leitura, então?

Lamentavelmente, resta essa tão envolvente atividade a desgraçados estudantes, com títulos predeterminados pelos educadores e data limite para o término da leitura, quando serão submetidos a uma avaliação ou então deverão apresentar um temido resumo. E, ainda não contentes, os professores impõem aos pupilos uma tortura adicional: número mínimo de linhas para a tal "síntese da obra". E a Poesia, ao invés de lida, declamada, cantada, refletida e acolhida, é eleita para intermináveis aulas de dissecação onde a nossa Protomúsica — repleta de ritmo e lirismo — será cruelmente retalhada e reduzida a figuras de linguagem e um milhão de milímetros de versos métricos. Sacrilégio! Heresia mor!


ler por obrigação

Para começo de conversa, obra alguma deveria ser tópico de avaliação pedagógica. Nem pintura, nem livro, nem nada. Excertos de uma mesma Escola, Período ou das Fases de um determinado artista podem ser agrupados e então classificados. Mas como pode uma obra de Arte ser definida? Que importa a intenção do autor ao criá-la? Podemos conjecturar a fim de tentar compreender melhor o mundo em que vivia, o pensamento e os desejos de uma época. Mas o fundamental é o impacto que ela nos causa. Há livros e filmes depois dos quais nossas vidas nunca mais serão as mesmas; um inocente perfil de moça numa tela pode inaugurar uma visão do feminino antes inimaginável. E uma melodia pode ser tanto o símbolo eterno de um momento quanto o alento de pais exaustos para os quais uma canção de ninar significa que poderão ver os próprios travesseiros mais cedo.


tela de Johannes Vermeer

E ainda querem aniquilar o poder mais nobre da Arte: a força de revolucionar, impressionar e fazer nascer em nós o que temos em comum com o divino, que é a imaginação. Tenta voluntariosamente a escola, enclausurar a mística da Arte em "Avaliações de compreensão da obra" ou em entediantes questionários a serem preenchidos. E ai daquele que se atreve a ser sincero ao destoar da opinião de "autoridades" no assunto. Será severamente penalizado com uma generosa diminuição no conceito. E assim nosso sistema de ensino vai gradativamente atingindo seu objetivo: formar uma sociedade de autômatos, privados da comunhão da alma com a Arte. E quando se entra em contato com Ela é de maneira distante, sem interação, e somente porque a sociedade cobra do indivíduo seu consumo. Para ser respeitado, o cidadão deve manter contato com manifestações artísticas "superiores". E se elas nada lhe despertam, ele entende que ainda não desenvolveu suficientemente seus sentidos. Precisa ser mais assíduo para assim se habituar.

Percebe-se que coroamos alguns gêneros e assim, ironicamente, os condenamos à uma eterna incompreensão. Ou seja, para o pobre consumir esta Arte é coisa de rico; gente estudada. E o rico geralmente acha chiquérrimo, mas não a vivencia ou — principalmente a classe emergente — acha perda de tempo e dinheiro. E digo isso por experiência própria: quando adolescente ouvi do meu pai que era um desperdício comprar livros, afinal, depois de lidos tornavam-se inúteis. E, mais recentemente, meu marido relatou jocosamente a cena que presenciara em frente à Apple Store de Nova Iorque. Para quem não sabe, a pracinha à volta do icônico "cubo" tem wi-fi e os turistas aproveitam para acessar gratuitamente a internet. Procurava um toalete e quando, já aliviada, fui ao seu encontro, sou surpreendida por um risinho sarcástico a me dizer: "Acabei de escutar um brasileiro ao telefone. Alegava não ter visitado o MOMA pois a entrada era caríssima (18 dólares), mas rejubilava-se por ter comprado um iPad de 800 dólares".

Não é tão difícil perceber os motivos do aumento significativo dos casos de depressão e distúrbios de ordem emocional e psicológica nas sociedades urbanas modernas. O homem simples do campo, mesmo que involuntariamente, tem a chance de imaginar. E sem se culpar ou questionar sua propriedade. Sua vida tem a poesia da roupa colorida balançando no varal, o pôr-do-sol dourado no horizonte, os animais da roça a divertir-lhe e ocupar seu cotidiano. Quando deita de barriga para cima, ele é livre para ver bichos e objetos formarem-se nas nuvens ou pensar que o sol faz estrelas de dia entre as folhas de frondosas árvores. E sem incentivo de alucinógenos! O homem simples complica, sim. E isso faz dele mais simples do que nós que (tão racionais) não raramente nos culpamos por reagir aos nossos instintos, intuições e fantasias (veja como a maioria deles não tem pudor em acreditar e contar histórias fantásticas sobre seres e acontecimentos sobrenaturais). O homem simples sabe que não há resposta para tudo e não assume a missão de controlar o mundo e desvendar os mais insondáveis enigmas. Ele — na roça ou no morro — cria, compreende e vivencia sua cultura; ela é natural e inerente à sua vida. Então, por que para muita gente a nossa própria cultura parece distante, pertencente a uma realidade artificial? Elementar, meu caro Watson.


A Sesta

Primeiro porque dividimos a Arte entre o que é válido ou não, enquanto toda forma de expressão subjetiva GENUÍNA de um indivíduo, camada social ou de um povo inteiro é Arte. É claro que produções de qualidade técnica superior e mais intensamente inspiradas tendem a sobreviver às tempestades do tempo e ganham status de "obras-primas". Mas, isso nos dá o direito de negar a expressões GENUÍNAS, porém desprovidas de maior requinte, o título de Arte? Digo genuína porque ainda temos que lidar, principalmente hoje em dia, com um charlatanismo cultural difícil de identificar, porém fácil de definir. Quando cria-se uma manifestação somente para gerar dividendos e fama, ela não é Arte. Parece, mas não é.

E, segundo, porque afastamos a Arte do nosso dia-a-dia. "Peraí, como assim?", você deve estar se perguntando. "Eu ligo rádio de manhã, vou ao cinema aos fins-de-semana. Vou até ao teatro de vez em quando!" Pois é, graças a Deus botamos um sonzinho para tocar e nos distraímos com uma pipoca e um cineminha. A Música e o Cinema ainda conseguem escapar, mesmo que a duras penas. Pois, há de enlouquecer a civilização quando nela houver a separação entre o útil e o belo. O dia em que o útil for somente útil, ele será inútil. Morremos um pouco cada vez que casas são só para morar, edifícios só para subir, descer e se instalar. Templos só para rezar. Mulher só para casar. Quando tiramos o "Machado" da estante só porque é dever escolar. Em tudo há de se ter o que usar e também o que contemplar. Senão sucumbiremos nesse mar de locais e coisas inúteis, porém muito úteis. Ou úteis, porém muito inúteis?

Divagações à parte, voltemos à questão dos livros e da leitura. Será que não lemos mais e melhor porque temos preguiça ou porque temos medo? Acredito que não lemos por diversos fatores. Não lemos porque temos não só medo, mas também preconceito (e quem teria coragem de ler depois da tortura sofrida numa escola que não ensina a apreciar e sim picotar, bisbilhotar e racionalizar?). Não lemos porque simplesmente não fomos habituados. Alguns não lêem porque não têm escolaridade e/ ou sensibilidade o suficiente para se interessar ou conseguir não só ler, mas também entender o que leu. Não lemos porque ler nos força a entrar em contato com aquela parte de nós que cria, imagina e sonha, e esta está cada vez mais distante. É, não lemos porque temos medo, acima de tudo. Medo de nos encontrarmos com nós mesmos, lá no fundo.

Mas, embora travem-se duras batalhas, a guerra está longe do fim. Ao lado da leitura, temos algumas escolas adotando abordagens mais agradáveis e inclusivas. Felizmente, muitos adultos estimulam seus filhos no hábito de ler. E graças a Stan Lee, Walt Disney, Maurício de Sousa, entre outros incontáveis autores de quadrinhos, milhões de crianças e adolescentes iniciaram-se na leitura de uma forma mais leve e lúdica. Se não fosse pelos muitos escritores infanto-juvenis, com seus best-sellers atraentes, não se teria formado toda uma geração de novos leitores, menos preconceituosos e mais ecléticos. Há ainda esperança, mesmo que pareça pequena.

Portanto, venho aqui conclamá-los a ler, para o próprio bem da sua sanidade mental. É preciso manter a Arte viva ou então morreremos por dentro, enquanto vaga pelo mundo uma carcaça de nós. É bem verdade que se chegaram até aqui, vocês já são iniciados nos prazeres e mistérios da leitura. Mas ainda assim. Talvez precisem tirar o Jorge Amado, o Machado de Assis, o Eça de Queiroz da sua estante. Vale Sidney Sheldon também. Vale tudo! Pode ser curtinho, vale também. Ou então, seduza um novato para o nosso lado. Venham, venham, venham todos, pois quem lê, grita, ri, chora, sonha e vive mil vidas dentro de um silêncio delirante.

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